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Projeto Mulheres no Legislativo

25 de Julho de 2019 às 11:00
Crédito: Denise Xavier
Projeto Mulheres no Legislativo
Ex-deputada Nelci Spadoni
Nelci Spadoni, deputada durante a 13ª Legislatura, é a oitava entrevistada do projeto "Mulheres no Legislativo". Entrevistada em sua casa, em Rio Verde, ela fala de suas memórias e conta histórias de sua trajetória política.

Sua trajetória de vida nos revela, pouco a pouco, o perfil de uma mulher forte e à frente do seu tempo. Uma revelação que, no entanto, transcende as meras palavras ditas e se desnuda na sutileza dos gestos e nas entrelinhas da memória que, por traumas, encontra-se, agora, em partes, apagada. Traumas estes que demonstram ser a política um campo espinhoso de disputas cujo gosto é, por vezes, verdadeiramente amargo. Mas ela, que, desde jovem, pautou-se apenas pelas causas sociais mais nobres, deu seu jeitinho de sublimar tamanhas desilusões. 

Essa pessoa, que inspira tal poética introdução, é a ex-deputada Nelci Spadoni, mãe da também ex-deputada Lila Spadoni. É com ela que lançamos esta oitava edição do projeto Mulheres no Legislativo. A entrevista foi concedida à Agência de Notícias da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego) e à TV Alego, no dia 20 de maio deste ano. Na conversa, que se desenrolou na varanda da própria casa da entrevistada, na cidade de Rio Verde, Nelci nos conta, com humildade e certo orgulho, os feitos políticos por ela realizados. 

Apesar da memória oscilante pelo avançar da idade (ela tem, hoje, 83 anos), Dona Nelci, como costuma ser chamada no meio político e social rioverdense, carrega histórias que nos surpreendem do início ao fim. No seu mundo não há espaço para dificuldades, lamúrias ou lamentações, mas tão somente para as superações. Mostrou-se, em seu relato, dona de uma personalidade singular constituída por alma doce, fala mansa, postura conciliadora e índole firme. Nesse encontro, ela abriu, para nós, não apenas as portas de sua casa, mas também sua memória e seu coração. Em sua fala, é possível enxergar uma vida inteira dedicada aos menos favorecidos e entremeada por uma riqueza de vivências.

Tudo começa em 1963, quando essa paulista de São Roque chega em Goiás, trazendo muitos sonhos na bagagem e acompanhando seu marido, o médico Benjamim Benone Martins Spadoni (falecido em agosto passado), que havia aceitado, então, um convite para trabalhar no Hospital Presbiteriano de Rio Verde. Ambos adeptos dos valores cristãos presbiterianos (enquanto deputada, a entrevistada integrou a bancada dos evangélicos e promoveu cultos no Legislativo), Dona Nelci faz questão de afirmar o quanto sempre encontrou em seu marido o apoio que precisava para seguir em seus propósitos comunitários.

Desde que chegou à cidade de Rio Verde, Dona Nelci se mostrou solidária com todas as pessoas, sem buscar nenhum ganho político através das suas ações, “na verdade isso nem passava pela minha cabeça”, garante ela. De temperamento inquieto, começou trabalhando ao lado do marido, trabalho esse que levaria à criação do serviço social do Hospital Presbiteriano para atender as mais diversas demandas.

Sensibilizada com a situação dos mais carentes, Dona Nelci sempre mostrou-se incansável frente à realidade vigente e percorria frequentemente as vilas da cidade, de casa em casa, buscando dar assistência para todo tipo de problema, oferecendo as mais variadas soluções. Com sua vontade de ajudar aos menos favorecidos, em suas longas caminhadas, ela encontrava sentido para a solidariedade que exercia sem nenhum sacrifício. Para ilustrar tal vocação, ela nos conta, então, que “saía de manhã, sem ter hora pra voltar" e que recebeu, enfim, por causa dessas peregrinações, a alcunha de "velhinha do kichute". "Porque eu punha um tênis no pé e aí eu ia para as vilas. Naquele tempo, eu tinha boas ajudantes em casa, que me auxiliaram com os cuidados aos meus quatro filhos biológico e outros dois adotivos, sendo um deles, inclusive, especial. Então eu saía, ia pras vilas, andava de casa em casa o tempo inteiro, o que pra mim era uma alegria. Era assim”, comentou, com contida altivez.

Ao longo dos anos, o trabalho social foi tomando corpo e extrapolou as estruturas do hospital, ganhando uma dimensão que acabou por arrastar Dona Nelci para o mundo da política. Foi então que, em 1989, recebeu o convite para estar à frente da Secretaria da Promoção Social da Prefeitura de Rio Verde, no mandato do prefeito Paulo Roberto Cunha. Durante esse período, desenvolveu projetos como, por exemplo, o "Pequeno Trabalhador", onde o jovem poderia se profissionalizar através dos cursos básicos de padaria, confecção e fabricação de vassouras - programa similar ao Menor Aprendiz, que viria a se instituído, anos mais tarde, pela promulgação da Lei Federal nº 10.097/00. Inaugurou também a creche e o serviço social do Hospital Evangélico de Rio Verde e implantou a Escola de Ensino Especial Bom Pastor para atender alunos deficientes. 

