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A 16ª edição do projeto Mulheres no Legislativo traz entrevista com a ex-deputada Rose Cruvinel, que conta sua trajetória

05 de Outubro de 2020 às 15:28
Crédito: Divulgação
A 16ª edição do projeto Mulheres no Legislativo traz entrevista com a ex-deputada Rose Cruvinel, que conta sua trajetória
Ex-deputada Rose Cruvinel

Ela nasceu em 1948, na pequena cidade piauiense de São Raimundo Nonato, onde era conhecida como Maria Roselene Deusdará. Aqui em Goiás, Maria viria a se tornar Rose Cruvinel e venceria cinco eleições no Poder Legislativo, onde se destacou como uma médica que não mediu esforços e nem palavras para representar e defender os interesses das classes menos favorecidas. “Eu não era essa vovozinha que sou hoje. Eu era meio custosa e muito brava. Para defender alguém, eu jogava todas as cartas”, alertou Rose, rindo, durante a entrevista ao projeto Mulheres no Legislativo. 

Apesar de vovozinha, como ela mesma se intitula, aos 72 anos, Rose continua se revelando uma mulher vivaz, atenta e participativa. A entrevista foi concedida em 12 de agosto de 2020, por uma plataforma de videoconferências, que Rose não apenas operou sozinha, como conhece a ponto de também ensinar pré-candidatas(os) a vereadoras(es) a usá-la. 

Atualmente, ela é coordenadora da pré-campanha de seu filho, Virmondes Cruvinel Filho, à Prefeitura de Goiânia e, dentre tantas outras experiências e conhecimentos, Rose se orgulha de dominar também o Marketing Político Digital. “Olha que coisa incrível. Há mais ou menos uns sete anos, eu comecei a estudar o Marketing Político Digital. Então, quando hoje eu vejo todos tendo que recorrer ao mundo digital, percebo como isso me fez bem. Veja bem, eu, com 72 anos, aqui no Meeting... Poucas pessoas têm essa facilidade com redes sociais e recursos tecnológicos. Eu já vinha me preparando, parece que eu já tinha um pressentimento de que isso ia ser necessário”, brinca, referindo-se às mudanças que a pandemia de covid-19 impôs às campanhas eleitorais de 2020. 

 

A migração e a vida em Goiás

Do Piauí, ela guarda lembranças de uma infância livre, na qual cidade e campo se misturavam e as crianças brincavam soltas, sem tantos medos e perigos. Aos nove anos, migrou para Goiás em uma comitiva de 40 pessoas, organizada por seu pai, João Silva. O grupo era composto por familiares e alguns funcionários em busca de mais oportunidades. A viagem é uma memória que ela compartilha com empolgação e em tons de aventura. “Nós pegamos o vapor, uma embarcação que navegava no rio São Francisco, e fomos desde Remanso, na Bahia, até Pirapora, em Minas Gerais (...) Passamos 21 dias só nessa embarcação. Foi uma coisa fantástica, uma saga mesmo. De Pirapora, em Minas Gerais, nós continuamos o trajeto de ônibus, até Araguari. Em Araguari, nós chegamos numa sexta-feira da paixão. Não podia andar de ônibus. Aí, meu pai fretou um trem (...) Eu me lembro perfeitamente do dia da nossa chegada. Era como se fosse um mundo novo”. 

Um mundo novo foi realmente o que Rose experimentou em terras goianas. Apesar da condição financeira estável, os pais dela decidiram morar em uma região periférica em Goiânia e foi exatamente o contato frequente com aquela dura realidade que trouxe à tona sua vontade de ajudar os mais pobres. Ela conta que, anos mais tarde, já na Política, sentia que eram essas experiências de vida que a credenciavam como representante das classes populares. “Muitas vezes eu estava ali no Palácio do governo e pensava: “gente, eu, que vim lá da periferia, que convivi com o povo, estou aqui exatamente dizendo do que o povo precisa. Porque eu sei, eu vivi essa realidade”, recorda.

Rose se lembra bastante da infância e adolescência na região Leste de Goiânia. Moradora da Vila Nova, ela explica que embora, naquela época, o bairro fosse “só poeira", porque "ainda não tinha nada”, ele era, mesmo assim, o seu cenário de liberdade e diversão. “Até os 14 anos, eu era criança de jogar bola no meio da rua com os meninos (...) Jogava bola, soltava pipa, pegava o cavalo do vizinho para dar umas voltas, e essas coisas todas. Sempre com aquela ideia de que eu tinha que estudar. A escola para mim sempre foi prioridade”, ressalva. 

 

Paixão pelos estudos

Os estudos aparecem diversas vezes na narrativa que Rose faz da própria trajetória. Ela ressalta que, para um estudante de escola pública, passar no vestibular de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG) era fato raro e resultado de muita abdicação. “Era uma dedicação! Você tinha que deixar praticamente tudo e estudar para chegar àquele objetivo”. Esse resultado foi perseguido arduamente e construído durante longos anos, até mesmo porque, segundo a ex-deputada, ela chegou em Goiás com uma deficiência no seu processo de alfabetização, que a colocou em atraso em relação ao resto da turma. “Cheguei atrasada em relação aos alunos daqui e, para conseguir o meu intento, ficava estudando a noite inteira e colocava os pés dentro de uma bacia de água para não dormir. Isso eu fiz do primário até o vestibular”, revela. 

O ímpeto pelo aprendizado fica claro a cada menção que a entrevistada faz não apenas aos conteúdos que já aprendeu, assim como a tudo que ainda gostaria de conhecer melhor. De jardinagem a direito eleitoral, passando por especializações na UFG, por diversos cursos da Escola de Governo Henrique Santillo e por conhecimentos das diferentes áreas que assumiu em cargos administrativos nos últimos anos, Rose demonstra ser uma incansável aprendiz, dos livros e da vida. É interessante perceber como a sua vontade de estudar está associada à vontade de realizar, de intervir, de forma prática, na sociedade. Para ela, o estudo é uma ferramenta de intervenção prática na sociedade. “Eu gosto de estudar. Essa minha força vem também do estudo”, observa. 

