Passageiro de segunda classe
Com uma imensa sensação de perda de tempo, lembrando o que escreveu certa vez o jornalista Batista Custódio, ocupo-me hoje de responder ao conselheiro aposentado do TCE, Eurico Barbosa. Não deveria fazê-lo por ter mais coisas importantes para resolver, mas não posso aceitar a crítica destemperada e ensandecida que esse Eurico vem derramando nos artigos que vem publicando no Diário da Manhã.
Teimoso e desinformado, Euriquinho insiste em ir contra a verdade dos fatos e reincide em investidas contra os governos do Tempo Novo. Repete a catilinária radical de atribuir todos os pecados do mundo ao senador Marconi Perillo, cujo brilho perturba o ex-conselheiro do mesmo modo que o vagalume incomodava o sapo na fábula de Esopo.
Eurico não faz justiça à fama de inteligência que acompanha a sua família e que consagrou o texto literário do irmão Alaor Barbosa. Assemelha-se, em última análise, a um delirante fanático fundamentalista, um xiita que repete à exaustão um mantra de argumentos falaciosos e distorcidos, fruto certamente do ódio, da inveja e de interesses contrariados.
Falta autoridade moral a Euriquinho para criticar quem quer que seja na política Goiás. Ele é um traidor nato, que não hesita em golpear pelas costas. A biografia do empertigado ex-conselheiro não permite que levante a voz contra pessoas honradas que prestam e já prestaram relevante folha de serviços ao nosso Estado. Quem tem um telhado de vidro frágil e barato que se rompe a um mero sopro não tem o direito de atirar pedras no telhado alheio.
Os goianos conhecem o ex-conselheiro de longa data. Sabem da sua trajetória de passageiro de segunda classe no trem da história, marcada pela traição, pelo nepotismo e pela bajulação aos poderosos de plantão. Ou o nosso pequeno orador de fala empolada à la Ruy Barbosa, que se julga campeão da ética e da moralidade, pensa que não tem contas a prestar à opinião pública?
Deputado eleito pela UDN, Euriquinho não demorou muito para trair os seus eleitores e a bancada do partido na Assembleia Legislativa. Ao primeiro aceno do então governador Mauro Borges, do PSD, travestiu-se de Fouché do Cerrado e aderiu ao bloco governista, tornando-se presença obrigatória nas antessalas do Palácio das Esmeraldas em busca de favores pessoais.
A defesa que passou a fazer do governo Mauro Borges era tão apaixonada que Euriquinho quase alcançou o seu grande objetivo: uma cadeira vitalícia no Tribunal de Contas do Estado. Só não conseguiu o posto porque estourou o golpe militar de 1964 e ele não encontrou tempo hábil para quebrar as resistências políticas e convencer Mauro Borges a nomeá-lo às vésperas da deposição.
Nos primeiros anos da ditadura, tentou por diversas reaproximar-se dos antigos aliados, mas sempre foi rechaçado como traidor. A UDN e o ex-ministro da Justiça Alfredo Nasser – que, por ironia do destino, teve a grandeza de acolhê-lo na própria casa e protegê-lo da perseguição policialesca dos militares – jamais o perdoaram.
Euriquinho reapareceria no cenário político muitos anos depois, agora traindo Mauro Borges, que antes defendia como candidato a governador, para apoiar a candidatura de Iris Rezende, o mesmo Iris a quem ridicularizava pelo atraso e falta de cultura.
Eleito deputado estadual e, depois, presidente da Assembleia, só se preocupou em arranjar emprego público para a família e seus apaniguados. Não levou nenhuma obra à sua base política, principalmente Morrinhos, onde não se tem dele notícia sequer de um prego estacado numa barra de sabão. Em 1986, traiu novamente Mauro Borges para ficar com Henrique Santillo. Como prêmio pela deslealdade, foi nomeado para o Tribunal de Contas do Estado, o sonho que acalentou durante toda a vida e pelo qual não pensou duas vezes ao sacrificar o mandato de deputado estadual ainda na primeira metade, menos ainda consultar os companheiros da região de Morrinhos, que hoje falam dele com um misto de desprezo e decepção.
Envergando a poderosa toga de conselheiro do TCE, não perdeu tempo e mostrou-se diligente no cuidado com os mais chegados. Numa só canetada nomeou toda a família. Filhos, filhas, sobrinhos, ninguém ficou fora da farra do nepotismo euriquiano. Até um genro, que foi figura central de um escândalo na Assembleia Legislativa, foi acintosamente nomeado diretor-geral da respeitável Corte.
Como presidente do TCE, nunca fez restrição a nenhum ato do governo Marconi Perillo, o mesmo cuja boa imagem procura atingir como pistoleiro de aluguel do PMDB. Lembro até, a propósito, que Eurico acompanhou Marconi a uma viagem ao Japão e pôde ver como o jovem governador do Tempo Novo trabalhava com dinamismo na atração de investimentos para o Estado de Goiás.
A vida de Euriquinho Barbosa é uma sucessão de incoerências e está longe de ser exemplo para alguém. Ele traiu até a si próprio. Quando ainda estava cassado, fez uma inflamada campanha de artigos, no Jornal Opção, criticando duramente as aposentadorias milionárias do TCE. Desavergonhadamente, hoje, embolsa uma delas.
Quero concluir dizendo que, diante de uma personagem tão sofrível, mesquinha e caricata, provavelmente, o melhor mesmo seria recomendar-lhe uma consulta psiquiátrica. Para reforçar a sugestão, lembro a decoração ridícula de sua sala no tempo em que era presidente do TCE, coberta com bandeiras e fotos de um time de futebol que nem de Goiás era. Afinal, desde aquela época, desde sempre, alguma coisa pode não estar batendo bem na cabeça do vetusto escritor e imortal da Academia Goiana de Letras.