Com isso, em 1992, Dona Nelci foi levada a disputar a prefeitura de Rio Verde pelo extinto PDS, hoje PPR, com o deputado federal Osório Santa Cruz, mas apesar do seu extenso trabalho social ela não foi feliz na sua primeira empreitada eleitoral. Nelci, no entanto, acabou por consolidar uma extensa lista de serviços sociais prestados junto à comunidade carente local, o que a levaria, já na eleição seguinte, em 1994, a ser eleita deputada estadual para a 13ª Legislatura (1995-1999), se destacando como a deputada mais bem votada de todo o estado de Goiás (obtendo quase 20 mil votos, na ocasião). Ela permaneceu, no entanto, como parlamentar até 1996, quando se afastaria para concorrer à prefeitura de Rio Verde. Nelci foi então eleita, e tal vitória a levou a renunciar ao cargo de deputada estadual, sendo a primeira mulher (única até então) a assumir a prefeitura de Rio Verde, na gestão de 1997 a 2000. Assumiu, então, em seu lugar na Alego, seu suplente de coligação, Telmo Loyola (PFL). Na legislatura seguinte (14ª), de 1999 a 2003, ela lançaria sua própria filha (Lila) ao cargo de deputada estadual.

Depois, já na condição de prefeita, cargo agora conquistado por aposta em seu próprio capital político, Dona Nelci, numa nítida demonstração de coragem e liderança, organiza as mais diversas pendências deixadas pela administração anterior, dando início a uma série de trabalhos que alavancam a industrialização e modernização do município. Sob o lema “Avança Rio Verde”, ela e sua equipe atraem importantes investimentos para a região, dos quais são dignos de nota a instalação de uma fábrica da Perdigão (BRF) e, depois, da Gessy Lever (Unilever), feito cuja inauguração contou, inclusive, com a presença do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. 

Com a instalação dessas grandes fábricas, a economia do município cresceu, gerando novos postos de emprego para muita gente do local. Foi também na gestão de Spadoni, que Rio Verde passou a contar com um aterro sanitário (que substituiu o antigo lixão da cidade) e com voos comerciais diários partindo de seu aeroporto. Data ainda dessa época a aprovação inédita da proposta de revisão da Lei Orgânica Municipal e da elaboração do Plano Diretor, que garantiu o reordenamento da expansão urbana pela qual a cidade haveria de passar em decorrência do seu fortalecimento e crescimento econômico. 

O novo ordenamento territorial do município assegurava, igualmente, que os loteamentos habitacionais fossem, a partir de então, providos de toda a infraestrutura básica, como rede elétrica e iluminação pública, água, esgoto e captação pluvial, além de pavimentação asfáltica com meio-fio. Talvez tenha sido pelo seu protagonismo à frente da gestão de um dos municípios cuja economia é tida, até hoje, como uma das mais proeminentes do estado (segundo dados divulgados em 2015 pelo Instituto Mauro Borges, Rio Verde se destaca como tendo o quarto maior PIB do estado, ficando atrás apenas da capital, Goiânia, e de sua região metropolitana) e também por seu notório desempenho, que contava com a aprovação (quase que unânime) do eleitorado local, que Dona Nelci tenha afetado as vaidades e despertado a inveja de alguns políticos que lhe foram contemporâneos, inclusive daqueles que ela havia inicialmente apoiado e ajudando a alavancar. O fato de ser mulher e de não pertencer aos clãs oligárquicos da época também são hipóteses que podem nos ajudar a engrossar, em alguma medida, o caldo dessas suposições. 

Diante de forte oposição, os célebres feitos de Dona Nelci foram sendo, pouco a pouco, convertidos em assuntos de segunda ordem, tornado-se, assim, politicamente irrelevantes. E foi, desta forma, que a imagem de uma mulher honesta foi cedendo lugar aos ataques que vinham como uma avalanche de acusações de corrupção e desvios de dinheiro público. Muito embora nada, até agora, tenha sido comprovado, o prejuízo se mostrou irreversível, visto que a situação acabou por lhe custar a perda de seus direitos políticos, calando, então, a sua voz e a daqueles que um dia representou. “A política é uma coisa, assim, cheia de meandros que a gente desconhece”, diria ela, humildemente, em certa altura da entrevista. 

Um exemplo disso pode ainda ser demonstrado com a menção de fato ocorrido em meados de 2001, quando, sem qualquer explicação conhecida, a Unilever do Brasil foi transferida para Goiânia. A negociação envolveu o sucessor de Dona Nelci na prefeitura, Paulo Roberto Cunha, e o governador Marconi Perillo, que havia deixado, inclusive, de comparecer, três anos antes, à inauguração da indústria em Rio Verde, numa época em que recebia ainda grande apoio político de Dona Nelci. No final do ano passado, a empresa anunciou que retornaria às suas instalações ao interior de Minas Gerais, devido o estado ter apresentado melhores benefícios fiscais à multinacional britânica-neerlandesa. 

Quando questionada por nossa equipe acerca da suposta perseguição política que sofreu, e dos detalhes que compõem toda essa trama, a entrevistada, por diversas vezes se esquivou e se negou a comentar o assunto. Tudo indica que os ataques sofridos por Nelci, acabaram, assim, por provocar a judicialização política de sua gestão, num processo de alijamento que acabou respingando também em sua filha. Tais disputas encerraram, de uma vez por todas, a vida de Dona Nelci na política goiana.  

Se, no entanto, o meio político pareceu injusto ao julgar o legado construído por Dona Nelci, outros conseguiram demonstrar muito bem tudo que ela representou para tantos que cruzaram sua vida e sua história. Num relato genuíno, ela nos lembra ser a sua casa um espaço aberto, onde "muita gente entrava". “O fato de eu ter sido a mulher que sempre trabalhou na área social me proporcionou muito esse carinho e amizade do povo. A minha casa estava sempre aberta a todos. Muita gente aqui entrava. A população tinha muito amor pela minha pessoa”, comentou, agradecida. 

