Crise na Igreja
A TV Assembleia recebeu em seu estúdio na manhã desta terça-feira 5, o deputado Francisco Júnior (PSD), e o cientista da religião, professor e pesquisador da PUC-GO, Alberto da Silva Moreira, para discutir a renúncia do Papa Bento XVI e suas repercussões.
O Papa Emérito, alemão Joseph Ratzinger, de 85 anos, renunciou em 28 de fevereiro, sendo que o anúncio foi feito em 11 de fevereiro. O Vaticano informou fragilidade na saúde de Bento VI. Em virtude disso, nesta segunda-feira 4, os cardeais começaram no Vaticano, as congregações gerais que precedem o conclave que vai escolher o sucessor do Papa Emérito Bento XVI.
Nesses encontros a portas fechadas, os chefes da igreja definem o perfil do próximo pontífice e discutem os problemas e desafios da Igreja Católica. Eles também decidem sobre questões práticas, como a data de início do conclave que já começa abalado por escândalos financeiros e sexuais.
Para o cientista da religião Alberto Moreira, esta é a maior crise que a Igreja Católica já enfrentou em 2000 anos. “É uma crise de gestão e de credibilidade. A mudança do Papa não vai resolver isso facilmente”, pontua.
O deputado atuante na Igreja Católica, Francisco Júnior, acredita que a crise é muito mais que institucional, é uma crise da sociedade. “A renúncia do Papa foi corajosa no sentido de provocar todas essas especulações que exigem da Igreja uma posição”.
O parlamentar considera que muitas coisas que estavam encobertas serão descobertas agora e talvez a renúncia colabore para que esse processo acelere. Em contrapartida, o pesquisador Alberto revela os desafios que o Vaticano vai enfrentar com relação à rede de prostituição; desvio de recursos do Banco do Vaticano usados pela máfia italiana; e a oposição de grupos dentro da máquina burocrática do Vaticano.
“A renuncia do Papa Bento XVI foi um ato de não apego ao poder, uma atitude louvável”, salienta Alberto.
Francisco Júnior revelou sua opinião como cristão, e acredita que a sociedade anseia por uma reforma da Igreja Católica, mas não vê um ambiente para que isso seja instalado de fato. “É um processo natural de reforma que vai acontecer em longo prazo”, considera.
O Programa Opinião será exibido no canal 8 da NET e pelo Portal da Assembleia às 19 horas desta terça-feira, 5.
História
Fato histórico semelhante aconteceu há 600 anos. O último Papa a renunciar ao cargo foi Gregório 12, em 1415, para tentar por fim ao Grande Cisma do Ocidente. O conflito dividiu a Igreja Católica durante quatro décadas, de 1378 a 1417.
Além de Gregório 12, que ficava baseado em Roma, na Itália, o período contou com dois antipapas: Bento 13, que ficava em Avignon na França, e João 23, que ficava em Pisa, também na Itália.
A igreja não considera os antipapas como papas. Por isso, no século 20, o papa que precedeu o João Paulo 2º pode usar o mesmo nome de João 23.
Com a renúncia e morte de Gregório 12 no Conselho de Constança e deposição dos outros papas, o concílio elegeu o Papa Martinho 5 e acabou com a divisão.
Outros papas que não terminaram o pontificado
Clemente 1º (92 - 101) Epifânio diz que Clemente entregou o pontificado ao Lino pela paz, e se tornou papa novamente após a morte de Cleto.
Ponciano (230-235) Renunciou após ser exilado nas minas de Sardenha, uma ilha no mar Mediterrâneo, durante a perseguição dos cristãos pelo imperador romano Maximino Trácio.
Marcelino (296-304) abdicou ou foi deposto após receber acusações de que teria feito oferendas a deuses pagãos para fugir da perseguição de Diocleciano.
Martinho 1º (649-655) Exilado pelo imperador bizantino Constante II.
Bento 5º (964) Aceitou a deposição pelo Imperador Oto I depois de um mês no cargo.
Bento 9º (1032-1045) Renunciou depois de vender o papado para Gregório VI.
Gregório 6º (1045-1046) Deposto po simonia --por ter comprado o papado-- pelo Imperador Romano Henrique III.
Celestino 5º (1294) Depois de cinco meses, foi pressionado por Benedicto Caetani a abdicar do posto. Mais tarde, foi canonizado.
Gregório 12 (1406-1415) Renunciou a pedido do Conselho de Constança para ajudar a acabar com o Grande Cisma do Ocidente, período em que a igreja Católica teve dois Papas.
Bento 16 (2005 - 2013) O primeiro papa a renunciar depois de 600 anos.