Enem como primeira fase da UEG
* Padre Ferreira é deputado estadual e líder do PSDB na Assembleia (www.padreferreira.com.br)
A Universidade Estadual de Goiás (UEG) é exemplo de ensino superior no Brasil. Possui um dos corpos docentes mais qualificados do País e alunos de altíssimo nível. Com a implantação do sistema de cotas para negros, indígenas e estudantes de baixa renda, a instituição continua na missão de oferecer educação de qualidade a todas as classes sociais de Goiás.
Mas acredito ser possível dar um passo mais adiante na universidade. Por isso, apresentei projeto de lei na Assembleia Legislativa que estabelece o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como primeira fase do vestibular da UEG. A classificação dos candidatos será feita respeitando a política afirmativa de cotas. Pelo texto proposto, a UEG poderá realizar exame de seleção complementar de aptidão e específico para preenchimento das vagas em seus cursos, quando entender necessário.
O Enem é uma das grandes ideias implementadas pelo governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). O então ministro da Educação, Paulo Renato de Souza, criou um exame que exige menos conteúdos específicos de disciplinas e mais raciocínio, característica que baliza o ensino médio.
Hoje, o estudante precisa ter mais que conhecimento de determinadas disciplinas, como Português e Matemática, por exemplo. É necessária uma visão global de mundo, de modo que ele possa ser melhor inserido na sociedade e, num futuro próximo, no mercado de trabalho.
E o Enem é o caminho. Já está provado que o vestibular está ultrapassado. Em pleno século 21, este método de seleção ou eliminação, do início do século passado, já caducou. Hoje, não podemos formar apenas engenheiros, arquitetos e professores; precisamos formar homens e mulheres, cidadãos comprometidos com a sociedade, com a ética e respeito pelo próximo.
A Fuvest, que organiza o maior vestibular do País, divulgou que vai utilizar o Enem como parte da nota da primeira fase do vestibular de final de ano. A Fuvest seleciona os ingressantes da Universidade de São Paulo (USP), da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa e da Academia de Polícia Militar.
O Enem também ajuda a democratizar o acesso ao ensino superior gratuito, da mesma forma que ocorre com o processo de cotas. Hoje, determinados cursinhos em Goiás são “especialistas” em fazer com que estudantes passem nos vestibulares. No entanto, os jovens ingressam no curso superior sem saber praticamente nada do que ocorre fora dos livros e cadernos. São estudantes que aprenderam somente a passar no vestibular.
O Enem não mede a capacidade do estudante de assimilar e acumular informações, e sim o incentiva a aprender a pensar, a refletir e a “saber como fazer”. Valoriza, portanto, a autonomia do jovem na hora de fazer escolhas e tomar decisões.
O próprio ministro da Educação, Fernando Haddad, criticou o vestibular. Segundo ele, “os vestibulares são todos iguais e ruins” e o governo já estuda mudanças na seleção das universidades federais. A partir do próximo ano, o vestibular, no modelo atual, deve ser extinto nas federais.
Com o Enem, mesmo quem estudou em escola pública ou até particular, mas que não tenha o ensino voltado apenas para o vestibular, poderá disputar vaga na rede pública superior de igual para igual com os jovens da classe média alta.
De nada adianta investir em infraestrutura, professores mais qualificados e equipamentos de ponta se as universidades públicas são seletivas; apenas uma pequena parte da sociedade, e justamente a mais rica, tem acesso às instituições. O Enem na primeira fase da UEG é mais um caminho para democratizar o acesso ao ensino.