Dia da Imprensa
Há uma estreita relação entre o Parlamento e os jornalistas. Se o Poder Legislativo é conhecido como a caixa de ressonância da sociedade, a imprensa é o canal pelo qual os grandes debates são levados ao conhecimento público. Por isso, em comemoração ao Dia da Imprensa, celebrado em 1º de junho, a Assembleia Legislativa publica uma série de entrevistas com profissionais que, munidos de bloquinhos e canetas, dedicaram-se a cobrir o cotidiano do mais representativo dos Poderes da República.
Tudo começa de modo bastante simples: um repórter vai ao Parlamento para observar e anotar os fatos desenrolados no debate político. A notícia nasce desse contato próximo. A informação de interesse público pode vir de um projeto de lei ou uma discussão acalorada entre dois deputados ou um modesto requerimento que solicita a reforma de uma ponte maltratada pelo uso. O jornalista registra, divulga e torna acessível o que pode interessar à população.
Valor intrínseco do regime democrático, a liberdade de imprensa permite que o cidadão possa acompanhar de perto a atuação dos representantes escolhidos pelo voto popular. Ao mesmo tempo em que o Parlamento municia os jornalistas com debates que mudam o curso da história, os deputados aproveitam as informações publicadas pela imprensa para repercutir e procurar soluções para os problemas que afetam toda a sociedade.
Algo está muito errado no Estado Democrático de Direito quando os jornalistas abrem mão da cobertura do Parlamento. O debate político saudável é tão necessário para o exercício da cidadania quanto sua divulgação transparente e sem censura. Garantia fundamental resguardada pelo art. 5º da Constituição Federal e pelo art. 169 da Constituição Estadual a liberdade de imprensa contribui de maneira decisiva para o aperfeiçoamento do regime democrático.
O Dia da Imprensa é, para o Poder Legislativo, como se fosse o aniversário do irmão caçula, do qual às vezes se diverge e ao qual muitas vezes se converge. Ambos precisam caminhar juntos para que o futuro seja melhor. A Assembleia Legislativa de Goiás celebra essa data com entrevistas de grandes jornalistas que registraram o cotidiano ímpar, intenso e transformador do cotidiano parlamentar. A primeira entrevista, que se segue, é com o jornalista Alziro Zarur.
O projeto é uma parceria da Diretoria de Comunicação da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), por meio da Agência Assembleia de Notícias e da Seção de Publicidade, Imagem e Identidade Corporativa da Casa.
A data de comemoração faz referência ao dia de circulação do primeiro jornal genuinamente brasileiro, o Correio Braziliense, que começou a circular em Londres em 1º de junho de 1808. Seu fundador foi Hipólito José da Costa, um dos poucos nomes inscritos no Livro dos Heróis da Pátria. Essa data de celebração decorre de uma proposta do ex-deputado federal Nelson Marchezan, que se tornou a Lei federal nº 9.831/1999.
Alziro Zarur
O primeiro depoimento é do jornalista Alziro Zarur, que hoje é editor chefe da Agência Times Comunicação, mas já passou por diversos veículos em seus 39 anos de experiência no jornalismo goiano. Ele foi diretor de Comunicação do Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO), diretor de Redação do jornal O Hoje e editor executivo da TV Anhanguera por 25 anos.
Zarur começou sua carreira no jornal Diário da Manhã (DM) na década de 1980 quando ainda era estudante de jornalismo na Universidade Federal de Goiás (UFG). “Entrei lá como foca”, disse o comunicador. “Foca” é uma expressão usada para designar todo jornalista em início de carreira e ainda inexperiente.
Ele conta que quando começou, o DM também estava em seu início e nesse momento muitas oportunidades positivas surgiram para os profissionais do jornal. “Pude trabalhar com grandes jornalistas brasileiros porque o DM trouxe muitos de São Paulo e do Rio de Janeiro. Foi uma nova escola para mim”, relata.
Pós-verdade
Ao ser questionado sobre o processo de redemocratização que a imprensa passou ao longo dos anos, Zarur afirma que, na verdade, o que vem acontecendo é um “processo de retração” na democracia, pois, segundo ele, “por incrível que pareça as liberdades conquistadas com muita luta por toda a sociedade parecem estar ameaçadas”.