Com um rosto e uma voz delicada, essa paulista, que tantos serviços prestou ao povo goiano, fala-nos agora abertamente sobre o lado bom de sua vida política. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, ela parece nitidamente insistir, no entanto, em só guardar lembranças positivas daqueles momentos de outrora. “Foi um tempo da minha vida em que fui feliz”, avalia.  E, dali, da mesma varanda que já acolheu tanta gente necessitada, ela continua a nos dar o seu testemunho de resiliência. 

“Eu não me lembro de nada que tenha ficado marcado como uma mágoa. (...) Eu encarei a política como uma oportunidade na minha vida de fazer algo mais, que até então eu não tinha conseguido fazer. A política proporciona isso, com ela, você tem condições de fazer muito mais. Por exemplo, na área da assistência social eu tive a oportunidade de fazer coisas que eu não teria feito se não fosse a política. (...) Achei bom ter tido a oportunidade, porque você tem mais poder, mais ferramentas que te ajudam a realizar aquilo que você se propôs a fazer”, confessa, tranquila, instantes antes de seguir para uma cirurgia que tinha programada para aquele mesmo dia. Horas depois, ela seria, então, submetida a uma nefrolitotripsia a laser para o tratamento de um cálculo renal. 

Essas histórias e muitas outras podem ser conferidas, com maior riqueza de detalhes, na entrevista abaixo. Ela integra mais uma edição do projeto Mulheres no Legislativo, série criada para homenagear e valorizar o legado feminino no Parlamento goiano. 

 

A senhora é paulista, nascida em São Roque. Quando é que a sua história se liga ao estado de Goiás?

São Roque é um lugarejo do estado de São Paulo, que fica quase na divisa com Minas Gerais. De lá os meus pais foram morar em São João da Boa Vista e depois nós nos mudamos para Londrina, no Paraná. Londrina estava no auge do êxodo, todo mundo estava indo pra lá naquela época porque parecia um eldorado. Meu pai mudou-se para lá com toda a família. Nós éramos todos pequenos, naquela época. Lá eu comecei o curso de contabilidade, que só terminei depois, em Curitiba. Foi um tempo bom, porque a gente tinha como estudar. Meu pai trabalhava no Colégio Londrinense, que era um colégio particular. Pelo fato dele trabalhar lá, a gente podia estudar num colégio bom. Foi uma época muito boa das nossas vidas. Depois de Londrina eu fui para Curitiba, porque eu trabalhava como chefe no escritório de um laboratório, que transferiu todos os seus funcionários para Curitiba. Lembro de ter ido, assim, meio chorosa. Mas foi muito bom, foi providencial, uma providência divina mesmo, porque foi lá que encontrei Benjamim Spadoni. 

Que viria a se tornar seu marido...

Sim, meu marido, que, aliás, foi uma pessoa muito especial, tanto na minha vida, quanto na vida da minha família. Além disso, por onde passava, ele deixava um rastro de bondade, de competência como médico. Foi uma pessoa realmente maravilhosa. 

E lá vocês se casaram? Como é que vocês vieram parar em Goiás?

Nós nos casamos em Santo André, São Paulo, em 1963, onde meu pai morava nessa época, porque o Benjamin já tinha se comprometido em assumir a direção do Hospital Evangélico em Rio Verde e precisava, então, vir para Goiás. Foi aí que viemos parar aqui, em Rio Verde, cidade na qual ele costumava passar as férias quando era estudante. Como ele passava as férias no hospital, acabou criando uma ligação com a instituição, da qual ele viria a se tornar diretor por muitos anos. 

Era um hospital público ou filantrópico?

Era um hospital filantrópico da Igreja Presbiteriana do Brasil. Esse hospital supria a região toda de assistência e tornou-se referência em saúde na região. O hospital recebia muitos estudantes de medicina, que realizavam cirurgias e tinham oportunidade de cuidar dos pacientes. 

Era praticamente uma residência médica que existia no hospital? 

Era sim, praticamente. 

E vocês eram ligados à Igreja Presbiteriana?

Sim, nós somos presbiterianos desde o nascimento, somos membros da igreja. Nossas vidas foram muito parecidas, sabe? Então ele veio porque ele amava o trabalho aqui, por ser um trabalho evangélico. 

E o hospital atendia o pessoal carente do município?

Sim, o hospital foi, por muitos e muitos anos, o lugar ao qual a região toda recorria. 

Não havia um hospital municipal, nada nesse sentido?

Não. O Hospital Evangélico foi uma luz, sabe? Foi fundado por missionários americanos, porque a região não tinha assistência médica nenhuma. 

E como era o município de Rio Verde naquela época, em 1963?

Era uma cidade pequenininha. Parece mentira, não? Mas em 63 conhecíamos todas as famílias. Naquela época o hospital era, inclusive, um ponto de encontro, porque que a cidade não tinha energia, e lá era único lugar que tinha luz elétrica, que era fornecida por um gerador. Então, quando chegava a noite, o povo da cidade ia quase todo para o hospital, sobretudo por conta do horário de visitas, que era às 19 horas. 

A senhora começou o seu trabalho social nesse hospital e só depois assumiu a secretaria da prefeitura?

