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Deputados pedem quebra de sigilos de Iris Rezende e Paulo Garcia, na CPI

26 de Junho de 2012 às 14:50
Crédito: Marcos Kennedy
Deputados pedem quebra de sigilos de Iris Rezende e Paulo Garcia, na CPI
Na reunião da CPI realizada na manhã desta terça-feira, 26, os deputados Tulio Isac e Talles Barreto pediram, em requerimento, a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico do ex-prefeito e do atual prefeito de Goiânia, Iris Rezende e Paulo Garcia, respectivamente. A CPI ouviu depoimentos do ex-vereador Wladimir Garcêz, do major Uziel Nunes e do coronel Júlio César Mota.

A CPI da Assembleia que investiga possível envolvimento de autoridades e políticos goianos com a contravenção e o crime organizado, e, ainda, a atuação das empresas Delta e Gerplan no Estado, realizou, durante a reunião desta terça-feira, 26, a tomada de depoimento do ex-vereador Wladimir Garcêz. Participaram da oitiva os deputados-membros Helio de Sousa (DEM), presidente da CPI; Talles Barreto (PTB), relator; Mauro Rubem (PT), vice-presidente; Tulio Isac (PSDB); e Daniel Vilela (PMDB).

No início da reunião os deputados Talles Barreto e Tulio Isac apresentaram requerimentos para a quebra dos sigilos bancário, fiscal, telefônico e de mensagens SMS de Iris Rezende (PMDB) e de Paulo Garcia (PT), respectivamente ex e atual prefeito de Goiânia. De acordo com o Regimento, os requerimentos serão votados na próxima reunião da CPI.

Em seguida, o ex-vereador Wladimir Garcêz iniciou seu depoimento lembrando que, como é acusado, se colocava à inteira disposição para esclarecer supostas dúvidas. “Estou em liberdade há apenas oito dias e, apesar de não ter ciência de tudo o que está nas transcrições (das gravações), que dizem me incriminar, irei responder dentro daquilo que tenho conhecimento.”

Talles Barreto iniciou os questionamentos e Garcêz afirmou que conhece, há bastante tempo, o empresário Carlos Cachoeira, de quem é funcionário através da empresa Delta. Confirmou que  trabalhou com o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, mas não mantém mais contato com ele há uns três anos. Disse também não ter conhecimento sobre as relações do ex-prefeito de Catalão, Adib Elias (PMDB), com a construtora Delta.

Garcêz contou que recebia de Carlos Cachoeira um salário fixo de R$ 5 mil, mais comissões por serviços prestados, e afirmou não ter conhecimento sobre a participação do grupo de Cachoeira na promoção de policiais civis e militares ou sobre atividades ilegais do empresário.

O ex-vereador afirmou que se reuniu duas ou três vezes no Palácio das Esmeraldas com o governador Marconi Perillo (PSDB), de maneira formal, por ser político, e que nunca esteve no local levando caixa de dinheiro. "Acredito que os seguranças nem sequer deixariam alguém entrar no Palácio com uma caixa", observou.

Perguntado, Wladimir Garcêz explicou ainda que o jornalista Luiz Carlos Bordoni chegou a chantagear Carlos Augusto Ramos, pedindo um patrocínio de R$ 200 mil, e ameaçando revelar a amizade do contraventor com o senador Demóstenes Torres (ex-DEM). Para não expor o relacionamento, Cachoeira teria repassado dinheiro ao jornalista, a título de patrocínio. “Foram dois depósitos bancários e mais um repasse em dinheiro”, informou.

Quanto ao primeiro depósito, Wladimir afirmou que o mesmo foi feito na conta bancária de uma filha de Bordoni, mas disse não saber o nome dela. "Eu passei o número da conta dela a Geovani", disse Wladmir.

Questionado se Carlos Cachoeira teria emprestado um avião para levar o médium João de Deus até o presidente Lula, o ex-vereador declarou não ter conhecimento. “Sei apenas que João de Deus esteve com dona Mariza (esposa de Lula)”, afirmou o ex-vereador.

