Saúde mental em debate
O deputado Virmondes Cruvinel (Cidadania), membro titular da Comissão de Saúde e Promoção Social, realizou na manhã desta quarta-feira, 22, audiência pública que tratou da conscientização sobre saúde mental na campanha Janeiro Branco. O evento teve lugar no auditório Solon Amaral da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) e contou com a participação do presidente do Conselho Regional de Psicologia 9ª Região Goiás (CRP-09), Wadson Arantes Gama e das psicólogas e palestrantes Karen Michel Esber, Ana Lourdes de Castro Schivianato, Christine Ramos Rocha, Marina David e Poliana Derossi.
O deputado Virmondes Cruvinel ressaltou que o projeto de lei aprovado na casa, para que o Janeiro Branco aconteça todos os anos, foi uma resposta à altura da importância em debater esse tema e buscar soluções para melhorar as condições de vida do ser humano. O parlamentar explicou a importância de se trazer esse tema dentro do Legislativo, a fim de conhecer sobre a realidade nas várias áreas da psicologia. Ele lembrou ainda o papel da Casa que é, além de fazer leis e fiscalizar as ações feitas pelo Executivo, trazer discussões importantes para a comunidade e orientar os municípios sobre os serviços que oferecem.
Durante o encontro, foram abordadas várias áreas da psicologia dentro das palestras, ministradas por profissionais da área: “Saúde Mental no Campo da Psicologia Jurídica” – Karen Michel Esber; “Retrocesso ao Modelo Manicomial no Contexto Atual” – Ana Lourdes de Castro Schivianato; “A Saúde Mental na Perspectiva da Proteção Social” – Christine Ramos Rocha; “Saúde Mental nos Contextos Educativos: Desafios e Possibilidades” – Marina David e, por último, a palestra “O despertar da Saúde Mental no Mundo do Trabalho” – Poliana Derossi.
Enfrentamento ao problema
O presidente do Conselho Regional de Psicologia 9ª Região Goiás (CRP-09), Wadson Arantes Gama, ao fazer uso da palavra, salientou que “aqui é lugar do povo, onde ele tem voz”, e prosseguiu ao falar da necessidade do debate sobre saúde mental, e de que a pessoa que tem sofrimento mental tem que estar inserida na comunidade. Ao ressaltar a importância de debater o tema, Wadson explicou que foram trazidas para o encontro várias faces da psicologia, “para que vocês saibam o que está sendo falado e feito a respeito do tema”. Ele disse que os problemas ligados à saúde mental precisam ser discutidos e enfrentados de frente, diante de situações como o alto índice de suicídios, violência contra a mulher, violência no trânsito.
O presidente do conselho alertou ainda para o que denominou de “sociedade líquida dos tempos atuais", destacando o imediatismo de hoje, quando as pessoas vivem mais no mundo virtual que no real. “As pessoas não sabem para onde ir”, pontuou. "Somos cientistas nessa área e sabemos que não é de uma hora para outra que encontraremos soluções”. Wadson alertou para a necessidade de se respirar e se pensar em soluções. “Precisamos falar e enfrentar esse problema”, reiterou.
Saúde mental no Brasil tem história muito sofrida
A presidente da Comissão de Saúde do Conselho Regional de Psicologia, Ana Lourdes de Castro Schivianato, trouxe o tema “Retrocesso ao Modelo Manicomial no Contexto Atual”. Ela esclareceu que “não considero isso aqui uma palestra, mas uma troca de experiências. Trabalho com a demanda de álcool e outras drogas e posso garantir que é um processo muito doloroso. A reforma psiquiátrica precisa ser consolidada no Brasil e não pode sofrer nenhum tipo de retrocesso, pelo contrário, precisa avançar e se concretizar, pois a demanda só aumenta já que a sociedade enfrenta cada dia uma gama maior de problemas”.
A presidente da comissão alertou que “a saúde mental no Brasil tem uma história muito sofrida, ela sempre foi incompreendida e por isso muitas mortes ocorreram. Na década de 70 ocorreu o marco da luta antimanicomial, tivemos muitas mortes, vide hospital de Barbacena em Minas Gerais, onde morreram mais de 60 mil internos. Em 2017 ainda pegamos mulheres que estavam amarradas há 40 anos dentro de hospitais”.
Ana afirmou ainda que “com a reforma psiquiátrica, os CAPS vieram para substituir o modelo manicomial e precisam de investimento, não podem ofertar um atendimento tão precário. É muito grave o que está acontecendo dentro das comunidades terapêuticas. Esses pacientes adoecidos já são duplamente penalizados, são marginalizados e não recebem o tratamento adequado para que possam voltar ao convívio com a sociedade e tornarem-se novamente produtivos. A grande maioria não tem como pagar pela internação e precisa da assistência do Estado”.
