Proteção aos Queimados
A elaboração de uma minuta para o projeto de lei que cria o Estatuto dos Portadores de Queimaduras foi o principal ponto acertado durante a audiência pública que discutiu formas de proteção às vítimas de queimaduras em Goiás. O evento, proposto pelo deputado Helio de Sousa (PSDB) em parceria com o Núcleo de Proteção aos Queimados (NPQ), foi realizado na tarde desta segunda-feira, 11, no auditório Costa Lima.
O tema da audiência pública foi “Proteção aos Queimados – O dever do poder público na proteção social do cidadão e o papel das políticas afirmativas no acesso aos direitos dos grupos em vulnerabilidade social”. O evento faz parte do calendário de comemoração do Dia de Luta contra as Queimaduras, celebrado em 6 de junho. Os sobreviventes de queimaduras, especialistas no tema e a comunidade em geral se reuniram com o objetivo de encontrar soluções para garantir a proteção aos queimados.
Helio de Sousa disse que a elaboração de uma lei que assegure direitos mínimos às vítimas de queimaduras permitirá que os pacientes possam ter condições jurídicas para realizar o tratamento com mais dignidade. O deputado, que é autor do Estatuto do Portador de Câncer, afirma que também se deve avançar no reconhecimento das queimaduras como doença crônica.
“No meu entendimento, é possível trabalhar em harmonia com as entidades civis, pacientes, poder público e toda a sociedade para prevenir queimaduras. O Estatuto do Portador de Câncer foi um grande avanço para os pacientes. Acredito que a criação de uma lei que proteja os queimados, assegurando direitos, é fundamental. Pedirei à minha equipe que elabore o projeto de lei e vamos acompanhá-lo por toda sua tramitação até ser aprovado e sancionado”, afirmou o tucano.
No discurso de abertura da audiência pública, o deputado Helio de Sousa (PSDB) disse que a situação das vítimas de queimaduras em todo o país é difícil. De acordo com ele, o evento procura discutir soluções e propostas para melhorar a prevenção de acidentes.
“Temos a oportunidade de trabalhar, mais uma vez, uma audiência pública em parceria com o Núcleo de Queimados. Esta é a terceira que fazemos. Temos que enaltecer a necessidade de debater temas de interesse da sociedade e de segmentos que são vitimados. A finalidade é despertar as autoridades competentes para a importância de que possamos ter ações de prevenção e de tratamento adequado aos acidentados", afirmou o tucano.
Violência Doméstica
A vereadora por Goiânia, Cristina Lopes (PSDB), disse que a violência doméstica tem aumentado em todo o país e que é possível reduzir lesões por queimaduras por meio de prevenção e educação. Ela própria foi vítima de agressão, que culminou com queimaduras pelo corpo. De acordo com ela, os agressores podem ser recuperados com formação e educação dirigida.
“Infelizmente assistimos a um crescimento da violência, que nasce dentro de casa. Dos 724 homens que trabalhamos em um curso de formação, após condenação pela Lei Maria da Penha, tivemos apenas dois com recaída. Trabalhamos, hoje, com homens e crianças para que saibam que violência doméstica não é natural. O Junho Laranja obriga o município a trabalhar o tema, que foi aprovado em lei de minha iniciativa na Câmara Municipal”, afirmou a vereadora.
Cristina Lopes diz que os pacientes de queimaduras precisam de representação no Poder Público. Para ela, o tratamento e a recuperação das vítimas não é fácil, mas é possível colher bons resultados.
“A gente vê o quanto o mundo é de exclusão. Precisamos mostrar nossa voz para que sejamos contemplados na política de representação. Queimadura não é simples, mas é possível haver recuperação. Vejo no auditório pessoas que conseguiram superar os desafios. Bons exemplos precisam ser copiados e ampliados”, afirmou a vereadora.
Cristina Lopes diz que o tratamento do paciente queimado vai além do tratamento físico, pois há evidentes efeitos emocionais. De acordo com ela, não é uma luta fácil, mas necessária e que depende muito do envolvimento das autoridades.
“A queimadura não é só tratamento físico, mas emocional, já que é vivido por toda a família. Quero cumprimentar o deputado Helio de Sousa, que representa nesta Casa a luta contra queimaduras. Não é uma jornada fácil. Quem se dispõe a prestar serviço público, às vezes pensa em desistir. Mas há muito mais recompensa com o trabalho realizado do que com as dificuldades”, afirmou e vereadora.
Ação conjunta
A presidente da Sociedade Brasileira de Queimaduras - regional de Goiás (SBQ-Goiás), Rosa Irlene Serafim, afirmou que a prevenção é a melhor estratégia para reduzir a quantidade de vítimas de queimaduras no país. Para ela, o apoio de profissionais da saúde, pacientes, voluntários e toda a sociedade é crucial para reduzir a quantidade de vítimas.
“O Núcleo de Queimaduras lança o projeto de Proteção aos Queimados. Para a prevenção de queimaduras, precisamos do apoio da sociedade, pacientes, ligas de medicina e autoridades públicas. A educação preventiva deve ser feita nas escolas de maneira continuada, permitindo que crianças e adolescentes possam replicar o conhecimento em sua família e amigos”, afirmou.
Rosa Serafim afirmou que os recursos do Núcleo de Proteção aos Queimados são limitados, embora a atuação dos voluntários seja boa. De acordo com ela, é preciso de mais apoio para que ações de prevenção cheguem para toda a sociedade.