Tendo os estudos sempre como prioridade, o casamento só viria depois de concluída a sua primeira residência médica, em Pediatria. Numa época em que as mulheres geralmente engravidavam muito jovens, Rose escolheu adiar também a maternidade em nome da profissão. Daria a luz a seu primogênito, Virmondes Filho, aos 30 anos. e na sequência os outros dois: Hercília aos 31 e Victor aos 32. Anos mais tarde, a família ganharia um novo integrante, a quem ela chamou de filho do coração. O então afilhado Ailton foi acolhido pela família toda. “Ele é quatro anos mais velho que o Virmondes. Quando veio morar comigo, ele já tinha 11 para 12 anos e morou até os 27, quando se casou”, contextualiza.

A Medicina foi seu primeiro alvo, almejado desde a infância. Em meio à falta de estrutura e de profissionais na Goiânia dos anos 50, aos 10 anos, Rose já aplicava injeções,  ensinada pela mãe, e chegou a auxiliar em um parto. Quando conseguiu se tornar médica, Rose escolheu a Pediatria, porque se comovia com a situação das crianças pobres. A política viria depois, como consequência de sua atuação junto a essa camada da população. “Como pediatra, eu via coisas terríveis que aconteciam com as crianças, as dificuldades que elas passavam. Eu não entendia que era a Política que resolvia isso, achava que era a Medicina. Eu já era especializada como pediatra e, 10 anos depois de formada, voltei à Faculdade para me especializar como sanitarista, porque eu compreendia que médico tinha muito poder. O que eu descobri foi que médico não resolvia nada, quem resolvia eram os políticos”, explicou Rose, ao justificar sua primeira candidatura a vereadora, em 1988. 

Política, uma paixão não tão nova

Seu ingresso na Política tinha sido anterior. O marido, Virmondes Borges Cruvinel, filiado ao PMDB desde 1983, foi chefe de gabinete na Secretaria da Educação e secretário da mesma Pasta antes de se tornar deputado estadual constituinte. Ele foi eleito ao cargo em 1986 e Rose, que já era envolvida com instituições representativas da classe médica (ela havia sido presidente da Sociedade Goiana de Pediatria, por exemplo) , participou ativamente da campanha, naquela ocasião.

Todas essas peças se juntaram para trazer à tona um desejo adormecido desde a adolescência, como mostra um episódio ocorrido nas ruas poeirentas da Vila Nova e que ela classifica como um despertar. “Então passou um carro de som anunciando que ia ser construída uma rede de esgoto ali, naquele bairro, para que o povo pobre também tivesse acesso às coisas boas. Algo mais ou menos assim. Quem estava fazendo isso era um prefeito chamado Hélio de Brito[1961-1966]. E aí, o locutor dizia: "esse médico, esse político vai mudar a vida do povo". E ali, naquele momento, eu acho que encontrei as duas profissões que queria ter na vida: médica e política. Parece que eu tive, naquele instante, um despertar para essas profissões. Então eu fui caminhando e acabei chegando nas duas.”, relaciona. 

Apesar do sobrenome do marido político, Rose fez seu próprio caminho. Eleita vereadora pelo PMDB, em Goiânia, por quatro mandatos consecutivos, ela queria representar as demandas populares por assistência social. “O que me levou à Política foi essa força mesmo, das dificuldades que eu via e que descobri, depois de frequentar vários cursos, que a Política é que resolve”, explica. De perfil aguerrido, por vezes sua atuação chegou a contrapor a posição política do cônjuge. “Eu fiquei uma semana acampada na porta do Palácio e meu marido era, na ocasião, secretário de governo, no governo Santillo. Eu acampava com as pessoas para que eles fossem recebidas com dignidade”, recorda.  

Em meio a outros assuntos, por diversas vezes, ela demonstra satisfação em ter ajudado a população, seja por meio de projetos legislativos, mas principalmente pelas melhorias efetivas, que conseguiu levar para os bairros e comunidades. “Eu trabalhei muito em prol dessa causa da legalização fundiária. Era um trabalho com várias etapas, que iam desde a escritura que a pessoa recebia até a chegada da infraestrutura na região. Creche, escola, asfalto... A minha defesa sempre foi a de que aquela comunidade tinha que receber a presença do Estado e gozar de uma vida digna. Eu trabalhava para isso, o que me dava muita satisfação.”, exemplifica. 

Avessa a protocolos, ela menciona que, enquanto vereadora, chegou a marcar uma audiência com o presidente da época, Fernando Collor, a fim de trazer para Goiânia um projeto educacional que originalmente não contemplava a cidade. “Ele me falou: ‘arrume os locais, que nós vamos construir duas unidades em Goiânia’. Nós conseguimos um terreno no Jardim Curitiba e outro no Parque das Laranjeiras. Eram terrenos grandes, e as obras foram feitas. Eu não tinha barreiras.”, comemora. 

Na entrevista, ela também comenta sobre as dificuldades enfrentadas para conciliar tantas atribuições. “Era uma jornada tripla: a família, que eu tinha que cuidar e tudo, e também as duas profissões que eu amava (...) Eu, que já amava a Medicina, me encontrei também na Política, mas isso não fez com que eu me afastasse da profissão de médica. Quando os meninos eram pequenos, eles até nos acompanhavam nos comícios [aqui Rose se refere a ela e ao marido político]. Naquele tempo, a Política era mais alegre, menos perigosa e menos estressante. Depois foi chegando o momento em que, na Política, os princípios já não valiam tanto. Os valores que valiam eram os econômicos.”, alfineta. 

