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Por que o trânsito em Goiânia é caótico?

06 de Agosto de 2009 às 14:53
Artigo do deputado Humberto Aidar (PT) publicado no jornal Diário da Manhã, edição de 06.08.2009.
* Humberto Aidar é deputado pelo PT 


 

Se fizermos uma pesquisa em Goiânia para elencar os principais problemas da cidade, com toda certeza o trânsito estará entre os mais citados pela população. A frota de veículos da Capital é, proporcionalmente, uma das maiores do País. É praticamente um automóvel para cada adulto com idade para ter a carteira de habilitação. Não bastasse essa frota imensa de carros, já repararam o tanto de motocicletas que circulam pelas ruas e avenidas de Goiânia? Quando paramos em um sinaleiro, imediatamente somos cercados de motoqueiros, que surgem de todos os lados. Nossa Capital tem também uma frota recorde de motocicletas. E, com tantos carros e motos nas ruas, não há trânsito que flua com rapidez. As autoridades responsáveis podem fazer todo tipo de intervenção que dificilmente a situação vai melhorar. Acredito que o trânsito na Capital, especialmente nos horários de pico, não tem mais solução.

Mas o importante não é falar do caos que toma conta de nossas ruas e avenidas, porque todos nós conhecemos essa dura realidade. O fundamental é saber por que chegamos a ter essa frota gigantesca e desproporcional de carros e motos, que a cada dia trava ainda mais o já travado trânsito na cidade. E eu tenho um palpite, ou melhor, dois. O primeiro é o caótico sistema de transporte coletivo da região metropolitana. Ninguém em sã consciência vai deixar o carro ou a moto em casa para ir trabalhar de ônibus. A não ser que seja maluco e queira perder tempo, dinheiro e preciosos anos de vida, ou alguém duvida que o transporte coletivo – como funciona hoje – é capaz de provocar um infarto em seus usuários ? Andar de ônibus em Goiânia é mais estressante do que enfrentar as filas e congestionamentos de carro.

O resultado é este que vemos todos os dias. Um transporte que é, sem dúvida, um dos piores e mais caros do País. E para fugir do sofrimento que é andar de ônibus em Goiânia, e, por incrível que pareça, economizar dinheiro, as pessoas passaram a se sacrificar financeiramente para comprar carros e motos. Ter o próprio meio de transporte se tornou mais barato, rápido e saudável do que utilizar o transporte coletivo. Por causa da falta de investimentos em transporte e de respeito ao usuário, em Goiânia o transporte individual foi priorizado pela população em detrimento ao transporte coletivo.

O segundo fator que nos fez chegar a este caos no trânsito é a total falta de respeito, por parte da administração municipal, para com as legislações que regulam o crescimento e ordenamento da cidade. Até hoje a prefeitura libera a construção de “espigões” no Setor Bueno, um bairro que já está saturado de prédios de apartamentos. Qualquer um pode construir edifícios com centenas de unidades, porque quem planeja a cidade parece não saber que a região está saturada e não comporta mais tanta gente. E o adensado Setor Bueno é apenas um exemplo. No tumultuado bairro, a Avenida T-10 mostra claramente como o município abre mão de “pensar” a cidade para privilegiar interesses comerciais e individuais.

Em frente ao Vaca Brava, um shopping center foi duplicado. Em momento algum os técnicos da prefeitura pensaram o que isso significaria para o já caótico trânsito na região. E sequer propuseram alternativas. A T-10 é a única via que liga o Setor Bueno ao Jardim América, entre a T-9 e a T-63. O tráfego é intenso o dia todo, numa avenida de pista simples. Mesmo assim a duplicação do shopping foi autorizada e vários outros pequenos shoppings foram construídos nas imediações. Claro que o shopping tem todo direito de ser ampliado. Mas era preciso pensar também na cidade, que ganhou mais um gigantesco ponto de estrangulamento. Quem deveria defender os interesses da cidade? A Secretaria de Planejamento da prefeitura, que sempre foi muito generosa na liberação de projetos sem qualquer tipo de análise técnica e de impacto para a cidade.

Portanto, a solução para o caos no trânsito em Goiânia passa, necessariamente, pela completa mudança do transporte coletivo, dando dignidade e respeito ao usuário, além de um serviço rápido, eficiente e barato; e pela moralização e respeito às legislações que regem o ordenamento da cidade. Em outras palavras, a Seplam (que, para fazer justiça, em todas as administrações sempre foi falha) tem que pensar na cidade, e não nos interesses individuais e econômicos. Sem isso, tudo que for feito é mero e ineficaz paliativo. Até um hipotético rodízio de carros não resolveria, pois o problema não é o excesso de carros e motos, ou as ruas e avenidas que são estreitas. É tudo uma questão de o poder público assumir seu papel regulador e fiscalizador, devolvendo o transporte coletivo ao povo e cumprindo os códigos e leis que dão um rumo planejado e lógico à cidade.



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