Sim. Mas, primeiro, foram muitos anos no Hospital Evangélico. Depois de um tempo ali, eu fundei o departamento de Serviço Social da instituição. Cada médico do hospital tinha o compromisso de atender uma média de três pacientes por dia. Então, quando um atendimento extra era necessário eu recorria ao Benjamim, que atendia ou pedia para que alguém fizesse o atendimento, principalmente os casos cirúrgicos de pessoas que vinham, sobretudo de áreas mais remotas e acabavam ficando um longo período internadas no hospital. Dentre esses casos, havia crianças que vinham da zona rural, por exemplo, e que, antes, ficavam tanto tempo internadas que chegávamos até a pensar que os pais as tinham abandonado. Eu mesma quase que adotei várias delas, porque elas se sentiam muito carentes, afetivamente falando. Isso tudo produzia, em mim, um desejo cada vez maior de trabalhar ainda mais pela população carente. 

Entre 1989 e 1992 a senhora comandou a Secretaria de Promoção Social da Prefeitura de Rio Verde, durante o mandato do ex-prefeito Paulo Roberto Cunha. Foi essa sua iniciação no mundo político ou já havia tido alguma experiência anterior? 

Na verdade, eu não fiz aquilo pensando na política, em si, porque o meu dom, a minha vontade era de trabalhar pelo social mesmo. É como o pessoal daqui fala: “a dona Nelci gostava de pobre”. Realmente eu gostava de atender o pessoal pobre que ia ao hospital. E, pelo fato de eu ser esposa do diretor, eu tinha, digamos, muita facilidade com essa situação. Por isso foi que eu criei o serviço social, colocando funcionários para atender a camada pobre da população de Rio Verde. Eu atendia esse pessoal no Serviço Social e os encaminhavam para os médicos. E, cada um dos médicos assumia, então, o compromisso de atender três pessoas carentes por dia. Então acabei aproveitando essa ocasião para ir conhecendo melhor as pessoas. Da consulta, às vezes, elas eram encaminhadas direto para a sala de cirurgia. Isto quando não tinham que fazer exames. E todos esses encaminhamentos a gente fazia através do serviço social. Foi realmente uma bênção essa ideia de criar esse serviço para atender à camada pobre da população, que era grande. 

Então a senhora conseguiu levar essa experiência com projetos de assistência social para Secretaria de Promoção Social?

Sim, consegui. A diferença é que na Secretaria eu já tinha, digamos, mais poder. Porque eu estava ligada à prefeitura, que me dava o feedback que eu precisava pra continuar com os atendimentos. Então, nesse tempo eu tinha uma assistente social e uma psicóloga trabalhando comigo. Foi aí que nós criamos o Pequeno Trabalhador, um projeto profissionalizante que agregava os meninos, a maioria deles, instruindo-os de maneira que pudessem, então, desempenhar alguma função. Penso que hoje, talvez, esse projeto seria criticado...

Mas esse projeto não seria similar ao Programa Menor Aprendiz?

Sim, só que a diferença é que os participantes do projeto não tinham registro formal naquela época, embora fossem remunerados pelo trabalho que desempenhavam, sabe? Por exemplo, nós tínhamos uma padaria na qual eles trabalhavam e, dessa forma, adquiriam a formação profissional de padeiro, bem como na fábrica de vassouras. Tínhamos também uma fábrica de vassouras em que eles trabalhavam. Hoje penso que tudo isso seria muito criticado, por fazer a criança trabalhar. Mas, na ocasião, achávamos que era muito apropriado, uma vez que havia famílias muito pobres, que não tinham onde deixar essas crianças. Então elas eram acolhidas pelo serviço social e encaminhadas ou para a padaria ou para a fábrica de vassouras, todas sendo regularmente assistidas pela assistente social, pela psicóloga e por mim.

Foi desses trabalhos sociais que surgiu o desejo de disputar a eleição para deputada estadual? 

Sim, eu fui parar na política por causa do serviço social. Até então, eu nunca tinha tido qualquer desejo de seguir pela vida política. Eu acabei sendo meio levada a entrar para a política e, por fim, achei bom ter tido a oportunidade, porque você tem mais poder, mais ferramentas que te ajudam a realizar aquilo que você se propôs a fazer. Política realmente facilita muito as coisas. 

Um feito notável foi a senhora ter conseguido se eleger logo em sua primeira disputa como deputada estadual.

Como deputada sim, concordo. Eu digo isso não por me gabar, mas eu tinha muitos votos. Rio Verde, na época, era uma cidade onde o povo se conhecia muito. Pelo fato de eu trabalhar com a camada mais carente da sociedade, eu tinha muito apoio. Então, eu fui eleita com uma certa facilidade quando me candidatei para deputada estadual - sendo eleita a mais votada no estado - e, pela segunda vez, para prefeita também. Isso não foi tão difícil para mim. 

Antes de concluir o seu mandato de deputada, a senhora disputou a prefeitura do município de Rio Verde, se tornando então a primeira, e sendo até hoje, a única mulher a ter ocupado esse cargo nesta cidade. Naquela ocasião a senhora tinha ideia do pioneirismo que estava exercendo ao ocupar um cargo que é, historicamente, destinado aos homens?