Distante dos cargos eletivos desde 2002, quando perdeu a reeleição para a Alego, Rose tece muitas críticas ao sistema eleitoral da época. A saída da Política, ela reitera várias vezes, não foi uma escolha. De lá para cá, já se candidatou duas vezes a deputada estadual (2002 e 2010), uma à vice-prefeita de Goiânia, pelo PMN, integrando a chapa do delegado Waldir (2016) e há muito tempo acalenta o sonho de retornar à Câmara Municipal. 

Sincera e sem travas, além de expor feridas do sistema político brasileiro, como a compra de votos e a existência do que chamou de partidos de aluguel, ela elenca alguns dos erros que julga ter cometido no aspecto eleitoral. Sair do PMDB e filiar-se ao PSDB em busca de mais espaço de atuação na chegada à Alego é o que ela considera mais relevante. “Eu tive coragem de romper com o governo para me tornar uma deputada. Porque senão ia ser um jogo do PMDB. Então, eu resolvi cortar as amarras. (...) Eu nunca mais ganhei eleição depois que eu mudei de partido. (...) Fiquei marcada por causa dessa mudança. Hoje, a mudança partidária já não tem essa influência, mas, no meu tempo, isso me atrapalhou demais porque eu fui para um partido que não era minha praia. Eu sentia que era o mesmo tratamento. No fim das contas, era a mesma coisa”, esclarece. 

Fazer as oportunidades

Quando questionada se o preterimento que sentiu no partido decorria do fato de ser mulher, ela nega. “Não é por ser mulher não. É por ser brava”, disse em meio a risos. A palavra brava, que aparece mais de uma vez no relato dela (e de outras deputadas entrevistadas), é um estigma comum às mulheres que alcançam espaço na Política e no mercado de trabalho em geral. Rose atribui à braveza a força necessária para não aguardar as oportunidades, mas conquistá-las com as próprias mãos. “Então, eu subia nos palanques e se o governador ou o prefeito, quem quer que fosse, estivesse falando e eu achasse que não iam me dar a palavra, eu dava um jeito de alcançar o microfone e dar o meu recado. Toda vida eu fui muito atrevida e ousada, e isso era necessário para se alcançar seus objetivos naquele meio. Não sei se era pelo fato de ser mulher, mas eu não fazia parte do batalhão de elite. Eu tive que conquistar, e conquistei, meu espaço”, reflete. 

Seja em cargos eletivos, nas diferentes funções administrativas que assumiu desde 2002, em qualquer das 13 campanhas vitoriosas que ela se orgulha de ter coordenado ou mesmo nas atividades domésticas atuais, Rose Cruvinel esbanja energia. Ela dorme meia noite e acorda entre cinco e seis da manhã; e o relato de seus dias surpreende pela quantidade de atividades, planejamento e pelo dinamismo que apresenta. Responsável pela coordenação da pré-campanha do filho à Prefeitura de Goiânia, Rose também está empolgada com seu projeto de mentoria para ampliar a representação feminina na Política e não descarta a possibilidade de uma nova candidatura sua no futuro.

As páginas que se seguem relatam a vida e trajetória de alguém que se acostumou a fazer acima do esperado e a ocupar, na marra, espaços que não lhes eram dados de bom grado. As falas de Rose Cruvinel são uma aula sobre como resistir e se adaptar, tudo isso com o bom humor e a energia contagiante de quem parece estar permanentemente em campanha política. 

 

Entrevista

A senhora nasceu no Piauí, mas veio cedo para Goiás. Como foi sua infância lá e o que motivou a vinda para cá?

Minha mãe era professora*, meu pai era produtor rural e comerciante. Eu vivi no Piauí até os nove anos de idade. Foi uma vida muito tranquila, muito boa e livre. Naquele tempo, as crianças brincavam muito. Isso é algo que marca muito a gente. Eu morei sempre na cidade, mas tinha uma proximidade grande com o campo. As comunidades todas eram envolvidas pelo campo. Quando vinha uma pessoa de fora, era uma coisa que deixava todo mundo admirado. Eu me lembro bem de uma professora que era contadora de histórias. Quando ela deitava nas calçadas para contar histórias, juntava muita gente ao redor. Era como se fosse a televisão de hoje (risos). Foi uma infância muito tranquila. Até os nove anos eu vivi lá, e então vim para Goiás numa cruzada** (risos).

Isso foi em 1957, mais ou menos, em meio à Marcha para o Oeste. O povo saía muito do Nordeste. Pouca chuva, muita dificuldade. Meu pai, que era comerciante e produtor rural, nessa época, já tinha uma condição financeira boa. Mas, ainda assim, nós viemos para Goiás, porque aqui havia muitas oportunidades. Só que, para chegar aqui, em Goiânia, era uma saga. Antes, meu pai foi de avião para São Paulo e, de lá, veio para Goiânia. No entanto, dessa forma não teria como trazer todos, pois nossa comitiva era de 40 pessoas. Então, não dava para trazer todo mundo de avião. A maioria era da família mesmo, mas também havia pessoas que já trabalhavam com a gente e que quiseram vir para também tentar uma vida melhor por aqui. Então meu pai fez essa comitiva de 40 pessoas e assim nós viemos todos para Goiás.

 

* Ela se chamava Hercília Deusdará Silva, nome que, no futuro, Rose daria à filha do meio. 

** Pela extensa duração da viagem, a entrevistada faz uma analogia com as cruzadas, que foram expedições militares organizadas por católicos da Europa Ocidental. 

*** A Marcha para o Oeste foi um projeto de Getúlio Vargas voltado ao desenvolvimento econômico e populacional das regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil. Oficialmente, o projeto terminou com o Estado Novo (1937-1945). Então, em 1957, quando a família de Rose Cruvinel migrou do Nordeste, a Marcha não estava em vigência. Contudo, a referência feita pela entrevistada foi mantida, a fim de situar o tipo de sentimento que lhe ficou registrado na memória com aquela migração em família. Muitos historiadores e analistas referem-se à construção de Brasília (inaugurada em 1960) como uma nova Marcha para o Oeste, dada a intensa migração de trabalhadores para a região, em sua maioria advindos do Nordeste.

