Memória
A Assembleia Legislativa sediou, na tarde desta terça-feira, 5, o lançamento do projeto “Resgate da memória Viva da Repressão Militar em Goiás”, iniciativa da Associação dos Anistiados pela Cidadania e Direitos Humanos do Estado de Goiás (Anigo), em parceria com o projeto Marcas da Memória, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. O evento teve lugar no Auditório Costa Lima, a partir das 16 horas.
Pouco antes da abertura dos trabalhos, a assessoria do deputado petista Karlos Cabral distribuiu convites para a sessão solene de diplomação simbólica dos mandatos de políticos cassados em Goiás, durante o período da Ditadura Militar. A cerimônia está prevista para acontecer no dia 1º de abril, às 20 horas, no Plenário Getulino Artiaga.
Fizeram parte da composição da mesa: o presidente da Anigo, Elio Cabral de Sousa; Dom Tomás Balduíno, conselheiro da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB); os camponeses anistiados Dona Dirce e Aarão de Sousa Gil; o presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE), Lucas Marques Ribeiro; o deputado petista Mauro Rubem; o ex-prefeito de Goiânia, Pedro Wilson.
Resgate
Abrindo os trabalhos, o presidente da Anigo, Elio Cabral, afirmou que a história do Brasil foi manchada por um longo período de desrespeito aos direitos humanos, e mencionou as torturas sofridas por militantes ao longo dos 25 anos de ditadura militar.“Goiás participou ativamente na resistência contra o regime militar. É nosso compromisso perguntar ao Governo onde estão os 15 mortos 'desaparecidos' em Goiás", afirmou, lembrando os casos ainda não resolvidos ao longo daquele período.
Em seguida, o ex-prefeito de Goiânia, Pedro Wilson, lembrou o assassinato de camponeses desaparecidos durante os 25 anos de ditadura. Ele também mencionou a perseguição política perpetrada pelo regime contra professores da Universidade Federal de Goiás (UFG). “A lembrança permanece junto aos companheiros que morreram pelo país”, afirmou.
Estudantes e camponeses
Ao fazer uso da palavra, o presidente da União Estadual dos Estudantes, Lucas Marques, afirmou que sua principal preocupação consiste em divulgar os delitos que aconteceram naquela época para as futuras gerações.
Também presente à mesa, D. Tomás Bauduíno lembrou que o campesinato foi a classe que mais sofreu ao longo do período. Ele também mencionou o recente caso de atrocidades cometidas contra a etnia aimiri-atroari, grupo indígena que habita o sul do estado de Roraima e o Norte do Amazonas, cuja reserva é cortada por uma estrada federal, que seria uma "continuação da repressão militar, nos dias atuais".
Em seu pronunciamento, o deptuado Mauro Rubem (PT) afirmou que a repressão ainda continua nos meios de comunicação de massa. "Enquanto não houver uma maior regulamentação das comunicações no Brasil, a ditadura não terá fim. Ela ainda continua existindo, e precisamos derrotá-la", afirmou, conclamando pela construção de uma nação socialista.
Em seguida, os camponeses anistiados Dona Dirce e Aarão Gil também contribuíram com depoimentos históricos de torturas perpetradas contra camponeses.
Finalmente, falando em nome dos depoentes, o histórico político Tarzan de Castro discorreu sobre o papel do Brasil na proliferação do modus operandi de torturas e cerceamento de liberdades individuais em toda a América Latina. "Estive no Chile quando ali estourou a ditadura de Pinochet, e posso dizer que o Brasil operou como uma plataforma de lançamento de know-how para as demais ditaduras latinoamericanas", afirmou. Ele também falou sobre a importância da Anigo no resgate histórico da ditadura, colhendo testemunhos de vítimas aprisionadas na época.
Documentário
Ao final do encontro, foi apresentado o site oficial da Anigo, que disponibiliza ao público um acervo digital com depoimentos de 30 anistiados políticos, em vídeos e transcritos, documentos, fotos e recortes de jornais da época. Foi exibido, ainda, o documentário “Se Um de Nós se Cala...",
Segundo o presidente da Anigo, Elio Cabral, o objetivo do projeto é resgatar, organizar e disponibilizar para a sociedade parte significativa da história da resistência ao regime militar em Goiás.
“O projeto deve ser compreendido como um capítulo de um longo episódio da história de repressão da ditadura militar brasileira, que se disseminou e deixou marcas profundas pelos vários Estados brasileiros. Assim, a partir de agora, ele se soma ao acervo construído pelos projetos apoiados pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que possibilita o resgate da memória desse período da história do Brasil”, explica Elio.