Garcêz esclareceu também o episódio da compra da casa do governador Marconi Perillo. Contou que se interessou em comprar a casa para ele próprio, mas, por não ter conseguido levantar os recursos iniciais suficientes e pelo fato de o financiamento do restante ter ficado fora de suas condições financeiras, optou por repassar o imóvel para o empresário Walter Paulo Santiago, da Faculdade Padrão. "Eu estava com o imóvel, mas não pude concluir a compra. Soube que Walter Paulo queria comprar um imóvel para a filha e o procurei e ofereci a casa."

Garcêz afirmou que não sabe e nunca participou de nenhum processo de licitação da Delta, pois sua função na empresa não era nessa área. “O que posso esclarecer, nesse sentido, é que a Delta vence licitações sempre por apresentar o menor preço”, explicou.

Por fim, o ex-vereador afirmou que nunca pediu ao ex-prefeito Iris Rezende (PMDB) que telefonasse para prefeitos de municípios goianos a fim de ajudar em possíveis contratos com a Delta, e que esteve na sede da construtora, no Rio de Janeiro, por umas três vezes, e simplesmente para participar de treinamentos e outras atividades.

Quanto à relação de Carlos Cachoeira com a Delta, Wladimir Garcêz declarou que seu conhecimento o limita a informar apenas que o empresário mantinha relação de prestador de serviços com a empresa.

Durante o depoimento de Garcêz, houve ainda manifestação do deputado Daniel Vilela (PMDB), afirmando que a Assembleia Legislativa não tem competência para investigar prefeituras, pois não há recursos estaduais envolvidos. Daniel Vilela disse também que os contratos da Delta não são apenas com municípios administrados pelo PT e PMDB.

Em resposta ao questionamento, o presidente Helio de Sousa disse que a CPI foi instalada através de requerimento, aprovado pelos parlamentares da Casa, que previa três objetos de investigação e que um destes objetos era investigar a ligação da Delta com prefeituras no Estado. “Essa questão do objeto foi deliberada e aprovada por unanimidade pelos deputados. Os prefeitos que tiverem dúvidas da nossa competência podem recorrer à Justiça”, afirmou Helio de Sousa.

Alegando problemas de saúde, o empresário Walter Paulo Santiago não compareceu à CPI para depor. Ele apresentou atestado médico.

Segundo depoimento

A Comissão colheu, em seguida, o depoimento do major Uziel Nunes dos Reis. Em suas considerações iniciais, o militar falou sobre sua trajetória profissional, que ocorreu principalmente no interior do Estado.

"Há uma incidência muito grande de crimes graves, como homicídios e estupros no Entorno. As contravenções não estavam no nosso foco, por demandarem muito tempo", afirmou.

Além disso, o major confirmou que não havia autorização da atual gestão da Secretaria de Segurança Pública para que a Polícia Militar promovesse operações para apreender máquinas caça-níqueis na região do Entorno, ordem que, segundo ele, foi formalizada. "Isso não é competência da Polícia Militar. É atribuição da Polícia Civil e da Polícia Federal."

Uziel Nunes declarou que não conhece pessoalmente o empresário Carlos Cachoeira, que não manteve contatos com o senador Demóstenes Torres, mas que conhece Lenine e o empresário José Olinto, ligados ao contraventor, e, ainda, Miguel, responsável pela segurança das casas de bingo de Carlos Cachoeira. O policial militar colocou suas contas bancárias à disposição da CPI para que seja realizada uma auditoria.

O depoente afirmou também que nunca passou informação privilegiada para o grupo de Carlos Cachoeira. Segundo ele, houve grande operação para combater a violência na região do Entorno, envolvendo a Força Nacional e a Polícia Militar, mas essa ação foi amplamente divulgada.