Ele sustenta que a imprensa, que é “um ponto fundamental para se medir uma democracia”, passou a ser atacada. “A liberdade de imprensa passou a ser ameaçada. Passaram muito a usar o termo ‘pós-verdade’, pois a verdade veiculada na imprensa passou a ser menos valorizada e as redes sociais estão sendo utilizadas para atacar grandes jornais respeitados”, disse.
O termo “pós-verdade” utilizado pelo jornalista foi eleito a Palavra do Ano em 2016 pelo dicionário Oxford, no qual foi definida como "a ideia de que um fato concreto tem menos significância ou influência do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. De acordo com o dicionário, o prefixo “pós” transmite a ideia de que a verdade ficou para trás.
“Há muitos anos no Brasil, quando o jornal contraria o interesse de alguém o contrariado se sente perseguido e, hoje, essa situação se exacerbou porque o jornal fala a verdade e é chamado de jornaleco. Frequentemente jornalistas como o Chico Pinheiro, da Globo, é chamado de lixo mesmo sendo uma pessoa de respeitabilidade fantástica”, afirmou ainda.
O relato de Zarur está diretamente ligado a concepção de pós-verdade, pois o fundamento do termo foi retirado do conceito psicológico de viés cognitivo, que explica a tendência natural do ser humano de julgar fatos com base na sua própria percepção. Assim, quando essa tendência é explorada pelos meios de comunicação para fins midiáticos, econômicos ou políticos, nasce o fenômeno da pós-verdade, no qual as massas “preferem” acreditar em determinadas informações que podem não ter sido verificadas.
No Brasil, atualmente, “os jornais considerados mais independentes - pois não existe no mundo um jornal 100% independente - lutam pela emancipação da informação por meio da busca de um trabalho de excelência”, destaca Zarur.
“O papel da imprensa é fundamental nos dias atuais”
Mesmo em meio a tantos desafios enfrentados pela imprensa para sustentar sua credibilidade e fazer um trabalho independente, para Alziro Zarur, o papel dela continua sendo fundamental, principalmente nos dias atuais. “Nunca necessitamos tanto da imprensa independente, autônoma, quanto atualmente. A imprensa tem um trabalho corajoso a fazer. Embora nós, jornalistas, nunca tenhamos sido tão achacados, tão atacados como agora”, ele disse.
Ele declara que se o profissional de comunicação publicar uma matéria que contraria alguém mesmo trazendo a verdade dos fatos, ele passa a ser atacado por muitas pessoas, até mesmo por robôs. “Com as redes sociais a informação está ao alcance de todos, isso é bom, mas também é uma situação crítica. Há todo um sistema organizado para atacar a imprensa, a verdade”, sustentou o jornalista que acredita que, para combater esse comportamento destrutivo do usuário mal-intencionado, o trabalho da imprensa se faz ainda mais importante.
Ao tratar sobre as fake news, Zarur assegura que elas sempre existiram, mas que agora se fortaleceram e estão ao alcance de todos por conta das redes sociais. “As fofocas sempre existiram. Elas vieram com o convívio social. Nós temos o mesmo valor que tem uma pessoa que, às vezes, não tem conhecimento sobre determinada informação. Essa pessoa tem o mesmo espaço que um grande jornalista mundial, por exemplo. Ela pode entrar lá (na rede social) e combatê-lo. É uma situação crítica”, reitera.
Para Zarur, as pessoas comuns que usam redes sociais e que gostam de buscar a verdade, vêem uma notícia numa rede social e vão consultar os bons sites, os jornais confiáveis. “Então, essa verdade um dia vai prevalecer. Há sites que trabalham com a veracidade das notícias e frequentemente determinadas informações que podem mudar a opinião pública são contestadas. Esses sites investigam e dizem que é fake, isso é notícia falsa. Então, é preciso estar muito voltado para isso porque senão a mentira vai continuar prevalecendo”, declarou.
Para combater as notícias falsas que permeiam as mídias sociais, ele explica que é preciso buscar mais investigação. “Quando envolver denúncias, por exemplo, deve buscar mais provas. A gente tem que atuar com maior responsabilidade do que antes”, destaca.