 

Por que a senhora diz que foi uma saga?

O primeiro transporte usado para sair da cidade foi mesmo o pau de arara. Depois nós pegamos o vapor, que era uma embarcação que navegava no rio São Francisco, desde Remanso, na Bahia, até Pirapora, em Minas Gerais**. Nós praticamente atravessamos o estado da Bahia. Passamos pelas grandes cidades como, por exemplo, Petrolina e Juazeiro. Foram 21 dias só nessa embarcação. Então, foi uma coisa fantástica, uma saga mesmo. Nós continuamos o trajeto de Pirapora, em Minas Gerais, de ônibus, até Araguari***. A Araguari, nós chegamos numa Sexta-Feira da Paixão. Não podíamos andar de ônibus****, então meu pai fretou um trem. Vinha um vagão trazer um time de futebol feminino que ia jogar aqui no Estádio Olímpico. Então, meu pai contratou mais um vagão e nós chegamos aqui nessa Estação Ferroviária do final da Avenida Goiás*****. Eu me lembro perfeitamente do dia da nossa chegada. Era como se fosse um mundo novo. 

 

* A expressão “pau de arara” aqui é usada no sentido conotativo. Trata-se de um caminhão com varas e coberto por uma lona, um transporte precário muito usado por migrantes nordestinos.

** O referido trajeto, atualmente, pode ser feito por via terrestre e soma cerca de 1.300 km.

*** Araguari também se situa em Minas Gerais. Atualmente, a distância mínima entre as duas cidades, por via terrestre, é de 458 km. 

****  A tradição católica determina que a sexta-feira que antecede a Páscoa, chamada Sexta-Feira da Paixão, seja um dia de abstinência, inclusive de trabalho. Essa tradição tem sido flexibilizada nos últimos anos, mas, ao fim da década de 1950, época do fato relatado, era muito forte e difundida.

*****  A Estação Ferroviária de Goiânia foi inaugurada em 1950 e teve suas atividades encerradas na década de 1980. Atualmente, ela integra o Acervo Arquitetônico e Urbanístico Art Déco de Goiânia. 

 

Como era sua família?

Meu pai teve dois casamentos. No primeiro, ele teve sete filhos. Depois, mais seis. Eu sou a décima filha de 13. Minha família sempre foi muito organizada, um pessoal de educação rígida, sempre em luta para promover os filhos. Inclusive, essa vinda nossa para cá foi também porque minha mãe queria que todos estudássemos. Antes, os filhos saíam de casa e iam estudar em Salvador ou São Paulo. Nós viemos em busca de estudar aqui. Então, a meta era conseguir formar todos os filhos. E aqui, em Goiás, essa foi uma das coisas que nós conseguimos. Todos os meus irmãos, filhos da minha mãe, têm nível superior completo, e ela ainda conseguiu formar mais três dos enteados. Nós somos 10 irmãos com curso superior completo. A lembrança que tenho é daquele apoio enorme, com muito carinho e muita tranquilidade. 

 

E como foi a vida ao chegar em Goiânia?

A minha infância aqui em Goiânia foi diferente. Nós fomos morar na periferia, entre onde hoje é o Bairro Feliz e a Vila Nova. Nós moramos em vários lugares, mas acabamos nos fixando lá. Construímos uma casa na qual tivemos uma vida muito simples. Acho que essa foi uma das coisas que mais me alavancaram. Meu pai era um comerciante bem sucedido, com um dos maiores comércios de Goiânia. Nesse tempo não existia supermercado e o armazém do meu pai era referência. As pessoas com maior poder aquisitivo na região eram clientes dele. Mesmo assim, nós construímos nossa casa na periferia e aquilo foi uma oportunidade de conviver com as pessoas simples. 

As primeiras amigas que eu tive eram a filha da lavadeira, que morava no fundo, e a filha de um carroceiro e uma costureira, que moravam na frente. Então, essas foram as pessoas que mais me influenciaram naquele tempo. Depois, elas nem conseguiram estudar, mas sempre me incentivaram a prosseguir nos estudos. Eu já tinha aquele espírito de querer ir em frente. Toda a vida eu achei que nasci predestinada a lutar por coisas melhores, para mim e para os outros. Eu tive uma vida, desde criança, dedicada a tentar ajudar as pessoas.

Aos 10 anos, eu aplicava injeção no bairro onde eu morava. Minha mãe me ensinou. Naquele tempo, até farmácia era difícil. Minha mãe era professora, veio do interior e sabia aplicar injeção. Aí, quando machucou a perna e não podia mais andar, ela me ensinou isso e eu passei a saber como aplicar injeção. Certa vez, eu ajudei até uma mulher em trabalho de parto. 

 

A essa altura a senhora já pensava em Política?

Aqui em Goiânia, eu tive um despertar. Na época, eu morava ali na Vila Nova, próximo à 5ª Avenida, e aquilo ali era só poeira, ainda não tinha nada. Então passou um carro de som anunciando que ia ser construída uma rede de esgoto ali, naquele bairro, para que o povo pobre também tivesse acesso às coisas boas. Algo mais ou menos assim. Quem estava fazendo isso era um prefeito chamado Hélio de Brito*. E aí, o locutor dizia: "esse médico, esse político vai mudar a vida do povo". E ali, naquele momento, eu acho que encontrei as duas profissões que queria ter na vida: médica e política. Parece que eu tive, naquele instante, um despertar para essas profissões. Então eu fui caminhando e acabei chegando nas duas. 

Até os 14 anos, eu era criança de jogar bola no meio da rua com os meninos. Fui até jogadora de basquete e também praticava atletismo. Tive verdadeira adoração pelos esportes na minha adolescência. Inclusive, uma das coisas que mais me incomoda, desde a primeira vez que eu fui vereadora, é o fato de as nossas crianças e dos nossos adolescentes não terem espaço adequado, nas escolas, para lazer e nem para esporte. 