Psicologia jurídica lida com temas muito difíceis
A presidente da Comissão de Psicologia Jurídica e presidente de Orientação e Ética do Conselho Regional de Psicologia, Karem Michel Esber, durante sua exposição na audiência pública para tratar da campanha Janeiro Branco, de conscientização sobre saúde mental, abordou a temática “Saúde Mental no Campo da Psicologia Jurídica: conexões possíveis”.
A profissional abordou a problemática que levou as pessoas a chegarem à Justiça, “é importante que tenham acesso à saúde mental na área jurídica, pois lidam diariamente com temas muito difíceis, como violência sexual, psicológica, alienação parental, doméstica contra a mulher, feminicídio, homicídio, suicídio. A psicóloga prossegue ao explicar que o atendimento deve ser voltado às famílias, aos próprios profissionais de psicologia, além dos operadores do direito, de acordo com as demandas e necessidades específicas em cada um dos tipos de atendimento.
Escola é um local de espaço compartilhado
A terceira palestrante, Marina David, mestre em psicologia escolar abriu sua apresentação dizendo que “é na escola onde as crianças conseguem superar muitos dos seus problemas vividos em casa e na sociedade". Mas ressaltou que, dependendo da escola, a criança pode ter mais problemas, adoecimento, mutilação e até suicídio. Segundo ela, a escola é um espaço social compartilhado e, por isso, "precisamos ampliar os debates e vencer desafios pensando em saúde mental dentro do contexto escolar, pois devemos enxergar todas as relações que são construídas dentro da escola e encontrar caminhos", pontuou.
A palestrante disse que a psicologia é uma profissão recente, que surgiu na década de 1960, já está presente nas escolas desde o início da década de 70, mas que só no ano passado foi aprovado o projeto de lei de nº 13.935, que garante psicólogos nas escolas de educação básica no Brasil. Segundo ela, isso significa que “podemos vislumbrar uma melhora na qualidade do ensino, pois dessa maneira poderemos abraçar todos dentro desse universo: alunos, professores, coordenadores, diretores e familiares”.
Saúde mental no mundo do trabalho
Proferida pela psicóloga organizacional Poliana Derossi, a quarta palestra trouxe o tema “O despertar da saúde mental no mundo do trabalho”. Segundo ela, “o mundo, hoje, vem exigindo dos profissionais uma autonomia muito maior que muitas vezes pode ultrapassar e comprometer até a saúde deles. Por isso, precisamos gerar espaços dentro das organizações para que a subjetividade do indivíduo apareça”, pontuou.
Para Derossi, “enquanto sociedade, nós geramos questionamentos sobre uma pessoa a partir das competências do indivíduo no trabalho, baseado no seu desempenho dentro das organizações”. Ela reiterou que o sujeito precisa ter espaço dentro das organizações para manifestar sua subjetividade, sua maneira de ser, sua personalidade, senão ele pode adoecer e comprometer sua saúde mental. “Somos acometidos diariamente por desafios no mundo do trabalho e precisamos lidar bem com isso, para que as pessoas não adoeçam”, finalizou.
Saúde Mmntal na perspectiva da proteção social
A vice-presidente do Conselho Regional de Psicologia, e presidente da Comissão de Psicologia na Assistência Social, Christine Ramos Rocha, abordou o tema Saúde Mental na Perspectiva da Proteção Social. Ela ressaltou a importância da família que “é o primeiro lugar de proteção que o indivíduo conhece”.
Christine ressaltou os desafios das famílias e indivíduos e questionou que muitas vezes o lugar onde o indivíduo deveria receber proteção é exatamente aquele que violenta. A profissional questiona se nos casos de menores infratores, “ devemos pensar se eles devem ser vistos como o único responsável pela infração”. Também citou a realidade de pessoas em situação de rua. “Para que mantivesse a saúde mental, às vezes, a única condição encontrada pela pessoa é ir para a rua”, comenta.
Outra vertente abordada pela psicóloga é a judicialização, a fim de que, por exemplo, “quando não consigo lidar com o problema no contexto familiar", enuncia. “A solução de questões com mais rapidez também é uma das demandas”, diz. A violação dos direitos no ambiente onde a criança deveria ser protegida, “como é o caso da violência sexual contra menores”, pontua.
As relações atuais, a compreensão do contexto, a mudança da afetividade nas relações também foram aspectos pontuados por Christine, dentro das explicações sobre subjetividades. “Devemos olhar para a saúde mental da mesma forma que olhar para as relações. Esse olhar precisa ser em diversos contextos”, complementa. Ao finalizar, a psicóloga alerta para o fato de que o Janeiro Branco deve ser observado no decorrer do ano. E ressalta a importância de se ter esperança.