Não, eu não tinha essa consciência. A única força que me movia era o desejo de ter nas mãos alguma coisa que eu pudesse usar para fazer face às necessidades da época. Eu me agarrava a isso. Eu pensava: nossa, se eu for prefeita eu vou ter condições muito melhores de fazer aquilo que eu tanto almejo. Essa ideia era a mola propulsora da minha motivação, o que me levava a enfrentar esse desafio, sabe? Mas eu quero deixar claro aqui uma coisa: se não fosse a presença e a ajuda do meu marido, eu não teria feito nada disso. Porque essa era uma coisa que demandava de mim disponibilidade total. Minha casa acabava sendo deixada um pouco de lado, para que eu pudesse fazer face às necessidades, primeiro, do serviço social e, depois, da própria prefeitura, o que demandava muito esforço. Um exemplo disso eram as viagens constantes que eu precisava fazer a Brasília para resolver questões administrativas. Foi um tempo, difícil, no sentido de conciliar bem todas essas coisas. 

Em 1994 a senhora se elege deputada estadual. Como foi ter vivido essa experiência, quais são as suas memórias mais marcantes?

O fato de ser mulher e ter sido eleita tão bem quanto eu fui - quase 20 mil votos - era algo que me dava uma força enorme para seguir fazendo o que eu acreditava. Então, neste aspecto, foi uma experiência muito gratificante. Além disso, também foi muito boa a convivência com as outras deputadas na Assembleia Legislativa do Estado de Goiás, que não eram muitas, na época, mas eram pessoas muito especiais, no que tange ao trabalho que elas realizavam em cada município. Foi um tempo muito agradável e de realização, porque ali a gente podia fazer o que até então não tinha podido por falta de condições. Eu tinha um poder nas mãos que até então desconhecia. Isso dava força ao trabalho. 

Antes de concluir o mandato como deputada, a senhora tomou posse como prefeita de Rio Verde, um dos municípios mais desenvolvidos e populosos, sendo considerado um dos grandes polos do agronegócio aqui do estado. Quais foram os maiores desafios que a senhora enfrentou para administrar a cidade?

Primeiramente, o fato de ser mulher, de ser uma pessoa que aparentemente não inspira muita força ou coragem, sobretudo no meu caso, que tenho um modo de ser, vamos dizer, mais manso, à primeira vista. Eu sentia que não inspirava muita confiança em algumas pessoas, que duvidavam da minha capacidade de ação. Por exemplo, só para citar uma situação: eu queria muito construir casas para a população carente e então recebi no meu gabinete um cidadão que veio oferecer sua empresa para realizar essa obra. Eu ofereceria o terreno e a empresa executaria a obra. Quando nós terminamos a negociação, ele falou assim: “agora, prefeita, nós vamos conversar sobre a sua parte”. Fiquei confusa acerca do que seria essa “minha parte”. Mais adiante foi que entendi que, na verdade, o que ele estava me oferecendo era dinheiro [propina, suborno]. É aí que a gente começa a ter uma noção mais clara da corrupção que ronda a classe política. Porque, no início, eu não estava vendo o problema. Para mim, a princípio, aquela era apenas uma pessoa batendo à porta da prefeitura para oferecer um serviço. No entanto, quando percebi que a situação estava caminhando para uma ação ilícita, eu disse: "vamos deixar isso para lá, ok? Essa conversa não tem mais a menor condição de seguir adiante, porque eu não vou aceitar esse tipo de atitude aqui". Essa foi uma experiência que me marcou muito e, de certa forma, criou uma indisposição contra mim junto àquelas pessoas que possivelmente tinham intenções de mesma natureza. 

E houve outros episódios como esse, era algo rotineiro?

Era rotineiro. Essa era uma maneira deles oferecerem para o político uma compensação monetária pelo esforço que ele teria, supostamente, que fazer. Mas, como isso não demandava gasto nenhum, eu achei tudo muito estranho. Era uma coisa que já acontecia, mas ao acontecer comigo, me feriu. Eu sabia que aquilo era errado e, por isso, deixei de fazer a negociação com ele. Depois conseguimos outra forma de fazer as casas. 

A senhora relatou que logo que tomou posse houve uma certa desconfiança pelo fato da senhora ser mulher e estar ocupando a prefeitura. Essa desconfiança se dissipou ao longo do mandato? As pessoas começaram a reconhecer mais o seu trabalho? 

É, na verdade, a minha dificuldade sempre se deu pela minha aparência de fragilidade e pelo meu modo de falar. As pessoas pensam: “ah! Ela não é uma pessoa que se destaca pela fala”. Então eu sempre lidei com isso com muita dificuldade. Eu tinha que me impor, às vezes. Pelo fato de as pessoas, a princípio, não confiarem em mim e me julgarem justamente pela aparência (risos). 

A senhora acredita que isso se justifica pelo fato das pessoas terem como referencial um jeito de se portar masculino?

É uma suposição. 

E a senhora se comportou da sua forma? 

Não tinha como mudar. É difícil você mudar o que você sempre foi, o que está dentro de você. É difícil. 

O final do seu mandato como prefeita coincide com a posse da sua filha, Lila Spadoni, como deputada estadual. Tivemos a oportunidade de entrevistá-la e ela nos relatou que a senhora foi a principal apoiadora dessa experiência na vida dela. Então te pergunto: a candidatura da sua filha fortaleceria a sua posição? A senhora pretendia manter um legado na Assembleia Legislativa de Goiás? 