Quando eu fui vereadora, consegui, através do Poder Público, construir uma mini quadra de esportes em todos os bairros da minha região**. Eu não entendia como é que as crianças não tinham um espaço para isso. Essas quadras, hoje, já estão bastante acabadas, porque já faz bastante tempo desde que foram criadas, e nunca mais receberam manutenção. Essas coisas me incomodam. Eu tive uma infância livre na minha terra e uma infância aproveitada aqui, em boa parte porque as escolas incentivavam muito a prática de esportes e exercícios físicos em geral. Quando eu tive a oportunidade de chegar no poder, tentei levar esse tipo de oportunidade para muito mais pessoas também. 

Eu jogava bola, soltava pipa, pegava o cavalo do vizinho para dar umas voltas, essas coisas todas, mas tinha sempre aquela noção de que eu tinha que estudar. A escola para mim sempre foi prioridade. Vou contar uma história que eu adoro contar para pessoas que reclamam. Quando eu cheguei aqui, existia uma diferença muito grande na alfabetização e na matemática, em comparação com a minha antiga escola. Ou seja, eu cheguei atrasada em relação aos alunos daqui. Para conseguir o meu intento, eu ficava estudando a noite inteira e colocava os pés dentro de uma bacia de água para não dormir. Isso eu fiz do primário até o vestibular. 

 

* Hélio Seixo de Brito foi deputado estadual pela UDN, de 1951 a 1955, e prefeito de Goiânia de 1961 a 1966. Assim, no episódio relatado, Rose tinha entre 13 e 18 anos. 

** A entrevistada refere-se à região sudeste da capital goiana, onde reside há muitos anos. 

 

A senhora foi instruída a fazer isso ou foi algo da sua cabeça?

Não, eu mesma inventei isso, para não pegar no sono. Quando mexia os pés na água, aí sim dava aquela acordada (risos), tamanha era a minha vontade de chegar aonde eu almejava. No primário, eu cheguei atrasadíssima e terminei essa etapa, na quarta ou quinta série, já como a primeira da classe. Era aquele esforço sobrenatural. Eu era aluna de escola pública e estudei na Faculdade de Medicina. Passei no vestibular da Universidade Federal de Goiás. Era aquela vontade, aquela vontade que leva a gente a qualquer lugar que a gente queira, sabe?

 

Esse seria um grande feito ainda hoje, em 2020. Como era na época? Quão distante estava da sua realidade o sonho de cursar Medicina e exercer a profissão?

Na Faculdade de Medicina havia só sobrenomes ilustres, que geralmente eram os filhos dos ricos, dos donos de hospitais. Uma menina da periferia entrar na faculdade de medicina naquele tempo era um feito, realmente. Muitos colegas tiveram essa mesma garra. Era uma dedicação, era deixar praticamente tudo e estudar para chegar àquele objetivo. 

  

E o que veio antes, a sua formação como médica ou o casamento e os filhos?

Eu me formei primeiro. Quando conheci meu marido, eu já estava na faculdade. Nós namoramos muitos anos, até que eu me formasse e terminasse a residência médica. Foi aí que veio o casamento*. Eu tive o meu primeiro filho aos 31 anos [Virmondes], a segunda com 32 [Hercília] e o último com 33 [Victor], um por ano. Eles praticamente foram criados como trigêmeos: tudo de um servia para o outro, um ajudava o outro, e são assim até hoje. 

Além do Virmondes, da Hercília e do Victor, eu criei mais um filho, um filho do coração. Era um afilhado que estava em situação de vulnerabilidade. Eu o trouxe e criei junto aos meus filhos, dando a ele o mesmo afeto e as mesmas condições que dei aos outros. Ele é quatro anos mais velho que o Virmondes. Quando veio morar comigo, ele já tinha 11 para 12 anos e morou até os 27, quando se casou. O Ailton [nome do afilhado] é administrador de empresas, contra a minha vontade, porque eu queria que ele fosse advogado. Recentemente, depois de adulto, depois que passou pelas experiências da vida, ele voltou para a faculdade, formou em Direito e me chamou para a entrega da inscrição na Ordem**. Ele disse [na ocasião]: “a senhora sonhava tanto que eu fosse advogado. Então, agora também sou advogado”. 

 

* Rose se casou com Virmondes Borges Cruvinel. Nascido em Hidrolândia (GO), ele foi odontólogo e político, tendo exercido mandato de deputado estadual por Goiás (1987 a 1991) e de deputado federal por duas ocasiões (1991 a 1995 e 1995 a 1999), sempre pelo PMDB. Também ocupou diversos cargos como secretário de Governo.  

** Para o exercício profissional da advocacia no país, é preciso ser inscrito na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o que se dá após aprovação em uma prova com duas fases. 

 

Em algum momento a senhora se viu na necessidade de escolher entre a sua profissão e a construção da sua família? Como foi conciliar essas duas esferas da sua vida?

Eu trabalhei como estagiária nos melhores hospitais da cidade. Quando me formei, estava em plena ascensão profissional. Resolvi então abrir um consultório particular. Todo médico, além das atividades nos hospitais públicos e particulares, tinha também seu próprio consultório. Conseguindo abrir o consultório, comecei a atender. Aí, um dia, a babá precisou ir ao médico e eu fiquei com a minha filha, que, na época, tinha quatro meses. Ela chorou umas quatro ou cinco horas sem parar, e eu não sabia o que fazer. Quando a babá chegou, ela imediatamente parou de chorar. Eu decidi então fechar o consultório. Fechei, tirei as coisas, desmarquei tudo e fui cuidar da minha filha, e não me arrependo. Hoje ela, doutora Hercília, é uma médica maravilhosa e que já está aí fazendo sucesso.