Questionado se não estaria sendo vítima de perseguição, Uziel disse que, pelo fato de ter comandado o batalhão do município de Valparaíso, onde chefiou mais de 150 policiais e muitos dos PMs que estão sendo investigados são de sua unidade, pode explicar porque seu nome aparece na Operação Monte Carlo. "Por que iriam me pagar para não atuar contra as casas de bingo se havia uma determinação para que a Polícia Militar não o fizesse?", questionou.

Júlio César

O terceiro depoimento colhido na manhã desta terça-feira, 26, pela  CPI da Assembleia, foi do coronel da Polícia Militar Júlio César Mota. Nas apresentações iniciais, o coronel falou sobre sua carreira na PM.

Após a apresentação, o coronel disse não entender os motivos de sua convocação, sendo que, segundo ele, nunca teve ligação com o grupo de Cachoeira ou com o próprio empresário e que o conhece apenas por fotos após a exposição que o mesmo vem tendo na mídia.

Ao ser questionado, o coronel Mota explicou que pediu afastamento, por entender que é o que deve ser feito por um funcionário público quando seu nome é envolvido em alguma denúncia de desvio. “Por respeito ao comandante e com a finalidade de facilitar as investigações, acredito que essa atitude é a correta a ser feita.”

O coronel disse também não conhecer as pessoas que supostamente citam seu nome nas gravações da Polícia Federal, Lenine Araújo e Regina. Explicou também que o trabalho da Polícia contra os jogos ilegais acontecia de maneira pontual e não era prioridade frente a crimes de maior desconforto na sociedade. “A prioridade era em cima dos furtos e roubos a veículos, pessoas e estabelecimentos comerciais. O jogo era visto da mesma forma que a pirataria, que ainda hoje toma conta do comércio em qualquer cidade no Estado”, explicou.

Quanto à consciência de tamanha organização criminosa articulando no Estado, Mota se disse surpreso com o que foi descoberto pela Polícia Federal. “Para mim, a atuação dos exploradores de jogos ilegais acontecia de forma amadora.”

Mota disse ainda desconhecer qualquer informação sobre o pagamento de propinas provenientes do grupo de Cachoeira para a promoção de coronéis, e afirmou que mantinha ligações estritamente profissionais com o ex-secretário de Segurança Pública, Ernesto Roller.

Mota informou que a PM realizava apreensão de máquinas e prisões pontuais de pessoas envolvidas com jogos ilegais para inibir a atuação dos empresários do ramo. Ele apresentou documentos que indicam as atitudes tomadas à época, que foram encaminhados à Superintendência de Polícia Judiciária, solicitando providências para inibir a prática no Estado, com levantamentos da Polícia Militar de locais nos quais haviam máquinas caça-níqueis em funcionamento.

O coronel Júlio César Mota explicou a posse de uma moto Suzuki, dizendo que a mesma “era usada e não havia sido presente de Carlos Cachoeira”. Declarou também que ficou durante um final de semana com um veículo da marca Chrysler, de propriedade do dono de uma empresa de nome Planalto. Segundo o coronel, o veículo não tem nenhuma relação com seu patrimônio ou com o patrimônio de Cachoeira.

Ao final do depoimento, o deputado Mauro Rubem (PT) solicitou ao presidente Helio de Sousa (DEM) que fosse encaminhado à Polícia Militar requerimento para que sejam obtidas informações sobre a morte de policial militar de Goiás em São Paulo. O presidente pediu a Mauro Rubem que apresentasse requerimento por escrito.

O depoimento encerrou os trabalhos da Comissão nesta terça-feira, 26. A próxima reunião ficou convocada para a próxima quinta-feira, 28, às 8 horas. Na ocasião, o presidente da CPI, deputado Helio de Sousa, propôs a prorrogação da CPI por mais 90 dias. O pedido será formalizado através de requerimento que será apresentado em Plenário, no momento oportuno.

Ainda na reunião de hoje, foi aprovado requerimento para a convocação do ex-diretor-geral do Dnit, Luiz Antônio Pagot. As convocações de Alfredo Neto e do presidente da construtora Delta, Fernando Cavendish, que haviam sido solicitadas por Tulio Isac e Talles Barreto, serão sobrestadas.

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