O novo sempre vem. Será?
Invariavelmente, se têm notícias, quase sempre negativas, sobre o estado de conservação de nossas estradas, em decorrência de manutenção precária, falta de fiscalização sobre excesso de peso e sinalização comprometida. Na zona rural em Goiás, estradas vicinais de terra e rodovias não pavimentadas dificultam a vida da população da maioria dos municípios, principalmente o dia-a-dia dos produtores rurais, independente da capacidade de produção, se grande agronegócio ou agricultura familiar.
Sobre o governo do Estado e as administrações municipais recaem duras críticas, repetidas reivindicações, intermináveis manifestações, bloqueios de vias, audiências públicas, e toda forma de apelo que parecer eficiente para a ocasião.
Nenhuma novidade até aqui. E por não ser novidade, temos o primeiro grande problema: a acomodação política coletiva, ante a máxima de que essa situação sempre existiu. Na seca, poeira e buraco. Na chuva, lama e atoleiro.
A retórica do gestor público eleito expõe argumentos como herança maldita deixada por antecessores, falta de recursos e tempo hábil para implementar as mudanças necessárias. Seria como sofisticar a sabedoria popular que ensina: “o que não tem remédio, remediado está”. Na administração pública não se pode admitir esse raciocínio.
O adiantado da hora nos obriga a seguir a orientação de que o problema existe é para ser resolvido. A aplicação de novas técnicas e modelos de intervenção e gerenciamento na melhoria de vias não pavimentadas deve nortear o trabalho daqueles condicionados a decidir. Exemplos se multiplicam no país, ainda que pulverizados nas regiões Sul e Sudeste e parte do Centro-Oeste. Iniciativas que resolveram ou minimizaram os transtornos oferecidos por rodovias não pavimentadas e estradas de terra na zona rural.
Pavimentar estradas de terra é o ideal, mas não é a única forma de torná-las transitáveis, em condições razoáveis de uso. Vale ressaltar iniciativas cujo objetivo principal, além de garantir a trafegabilidade, é investir na conservação do solo, como prevenção a erosões e implantação de sistemas de drenagem pluvial. Ações de infraestrutura com essa preocupação contribuem com o meio ambiente, preservando terras agricultáveis e diminuindo o impacto sobre os mananciais de água.
O melhor exemplo sobre a eficácia desse modelo vem da Companhia de Desenvolvimento Agrícola de São Paulo – Codasp, que é uma empresa de economia mista vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Com 80 anos de existência, a Codasp foi certificada em 2002 pela Fundação Vanzolini, na norma ISO 9001/2000, em projeto, planejamento, execução e controle de obras de adequação de estradas rurais vicinais de terra, com ênfase na conservação do solo e da água.
Produtores rurais, prefeituras municipais, cooperativas agrícolas, secretarias de Estado, e outros órgãos públicos (federais, estaduais e municipais) estão entre seus principais parceiros.
Bastaria nos ater à conservação de estradas rurais e rodovias estaduais não pavimentadas, para justificar a existência de uma empresa com participação majoritária do Estado, nos moldes da Codasp.
Objetivamente, sugerimos ao governo de Goiás que proponha legalmente a criação de uma empresa com as características da Codasp, já que boas ideias podem ser copiadas e principalmente melhoradas.
Os consórcios para construção e conservação de estradas na zona rural precisam ser implementados, sob orientação do poder público, dando confiabilidade para que os agentes envolvidos possam se motivar.
Os exemplos estão aí e as comunidades, ainda esperançosas, padecem com a reedição dos problemas que são velhos, e o novo que sempre vem ainda não veio.
A tal da vontade política precisa ser aliada ao bom senso e à humildade. Bom senso no momento de definir prioridades para gerir o dinheiro público, e humildade para reciclar e aprender, aplicando técnicas que vão além do exercício de socorrer as emergências do período chuvoso.