Na verdade, existia uma pessoa que era o político da família e arquitetava essas situações, que foi o meu genro, marido da Lila. Apaixonado por política, sem nunca, no entanto, ter chegado a ocupar qualquer cargo dessa natureza, ele acabou sendo sempre o grande articulador, aquele que tem a capacidade de ver a situação, o momento, e orientar mudanças. Ele foi, nesse aspecto, a pessoa que sempre mostrou o caminho que a gente devia percorrer. Ele é uma pessoa que tem a política no sangue, porque gosta dela. Ele nunca quis se candidatar a cargo nenhum, mas ele é o verdadeiro político da família. 

Ele foi o estrategista...

Sim.

É interessante notar que a senhora, ao entrar para a política, assim como a sua filha, não herdou o capital político de homem nenhum. Vocês se fizeram por conta própria. A senhora sente que, de alguma forma, esse fato foi algo que tornou as coisas mais difíceis, nesse campo, para vocês?

Talvez. Porque pode ser que a gente tivesse que cavar menos para chegar onde chegamos. Até porque a gente não tinha muito em quem se espelhar para fazer o que tínhamos que fazer dentro da política. Por isso, não era fácil. A política é uma coisa, cheia de meandros que você desconhece. Então ficamos, às vezes, tateando, tentando fazer as coisas, mas, no fim das contas, trazemos para a política o que está, de fato, dentro de nós, não é? Eu nunca levei a política como uma profissão. Eu encarei a política como uma oportunidade na minha vida de fazer algo mais, que até então eu não tinha conseguido fazer. A política proporciona isso. Com ela, você tem condições de fazer muito mais. Por exemplo, na área da assistência social eu tive a oportunidade de fazer coisas que eu não teria feito se não fosse a política. 

E a senhora encontrou alguma resistência, alguma adversidade, nesse tempo enquanto a senhora atuou como prefeita?

Não, você sabe.... [ela se esquiva do assunto e segue falando sobre outras coisas] Eu escolhi para meu secretariado pessoas que não eram da política. Os meus secretários, todos, eram pessoas da comunidade, da sociedade, não inseridas no contexto político. Pessoas que eu sabia que iam poder fazer algo de concreto, que tinham inteligência para isso. Quando eu fui secretária, eu tinha uma equipe formada por uma psicóloga e uma assistente social, que davam suporte nesse projeto do Pequeno Trabalhador. Então eu, quando prefeita, tive esse pessoal trabalhando comigo. Eram pessoas técnicas. Eu escolhi minha equipe pela capacidade profissional de cada um.

Quando ingressou na política, a senhora já tinha uma família consolidada. Como a sua família recebeu essas suas novas demandas? Houve apoio?

Sim. Eu sempre tive muito apoio. Inclusive, Rio Verde foi uma cidade que nos recebeu muito bem. Todo mundo nos ajudava. Por exemplo, quanto à escola eu não tive nenhum problema, porque os meus filhos eram sempre muito bem acolhidos. O fato de eu ter sido a mulher que sempre trabalhou na área social me proporcionou muito esse carinho e amizade do povo. A minha casa estava sempre aberta a todos. Muita gente aqui entrava. A população tinha muito amor pela minha pessoa. Mas tudo teve um começo, porque o meu trabalho, a minha vida, antes de eu entrar na política, sempre foi de dedicação à camada pobre. Era como, que por vocação, porque eu sempre gostei do trabalho. Isso me rendeu muito carinho e amor. Até hoje eu me sinto assim: muito amada. 

Tanto na Assembleia quanto na prefeitura a senhora ocupou um reduto que é historicamente masculino. A senhora se recorda de ter sofrido algum tipo de preconceito, alguma dificuldade a mais pelo fato de ser mulher? A senhora já relatou a questão de as pessoas te acharem frágil, mas houve algum outro episódio mais marcante?

Não. Eu não me lembro de nada que tenha ficado marcado como uma mágoa. Nunca me aconteceu nada nesse sentido. Eu me lembro, de fatos que tinham uma outra motivação.  Não era uma situação contra a Dona Nelci, mas era o fato de eu estar tendo na política essa recepção tão grande como eu tive. Então isso causou uma certa inveja. A gente sentia. Essa ocasião foi, eu não estou me lembrando do motivo, mas nós tivemos que sair daqui corridas no meio da noite (a entrevistada se perde mais uma vez em suas memórias).

Mas rolou um conflito, o que aconteceu exatamente? 

Era... Ai, gente, não me lembro bem...

A senhora tinha que lidar com oposição aqui? Como foi sua gestão aqui nesse sentido?

Eu sempre tive mais gente do meu lado do que contra mim. Não estou agora me lembrando desse fato que eu queria contar, por que tivemos que sair e ficar escondidas até sanar a situação. Mas, era uma coisa muito pontual. No dia a dia, eu não tinha essa dificuldade de lidar com as pessoas. 

Após o fim do seu mandato como prefeita, a senhora chegou ainda a avaliar a possibilidade de permanecer na política?

Não. Eu terminei o meu mandato e achei que já tinha dado a contribuição que foi requerida de mim. Como a minha família não é de político, eu achei que não valia a pena continuar lutando por cargo. Então eu saí da política. Mas não saí com mágoa. Eu tenho saudade do tempo de Assembleia, porque nós, as deputadas, éramos muito amigas umas das outras. Eu lembro desse tempo com saudade. 

Voltando um pouco para o Parlamento. Além da senhora, havia ainda outras cinco mulheres: Dária Rodrigues (PMDB), Denise Carvalho (PCdoB), Mara Naves (PMDB), Onaide Santillo (PMDB) e Vanda Melo (PPB). Havia uma rede de suporte entre vocês? Como era o convívio?