 

 A senhora é mãe de dois homens e de uma mulher. Acredita que a criação deles refletiu a sua vontade de uma sociedade com mais espaços para as mulheres?

 Creio que sim, vou te dar um exemplo. Eu comprei um triciclo elétrico e os meninos logo aprenderam a andar, mas minha filha não queria usar, porque achava que mulher não podia. Eu a coloquei quase na marra para aprender a andar no triciclo, porque eu achava que ela não poderia ficar para trás. Eu dizia: “se você não dirigir o triciclo hoje, amanhã você não dirige um carro, e, com o passar do tempo, vai achar que há outras coisas que também não pode fazer”. Existia sim, nesse tempo, aquela cultura de permitir para o homem e proibir para a mulher, mas eu sempre procurei criá-los com igualdade. Nunca privilegiei os filhos homens em detrimento dela. Sempre dei a todos eles o mesmo tratamento e oportunidades. 

 

Parece haver nas mulheres profissionais uma culpa muito grande por, às vezes, precisarem abrir mão de momentos com a família. A senhora acha que existe, nesse sentido, uma pressão maior sobre a mulher? E na sua vida, o que isso significou ao longo da carreira?

Eu acredito que a minha família não atrapalhou em nada essa decisão, que tomei quando a Hercília era ainda muito pequena. Eu tomei, por conta própria, a decisão de que estar um pouco mais em casa era a minha prioridade naquele momento.  Tanto eu quanto meu marido sempre fomos pais muito presentes, mas eu tinha minha profissão de médica, que era exaustivamente exercida. Assim, quando eu abracei a Política, fiquei ainda muito tempo a conciliando com a Medicina. Era uma jornada tripla: a família, que eu tinha que cuidar e tudo, e também as duas profissões que eu amava. 

Eu, que já amava a Medicina, me encontrei também na Política, mas isso não fez com que eu me afastasse da profissão de médica. Quando os meninos eram pequenos, eles até nos acompanhavam nos comícios [aqui Rose se refere a ela e ao marido político]. Naquele tempo, a Política era mais alegre, menos perigosa e menos estressante. Depois foi chegando o momento em que, na Política, os princípios já não valiam tanto. Os valores que valiam eram os econômicos. 

A Política se tornou ruim. Começou a aparecer tanta coisa... mas eu fui política em uma época muito boa! As pessoas tinham respeito, porque as pessoas viam você como um representante delas mesmo. Muitas vezes eu estava ali no Palácio do Governo* e pensava: “gente, eu, que vim lá da periferia, que convivi com o povo, estou aqui exatamente dizendo o que do povo precisa. Porque eu sei, eu vivi essa realidade”. Então, foi muito bom. São experiências que eu viveria novamente. Eu não desisti da Política, a Política que desistiu de mim. Eu continuo firme e forte aqui, na Política (risos). 

 

* O Palácio Pedro Ludovico Teixeira é o Centro Administrativo do Governo de Goiás.  

 

A senhora já se sentiu, de alguma forma, discriminada, na Política, por ser mulher?

Eu fui criada no mundo dos homens. Trabalhava como médica em um hospital com 11 médicos e só eu de mulher no plantão. Tinha até que dormir com eles no mesmo quarto, porque não tinha nada específico para as mulheres. Então, quando vim para a Política, eu já cheguei calejada e já sabia me defender muito bem. 

Eu não sinto que o fato de ser mulher tenha me atrapalhado em coisa alguma. Em alguns casos até me ajudou, talvez por aquele certo espírito de mãe, de mulher, porque eu tinha mais facilidade em representar as pessoas. Por outro lado, o que me atrapalhou foi o poder econômico e a mudança da mentalidade das pessoas. A compra de votos foi que me tirou da Política, não o fato de ser mulher. Até hoje eu me sinto respeitada. Não sinto também que o fato de ser mulher tenha me atrapalhado, nem na Medicina e nem na Política. Na Câmara, houve um tempo em que precisei ser muito exigente. Por ser a única mulher, em meio a nove homens, eu defendia que a quantidade de tempo deles todos fosse igual ao meu. Eu já brigava pelos 50% (risos).

 

E a senhora sentia falta de parcerias femininas, de mais mulheres na Política naquele momento?

Eu tive colegas fortíssimas na Política. Eram poucas, mas fortes. Fui colega, por exemplo, da Marina Sant’Anna*, da Denise Carvalho** e da Onaide Santillo***. Mulheres que realmente tinham muita vontade de luta. Éramos poucas, mas bem representativas. Eu fui três vezes eleita na Câmara, e uma na Assembleia. O fato de você ser eleita quatro vezes te dá uma sensação de que realmente as pessoas estão aprovando o que você está fazendo****. Isso no tempo em que a eleição não se dava em função do poder econômico, mas sim pela qualidade do trabalho [do candidato/a], por sua experiência pessoal. 

 

Marina Pignataro Sant’Anna, do PT, foi vereadora por Goiânia na 11ª e 12ª Legislaturas da Câmara Municipal e suplente de deputada federal de 2011 a 2015, tendo assumido o cargo em diversas ocasiões. 

** Quinta entrevistada da série Mulheres no Legislativo da Alego, Denise Aparecida Carvalho, do PC do B, foi vereadora por Goiânia (1988 a 1992) e deputada estadual na 12ª, 13ª e 14ª Legislaturas, além de Secretária de Ciência e Tecnologia no governo Marconi Perillo.

*** Onaide Silva Santillo foi deputada estadual pelo PP na 13ª Legislatura e pelo PMDB na 14ª e 15ª, além de primeira-dama de Anápolis e secretária de Serviços Sociais do referido município.

**** Rose Cruvinel foi eleita vereadora em 1987, 1992 e 1996. Ela renunciou em 1999 para assumir como deputada estadual na Alego. 

 

Como foi o seu ingresso na Política? Foi só quando a senhora decidiu ser candidata ou antes?