Ele garante que “a liberdade de imprensa tem que caminhar junto com a responsabilidade de imprensa”. Isso porque se o jornalista manchar a imagem de alguém com uma notícia falsa ou mal checada, ele pode manchar sua credibilidade e prejudicar os personagens envolvidos no fato.
“É preciso muita responsabilidade. Não é fácil para quem é injustiçado refazer sua imagem. Nós temos muita história no jornalismo brasileiro de gente que teve a imagem manchada pela imprensa e nunca mais conseguiu recuperá-la. Mas, até mesmo por isso, o jornalismo bem feito nunca foi tão importante”.
Parlamento
Após quase 40 anos atuando no jornalismo goiano, Alziro Zarur tem grande mestria para analisar o trabalho do Parlamento junto a imprensa. Ele percebe que o Poder Legislativo tem sido fortemente atacado também. “Por mais falhas que o Parlamento tenha, ele é o fiel da balança na democracia , pois é o Poder que vai abalizar as coisas, evitar os excessos do Executivo e Judiciário”, disse.
Dessa forma, ele explica que o Legislativo deve funcionar com total autonomia e, “nesse momento atual, é feito campanha para acabar com o Parlamento, para acabar com o Poder Judiciário. É uma loucura o que estamos vivendo”. Mais uma vez, o jornalista reforça o dever que os profissionais da informação têm de trabalhar “dentro da verdade, da sua verdade”.
Zarur afirma ainda que o Parlamento pode contribuir para assegurar a liberdade de imprensa, pois é ele que cria as leis e tem que atuar junto a imprensa. “Os parlamentares de todos os níveis, passando pela Câmara de Vereadores, Assembleia Legislativa até o Congresso Nacional, precisam de valorizar a imprensa, reconhecer o trabalho dela e não aceitar os ataques e mudanças de leis que venham amordaçar esse trabalho. Isso passa pela luta pelo bom funcionamento das instituições democráticas em todos os níveis”.
Embora atacada, de acordo com Zarur, a imprensa ainda está conseguindo produzir conteúdo de qualidade. “Institucionalmente os veículos de comunicação ainda não foram calados. Há tentativas, mas, até então, não se mudou leis e instituições para prejudicar o trabalho da imprensa. Ela está trabalhando, mesmo achacada”, emitiu.
Cerceamento da liberdade de imprensa
Apesar das tentativas de calar a voz da imprensa, ela ainda respira. É isso que Alziro Zarur explica durante a entrevista. Esse respiro ainda é sufocante, pois, em 2018 foi divulgada uma pesquisa que aponta o Brasil como segundo país da América Latina com mais jornalistas mortos. Em 2019, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apontou que somos o 6º mais perigoso do mundo para os profissionais da informação.
Zarur cita que em termos de liberdade de imprensa no mundo, o Brasil está em 105º lugar. “Ele perde para o Paraguai, para a Argentina, para todos os países vizinhos. Os países nórdicos são os mais livres, mais independentes, a imprensa lá tem total liberdade, total credibilidade. Aqui, jornalistas são mortos e atacados o tempo todo. Tentam ferir a imagem de grandes jornalistas brasileiros. É triste, isso fere a liberdade de imprensa”, declarou desapontado.
Ao citar uma situação de cerceamento da liberdade em sua experiência profissional, o jornalista conta que nunca sofreu nenhuma ameaça de morte, mas já quiseram tolher seu direito de trabalhar de forma imparcial, de fazer denúncias, por exemplo. Ele conta uma situação que aconteceu quando começou a carreira no jornal DM. Ele era repórter esportivo e o presidente de um clube de futebol em Goiás ofereceu-lhe dinheiro para favorecer o clube nas manchetes que publicava até então.
Zarur relata que ficou assustado. “Eu disse você está querendo me comprar?. Eu não me vendo não. Não sou venal. Essa atitude minha mudou a forma como o presidente do clube me abordava. Ele viu que eu não me venderia para beneficiar o time e, a partir daquele momento, ele começou a me dar todos os furos, todas informações. Passou a me respeitar como profissional”, descreve.