Sim, nós éramos muito unidas. A Denise, muito inteligente, sempre era a cabeça das propostas. Eu me lembro também muito da Dária e da Mara. Foi um tempo muito gostoso, do qual me lembro com saudade e não com mágoa. 

Olhando para trás, para toda sua trajetória, a senhora faria com a maturidade que tem hoje, tudo de novo ou mudaria alguma coisa? 

Eu acho que foi uma oportunidade tão grande atuar na área social. Foi algo que eu sempre quis, sempre foi o meu desejo. Eu agradeço muito o fato de ter tido nas mãos uma oportunidade maior, como a política, de poder realizar as coisas. A política tem esse viés, não é? Você pode, com ela, realizar aquilo que você quer e ser bem recebido nos lugares que você for. Geralmente as pessoas gostam de quem tem um cargo político. Eu sempre achei que foi uma bênção à parte ter tido essa oportunidade na política.

A senhora é feliz com tudo que viveu? Não mudaria nada?

Não mudaria, porque nessa cidade eu até hoje sou muito bem recebida...

A senhora é lembrada.

Às vezes as pessoas não me reconhecem. É interessante. Mas eu me sinto até hoje muito amada.

De onde vem, na senhora, essa vontade de ajudar as pessoas?

Não sei. Eu sempre tive esse desejo de fazer mais pelo pobre. Visitar as vilas, por exemplo, o que para muita gente era um sacrifício, para mim era uma alegria. Eu saia de manhã, sem hora para voltar. Eles até me apelidaram de velhinha do kichute, porque eu punha um tênis no pé e aí eu ia para as vilas. Naquele tempo, eu tinha boas ajudantes em casa, que me auxiliavam com meus seis filhos. Então eu saía, ia para as vilas, andava de casa em casa o tempo inteiro, o que para mim era uma alegria. Era assim.

A senhora teve quantos filhos?

Eu tive quatro meus e peguei dois para criar. Um deles é o Valdeci, que é especial. Ele tinha 16 anos quando veio para a nossa casa. Conheci a minha filha adotiva, Iara, em uma dessas visitas a um bairro pobre, e a adotei. Iara era sardentinha e feinha. Hoje ela está bonita, saudável e o marido é vereador. Ela traz muito a netinha dela para eu ver. É uma filha do coração, que a gente pegou porque realmente ela não podia continuar na vidinha que tinha. 

E como foi conciliar essa carreira política com a vida familiar? 

Nós vivíamos todos juntos no quarteirão do hospital, quase como uma família. Outros médicos foram chegando e morando lá. Era um lugar tão protegido. As crianças brincavam no quarteirão do hospital e era uma vida quase que comunitária ali dentro, uns cuidando dos outros. E eu tinha essa bênção de fazer o meu trabalho, que eu gostava, e ao mesmo tempo ter as ajudantes que eu precisava para continuar atuando naquele ambiente. Meus quatro filhos  [biológicos] foram criados nesse quarteirão também. 

A Lila nos contou que a senhora a educou sempre nesses trabalhos sociais e que isso foi muito importante para formação humana dela e dos irmãos. 

É, eles participavam porque eu levava gente para casa também. Por exemplo, uma vez eu fechei um prostíbulo que funcionava aqui. Eu nem tinha poder para isso naquele momento, eu era simplesmente a Dona Nelci. Um dia, no serviço social, eu estava atendendo, essas meninas chegaram chorando e foi quando eu soube que nesse prostíbulo, frequentado por velhos fazendeiros, trabalhavam apenas meninas… E eu fui, então, no delegado e no juiz. Peguei as meninas todas e as levei comigo. Internei algumas no hospital, outras eu devolvi para família e fechei o prostíbulo. Isso também foi um negócio que me deixou meio marcada, porque os grandões da cidade, que frequentavam esse prostíbulo, não acharam muito boa a minha atitude. Uma dessas meninas era tão triste... Uma criança triste, que tinha uma história muito triste e eu a levei para a minha casa. Mas, antes de eu a levar, houve um episódio em que ela, enquanto estava internada no hospital, quebrou um vidro da janela da instituição, com as próprias mãos, e se cortou. Eu me apaixonei por ela e a levei para minha casa. Moral da história: ela casou-se e a última notícia que tive dela foi de que ela estava morando em Cuiabá. Ela veio aqui, durante muitos anos, me visitar com a família, sabe?

Como é pra senhora saber que fez diferença na vida de tantas pessoas?

Eu fico tão grata, porque eu penso assim: "Deus me deu essa oportunidade trabalhar e de gostar desse trabalho". Daí tudo isso me levou à política, porque as pessoas precisavam de cuidado. 

E o marido da senhora sempre apoiou, certo?

Sim. sempre. Ele achava lindo (risos) o fato de eu ter ficado fora de casa para ser deputada. E eu, por outro lado, ficava me sentindo culpada de deixá-lo sozinho, sabe? Mas ele trabalhava tanto - era cirurgião. E também foi diretor do hospital durante muitos anos. Eu trabalhava no serviço social e ele era o diretor do hospital. Em tudo o que eu precisava fazer, eu tinha o apoio e o amparo dele. Ele sempre foi uma pessoa maravilhosa. 

Ao todo, já se vão mais de cinco décadas que a senhora segue morando nessa cidade. Mudou muita coisa ao longo desse tempo? 