Eu digo que eu já coordenei 13 campanhas vitoriosas [ela detalha mais para o final da entrevista]. Quando meu marido foi candidato*, eu era coordenadora da campanha dele, mesmo com pouco conhecimento. Hoje, eu tenho uma coleção de livros de Marketing Político e sobre eleições que talvez poucos marqueteiros por aí tenham. Desde meu ingresso na Política, eu descobri que, além da Medicina e da Política, essa era minha terceira paixão profissional. 

Olha que coisa incrível. Há mais ou menos uns sete anos, eu comecei a estudar o Marketing Político Digital. Então, quando hoje eu vejo todos tendo que recorrer ao mundo digital, percebo como isso me fez bem. Veja bem, eu, com 72 anos, aqui no Meeting... Poucas pessoas têm essa facilidade com redes sociais e recursos tecnológicos. Eu já vinha me preparando, parece que eu já tinha um pressentimento de que isso ia ser necessário. Desde a eleição passada, eu já vinha estudando e, agora, eu estava inclusive matriculada em um curso em São Paulo, que tinha aulas por vídeo e algumas aulas presenciais. 

 

Virmondes Borges Cruvinel foi candidato a deputado estadual por Goiás em 1986. 

** Por causa da pandemia de covid-19, que inviabilizou o contato pessoal, a entrevista foi feita pelo Meeting, uma plataforma gratuita de videoconferências, no dia 12 de agosto de 2020. 

 

 Quando surgiu, na senhora, esse desejo de se candidatar?

Eu me candidatei pela primeira vez em 1987. Meu marido não queria que eu entrasse para a Política. Mesmo antes dele se candidatar, eu participava ajudando as pessoas. A gente já era do PMDB [Rose e o marido] e já tínhamos participado de campanha do Íris* e do Lázaro Barbosa, quando este foi candidato a senador**. Depois meu marido também se candidatou, mas ele nunca imaginou que eu iria entrar para a Política [a primeira candidatura de Rose à Câmara Municipal de Goiânia se deu no ano em que seu esposo entrou para a Alego]. 

Eu já era líder sindical e gostava disso. Participei do Sindicato dos Médicos e fui presidente da Sociedade Goiana de Pediatria, uma das primeiras. Eu era mais dessa área de militância dos segmentos, dos sindicatos e nunca havia pensado em ser candidata. Até então, achava que bastava o fato do meu marido ser político, que isso já me representava o suficiente, mas quando eu comecei a conviver, como médica, com a realidade da população, eu senti que eu teria que participar mais ativamente a fim de proporcionar as mudanças que eu queria ver acontecer na vida daquele povo.. 

Como pediatra, eu via coisas terríveis que aconteciam com as crianças, as dificuldades que elas passavam. Eu não entendia que era a Política que resolvia isso, achava que era a Medicina. Eu já era especializada como pediatra e, 10 anos depois de formada, voltei à Faculdade para me especializar como sanitarista, porque eu compreendia que médico tinha muito poder. O que eu descobri foi que médico não resolvia nada, quem resolvia eram os políticos. Depois de ter esse entendimento, por já estar trabalhando de frente com o povo, eu concluí que tinha que também representar [politicamente] aquele povo. Embora meu marido fosse um bom político, eu vi que meu estilo era aquele das bases. Um estilo que, naquele tempo, o povo achava até que era [típico de] petista, pois trabalhava muito com a mobilização das bases, mas não, não era petista. 

E o que me levou à Política foi justo essa força mesmo, vinda das dificuldades que eu vivenciava e que descobri, depois de frequentar vários cursos, que só a Política resolveria. Aí me candidatei muitas vezes e, depois que terminei os mandatos, sabendo que seria difícil me reeleger, 10 anos depois, eu voltei outra vez para a Universidade e me especializei em Políticas Públicas. Como eu já tinha o conhecimento [prático] da Política, com essa nova formação, eu poderia trabalhar administrativamente, exercendo aquilo com mais propriedade. Eu conheci os dois lados da moeda. Foi uma experiência muito boa. 

 

*  Íris Rezende Machado integra a Política goiana desde 1958. Foi vereador por Goiânia (1959 a 1962), deputado estadual eleito em 1962 e prefeito de Goiânia em 1965, antes de ter os direitos políticos cassados pela Ditadura Militar brasileira (1964-1984). Teve os direitos restabelecidos em 1979 e foi eleito governador do Estado pela primeira vez em 1982. De 1986 a 1990 foi ministro da Agricultura do governo Sarney. Venceu pela segunda vez as eleições ao governo do estado em 1990. Em 1994 elegeu-se senador e teve uma passagem como ministro da Justiça, deixando o cargo em 1998, quando candidatou-se novamente ao governo do estado. Derrotado por Marconi Perillo, voltou a exercer o mandato no Senado até 2003. Após perder a reeleição para senador, elegeu-se prefeito de Goiânia em 2004, 2008 (quando renunciou para ser, pela quarta vez, candidato ao governo) e 2016. Em 2020, anunciou sua aposentadoria da vida pública. Em sua fala, Rosa faz alusão à primeira campanha de Íris ao governo do Estado, em 1982.

**  Lázaro Ferreira Barbosa foi um advogado e político goiano, filiado ao PMDB. Nesta última condição, foi senador (1975-1983) e deputado federal (1991 a 1995). 

 

Como foi para o partido receber a sua primeira candidatura, em 1987?

A luta política, naquela época, era de quem avançava no microfone para falar. Então, eu subia nos palanques e se o governador ou o prefeito, quem quer que fosse, estivesse falando e eu achasse que não iam me dar a palavra, eu dava um jeito de alcançar o microfone e dar o meu recado. Toda vida eu fui muito atrevida e ousada, e isso era necessário para se alcançar seus objetivos naquele meio. Por vezes eu tinha até que mostrar aquela face meio doida. (risos) Porque não cediam, e, se não lutássemos, seríamos sempre as últimas. Não sei se era pelo fato de ser mulher, mas eu não fazia parte do batalhão de elite. Eu tive que conquistar, e conquistei, meu espaço. 

