O que é isso, companheiro?
* Claudio Meirelles é deputado estadual e líder do PR na Assembleia Legislativa
É um evidente exagero considerar o presidente Lula como “amigo”, “grande benfeitor” e “atencioso” para com os problemas de Goiás. Não há notícia de recursos federais para obras no Estado, apesar das notícias plantadas na imprensa. Como ocorreu no recente anúncio de que estaria disposto a aplicar R$ 500 milhões em obras de saneamento na região do Entorno do Distrito Federal. Ainda não veio um só tostão, mas o objetivo do presidente é bastante claro: incentivar a popularidade da ministra Dilma Rousseff, sua candidata à sucessão, na emblemática região do Entorno.
Veja-se a situação de Goiás em inúmeros outros pontos. A começar pela Celg, que precisa urgentemente de empréstimos superiores a R$ 1 bilhão para reequilibrar seu fluxo de caixa. Há um ano Lula promete, promete, já autorizou três vezes a operação, faz ligações telefônicas e o dinheiro simplesmente não sai. Nem ritmo, quando sair, se é que irá sair, esse dinheiro chegará muito tarde.
Não que falte, por parte do governo do Estado, boa vontade e empenho para resolver logo esse problema. Tudo o que o governo federal exige de Goiás tem sido cumprido à risca. Inclusive no campo político. O governador Alcides Rodrigues sempre enfatiza a participação do governo federal em todos os momentos, demonstrando-lhe grande lealdade. Mas isso jamais é traduzido em reciprocidade.
A última versão sobre a camaradagem de Lula para com Goiás diz respeito à Copa do Mundo de 2014. O noticiário nacional sobre o desprezo por Goiânia em favor de Cuiabá chegou a ser destacado. Lula pessoalmente se empenhou em desviar a natural escolha por Goiânia para a capital mato-grossense.
E tem sido assim em inúmeros outros assuntos. Flagrante é a situação das obras do novo aeroporto de Goiânia, iniciada há quatro anos e, hoje, já há mais de dois anos, completamente parada . Não se vê o governo federal mexer uma palha para mudar isso. E a população-usuária continua sofrendo com a utilização de um dos piores e mais mal-servidos aeroportos do Brasil.
A última grande “traição” de Lula aos interesses de Goiás diz respeito ao alcoolduto ligando Senador Canedo à Região Sudeste. Goiás tem feito tudo que é possível para ampliar o parque industrial, e vinha recebendo investimentos em ritmo crescente nessa área, até o governo federal anunciar que a obra não chegará aqui. Alegou-se que a nossa produção é muito pequena para justificar o prolongamento do alcoolduto até Goiás. Pode até ser, mas essa produção só tenderia a crescer se houvesse como entregar o nosso álcool ao mercado consumidor nacional com preços competitivos através do alcoolduto. Então, ao abortar o projeto inicial, o que Lula faz na verdade é ferir gravemente o crescimento industrial de Goiás nesse setor.
Lula também não promove o grande e definitivo encontro de contas com Goiás no que se refere ao saldo remanescente da divisão do Estado do Tocantins. Goiás sangra nas dificuldades financeiras e o presidente permanece impávido colosso em relação às nossas agruras. O governo goiano reclama um saldo de R$ 1 bilhão de reais nessa conta com Tocantins.
Há também o aspecto da renegociação do comprometimento das parcelas mensais do pagamento da dívida fundada de Goiás. Nosso Estado está entre os que mais sofrem com o peso dessas parcelas, entregando todos os meses, anos após anos, aos cofres comandados por Lula, um percentual muito maior do que Estados ricos como São Paulo, Minas Gerais ou Rio Grande do Sul. Uma imensa injustiça praticada contra Goiás que não parece incomodar em nada o presidente-companheiro Lula.
Devo admitir que Lula é democrático em sua frieza e política de abandono em relação aos goianos. Vide o projeto Macambira-Anicuns, que deveria, depois de completamente implantado, mudar para melhor a qualidade de vida de quase um milhão de habitantes de Goiânia. Esse projeto nasceu na administração do então prefeito petista Pedro Wilson, do PT, mas continua na promessa até hoje. Seus sucessivos adiamentos prejudicaram Pedro na sua tentativa de reeleição, em 2004. Agora, continua sendo protelado, mesmo com toda a boa vontade demonstrada politicamente pelo prefeito Iris Rezende Machado.
A relação de exemplos do desprezo de Lula é praticamente interminável. Inclui a construção do metrô de superfície, que foi simplesmente retirada do mapa de obras do PAC, apesar de Goiânia ser uma das maiores capitais do País que ainda não conta com esse modal de transporte coletivo.
Goiás, portanto, deve muito pouco em agradecimentos a Lula, que tem recebido muito mais de nossos políticos ligados a ele e a seus interesses. O que o presidente faz até excessivamente é provocar a cizânia entre nós, transformando antigos aliados em adversários. Muitas de nossas lideranças estão se transformando em agentes manipulados por Lula, contra os que se opõem à má-vontade do presidente para com os goianos, como é o caso da tentativa de desconstrução do senador Marconi Perillo.
Com um “companheiro” desse tipo, Goiás não vai sair do lugar.