Sim, muita coisa mudou. Quando eu fui prefeita, para receber a Perdigão, construímos e arcamos com toda a infraestrutura, até dos itens mais básicos como brita, por exemplo. E isso tudo onerava bastante o orçamento municipal, compreende? Tínhamos que tirar de um lugar para pôr no outro. Muito foi gasto, nesse sentido, para se construir o conglomerado da Perdigão. E eu toquei a obra, porque esse acordo, feito pela administração anterior, não poderia ser quebrado. Esse fato foi tão marcante, que passou a existir uma Rio Verde antes e outra depois da Perdigão, uma vez que a fábrica acabou empregando muita gente da cidade e de fora também. 

Depois a senhora conseguiu trazer também a BRF?

Sim. A BRF já foi propriamente um fruto da minha gestão. Eu sabia que também seria um período muito oneroso para a prefeitura, mas que, em compensação, daria também para cidade e para as pessoas uma oportunidade melhor de perspectiva de vida, que, até então, a cidade não tinha. Foi muito bom. 

Que outras pessoas importantes te deram apoio, tanto na política quanto na vida pessoal?

Muitas pessoas. Não sei se eu me lembraria de todas. Instituições como o Hospital Evangélico sempre me deram apoio. A seção do serviço social do Hospital Evangélico foi aquele lugar onde as pessoas sabiam que teriam o problema delas resolvido. Às vezes, não era nem questão de saúde, propriamente, era outro problema. Mas elas sabiam que lá seriam bem cuidadas, não é? Então foi assim… Eu tinha entusiasmo para fazer essas coisas, porque amava. Saía cedo de casa e chegava a atender de 30 a 40 pessoas por dia. 

O que a senhora acredita que a ajudou a se destacar tanto num município que não era assim tão voltado para o social? 

Eu acho que a questão maior era esse amor que eu tenho por gente. Eu gosto de gente. Tanto que a minha casa era sempre aberta. Quem chegava, comia. Minhas ajudantes, Dona Maria e Dona Luzia, eram pessoas muito especiais e queridas, que pareciam abraçar a causa tanto quanto eu. Ambas já morreram. Eu não estava sozinha. Eu também tinha um marido, que era maravilhoso. Ele cooperava com a minha causa, operando os pobres todos que eu encaminhava para ele por meio do serviço social. Por ser o diretor do hospital, ele tinha esse poder. O Benjamin fazia cirurgias, que ainda hoje não é qualquer hospital que faz. Ele tinha o dom. Era o cirurgião. E outra coisa que ajudou muito também foi o fato de muitos estudantes de medicina terem começado a passar férias no hospital para fazer estágio. 

Rio Verde é hoje também um importante polo na área da saúde?

Sim. Inclusive Rio Verde tem faculdade de medicina hoje, que é particular. Benjamin também foi um dos pioneiros nessa área, porque ele lutou muito por essa universidade. Ele fez parte do processo, foi diretor e reitor. 

A seu ver, existe diferença entre as experiências de atuação nos poderes Executivo e Legislativo? 

Sim, existem muitas diferenças. No Legislativo, por exemplo, se você quer fazer uma lei, você conta com o apoio de outras pessoas para tal propósito. Já no Executivo, você é a pessoa que vai tomar a decisão, sozinha. É, sem dúvida nenhuma, um trabalho mais solitário, mais responsável. Porque você, às vezes, tem que tomar uma decisão que afeta diretamente muita gente. Por isso, é uma grande responsabilidade que você assume. 

Sobre a convivência no Parlamento, como era o relacionamento entre vocês - deputadas - e os outros colegas?

Eu tenho uma lembrança tão gostosa desse tempo na Assembleia. A única coisa que me deixava triste era de estar longe do Benjamin. Mas eu tinha muitas amizades. Algumas dessas amizades eu mantive por muitos anos, por exemplo, um dia eu resolvi fazer uma reunião nesse apartamentinho muito antigo e pequenininho que ainda tínhamos no Setor Aeroporto, e convidei muitas pessoas queridas, dentre elas o Nion Albernaz. Aí alguém falou assim: "mas a senhora tem coragem de trazer o Nion Albernaz aqui. E eu falei: uai, por que não (risos)?" [Nion, falecido em 2017, foi vereador, prefeito de Goiânia por três mandatos e também deputado federal constituinte por Goiás]. Ele foi um desses amigos queridos para mim, conversava muito comigo. Nion Albernaz naquela época era “o” prefeito, e eu pude ter amizade com ele.

Dona Nelci, uma das razões pela qual estamos fazendo esse projeto é porque temos visto que o número de mulheres no Legislativo tem caído, apontando um cenário pouco favorável às mulheres, de forma geral. Diante disso, gostaríamos de saber como a senhora percebe todo esse contexto. A senhora, como parlamentar que foi, líder de um município, qual é o legado que a mulher tem deixado na vida social e política goiana?

Eu penso que as mulheres deveriam vir mais para esse contexto político e social, porque a mulher tem uma sensibilidade para lidar com essas situações, que, às vezes, o homem não tem, pelo simples fato de não ser do feitio dele se permitir. Mas a mulher é maternal, e sempre acaba vendo coisas que o homem não vê. Ela enxerga nas pessoas as necessidades que um homem não enxerga. A mulher realmente tem uma sensibilidade maior e acaba colocando essa atenção no atendimento, no trabalho que ela realiza. Eu acho que a mulher tem tanta capacidade quanto o homem. Lógico que não estou falando da capacidade física, mas da mental, intelectual, espiritual. A mulher tem toda capacidade que o homem tem, de poder assistir às pessoas. E isso é o que realmente importa.

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