“Os projetos do Núcleo são direcionados, por isso, o recurso é pouco. Mas temos um número bom de voluntariado. Precisamos que a Vigilância Sanitária em Saúde nos abrace nos projetos de prevenção, junto com as ligas acadêmicas dentro do projeto de enfrentamento junto à sociedade”, afirmou.
Subconselho
Presidente do Conselho Estadual de Saúde, Liorcino Mendes disse que a maioria das vítimas adultas de queimaduras são do sexo feminino. De acordo com ele, boa parte são vítimas de violência doméstica, que precisa ser combatida com ações de conscientização e educação.
“A maioria das vítimas de queimaduras são mulheres. Precisamos orientar os homens para que não queimem as mulheres e instruí-los a cuidar melhor de nossas crianças. Podemos ter grandes avanços nesse sentido”, afirmou.
Liorcino Mendes disse que tem considerado junto aos demais conselheiros a criação de um subconselho específico para tratar queimaduras, com foco nas políticas públicas. Ele citou o caso dos dez menores internos que foram vítimas de queimaduras, dos quais nove morreram.
"Temos pensando em criar um subconselho específico para queimaduras, para que a gente possa focar na atuação de políticas públicas em Goiás. Há dez dias, fui convocado, enquanto presidente do conselho, para participar de reunião da frente que apoia os familiares de dez adolescentes goianos que foram queimados em um batalhão da Polícia Militar, onde estavam internados. Fiquei me perguntando, junto àquelas mães, porque não preveniram o fogo. Não havia extintores, ou não funcionaram. O que era um fogo para chamar a atenção para as condições insalubres, se tornou uma tragédia", afirmou o presidente.
Dados estatísticos
O secretário da Sociedade Brasileira de Queimaduras, José Adorno, disse que os dados epidemiológicos sobre queimaduras são bastante restritos. De acordo com ele, é preciso que os profissionais deixem as unidades de saúde para atuar com mais foco na prevenção.
“Temos em Goiânia referências em queimaduras. O primeiro centro de tratamento intensivo de queimaduras, se não me engano, foi aqui. Trabalhamos com queimaduras há muito tempo. É um desafio enorme. Temos que sair das unidades para lutar por prevenção. Evoluímos pouco. Precisamos traçar uma estratégia diferente. Os dados epidemiológicos são invisíveis. Queimadura se vivencia para o resto da vida. Não somos profissionais que eventualmente tratam. Temos essa marca", afirmou o médico.
José Adorno disse que as ligas acadêmicas das faculdades de Medicina podem ser fundamentais na prevenção, em parceria com o voluntariado. De acordo com ele, as unidades de saúde da família poderiam ampliar sua atuação na prevenção e informação doméstica.
“As ligas acadêmicas, trabalhando junto ao voluntariado, são fundamentais. Será que nossas equipes de saúde da família não poderiam ser mais eficientes? Poderiam falar, além da prevenção da dengue, dos cuidados na cozinha para evitar queimaduras. Muitas vezes, as crianças são cuidadas em casa por outras crianças. Temos que lutar por prevenção doméstica”, afirmou o médico.
Ligas Acadêmicas
A diretora científica da SBQ-Goiás e segunda coordenadora da Liga de Cirurgia Plástica, Mônica Sarto Piccolo, disse que metade das vítimas de queimaduras são crianças e que 80% dos acidentes são domésticos. De acordo com ela, a prevenção passa, necessariamente, pela educação.
“Queremos prevenir os acidentes com queimaduras. Cerca de 80% ocorrem nas residências e mais ou menos 50% das vítimas são crianças. Queremos incluir a sociedade nessas campanhas de prevenção. Para prevenir, temos que educar. Os alunos de Medicina vão às escolas primárias e secundárias para orientar os jovens como agentes de prevenção às queimaduras. É possível evitar a maioria das queimaduras em casa, e outras nas ruas, como acidentes de moto, por exemplo”, afirmou.
A presidente da Liga de Cirurgia Plástica da Universidade Federal de Goipas (UFG), Daniella da Mata Padrilha, disse que os acadêmicos de Medicina serão capacitados para orientar jovens e adolescentes nas escolas públicas. De acordo com ela, a entidade, ligada à Faculdade de Medicina da UFG, deverá atuar na proteção de queimados permanentemente.
“Vamos focar nossas campanhas de prevenção e no combate às queimaduras. Faremos um projeto continuado, que será levado às escolas. Todos os membros da liga passarão por cursos de capacitação para oferecer as orientações de prevenção nas escolas”, afirmou a acadêmica de Medicina da UFG.
Prevenção
O cirurgião plástico Paulo Piccolo disse que a prevenção é a melhor ferramenta para tratar do combate às queimaduras. Para o médico, a educação de crianças e adolescentes é fundamental porque amplifica o conhecimento dentro de casa, onde mais ocorrem acidentes.
“Antes de qualquer tratamento, o mais importante é prevenir. Educar as crianças é fundamental porque atuam como educadores, já que atuam diretamente em casa. As ligas acadêmicas de Medicina são peças interessantes, já que atuam como contato entre ações de saúde e a sociedade. Pessoas que são educadas na prevenção podem educar outras, reduzindo o número de acidentes”, afirmou.