 

Como foram para a senhora essas transições entre ajudar na campanha dos outros e fazer a sua própria e entre as funções sindicais e a candidatura partidária?

A minha experiência como sindicalista eu acabei não usando na Política. Talvez seja até um dos erros que eu cometi: o de não envolver meu segmento, a classe médica. Nessa época, os sindicatos eram muito ligados ao PT. Então, se não estivesse no PT, não estava com nada. Em razão disso, eu preferi me omitir. Fiz as minhas eleições todas voltadas para o apoio popular, quase que no corpo a corpo. Eu tinha, e ainda tenho, uma energia política enorme. Sempre fiz minhas campanhas no corpo a corpo, visitando os bairros, conhecendo as pessoas e vendo as necessidades que elas tinham.  Uma vez eleita, continuava lutando para resolver aqueles problemas.

O pessoal perguntava quais eram os meus projetos. Então, eu dizia: “olha, vereador não tem que fazer plano de governo. A função do vereador é fiscalizar o prefeito, fiscalizar as obras, fiscalizar a cidade. É quase um poder fiscal, mas eu também vou exercer o papel de ver o que vocês precisam e ir atrás para ver o que conseguimos.” O meu projeto político sempre foi o projeto daquela população em que eu estivesse atuando. Se eu estava atuando em um bairro que precisava de esgoto, minha prioridade era o esgoto; em outro era o telefone, que naquele tempo não tinha; no outro era a rede de água; no outro, o asfalto. Escola, creche, área de esporte... Eu sempre lutei por estrutura. Goiânia não tinha estrutura. 

Hoje, nós estamos muito bem estruturados. Ainda falta muita coisa, mas muito mais de gestão do que de estrutura. No meu tempo não tinha nada. Os bairros não tinham esgoto, não tinham asfalto, o povo não tinha emprego, as crianças passavam fome, eram desnutridas e sofridas demais. Hoje o povo sofre, mas naquele tempo sofria muito mais, muito mais mesmo. Hoje as pessoas que sofrem mais são aquelas que estão no desemprego ou nas drogas, as famílias desestruturadas. O sofrimento das crianças hoje talvez seja mais um problema de desestruturação das famílias e dos governos, que muitas vezes não priorizam os cidadãos. 

 

A que a senhora atribui essa energia particular de fazer os espaços, de não esperar as oportunidades, mas ir atrás delas, de não se deixar abalar pelas dificuldades que encontrou?

Isso é familiar. Eu tive uma mãe e uma avó guerreiras. Minha vó saiu do Piauí e foi para Minas Gerais. Minha mãe veio para Goiás carregando toda essa família que eu falei. Eu tinha esse matriarcado já como uma herança. Cresci cercada por mulheres batalhadoras, lutadoras e com uma visão muito ampla. A minha avó não tinha muita escolaridade, mas era uma filósofa, e minha mãe era uma estudiosa, uma pessoa extraordinária. O que faz a gente ter essa garra é a força familiar. 

Eu tenho estudado muito, e, nessa pandemia, assumi também o trabalho doméstico. Na pandemia toda, minha faxineira não veio aqui nenhuma vez. Só o meu jardineiro que veio apenas duas e eu continuo o remunerando normalmente. Eu assumi o trabalho doméstico, mas achei pouco. Montei uma área de compostagem, porque aqui é difícil a gente arrumar boa terra para plantar. Não tenho nem como comprar, porque eu não saio*. E eu tenho uma horta caseira, com aqueles pés de tomate, e um pomar, com acerola e tudo. Ah, e meus netos me chamam de vovó MacGyver**, pois estou sempre inventando uma pecinha para colocar em uma coisa que quebrou. Estou sempre com aquele espírito criativo, fazendo alguma coisa. E eu ainda assisto novela, de vez em quando. Novela, Netflix... Sou a rainha do Netflix (risos). Das cinco ou seis da manhã até às duas da tarde, eu cuido dos afazeres domésticos. Das duas em diante, até meia noite, eu cuido da Política. As minhas tardes estão todas dedicadas à Política. Eu dividi assim meus dias, para ter tempo.

 

* As diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS) para contenção da pandemia de covid-19 incluem distanciamento social, principalmente para integrantes dos grupos de risco, dentre os quais estão incluídos os idosos. 

**  Alusão a uma série de TV Americana, veiculada no Brasil nas décadas de 1980 e 1990. O personagem principal, MacGyver, ficou conhecido por produzir engenhocas com poucos materiais e conseguir solucionar grandes problemas. 

 

O que a senhora tem feito, em relação à Política, especificamente?

Eu estou incentivando as mulheres do partido do meu filho que são pré-candidatas. Todo dia eu recebo uma por chamada de vídeo para batermos papo. E assim, eu vou orientando o que elas precisam fazer. Eu faço uma entrevista com elas para entender como posso ajudar cada uma. Estou fazendo esse papel de ensinar sobre o que fazer na pré-campanha, que é, principalmente, criar a reputação e organizar suas redes de contato. É um momento de definir as bandeiras de luta, os espaços de atuação e de influência. Ah, e não só as mulheres. Depois que os homens descobriram que eles também poderiam aprender alguma coisa, estão todos agendando para vir também (risos). 

Nós também estamos fazendo lives com a equipe técnica para planejamento do governo [do filho candidato]. E eu que sou a cabeça, a coordenadora. Nós temos 10 segmentos temáticos, como, por exemplo, Saúde, Educação, Cultura e etc. São 10 grupos temáticos que, em torno dos quais, nós nos reunimos e discutimos os problemas de Goiânia. Nós fazemos isso [primeiramente] com os técnicos e depois com a população. Começamos aqui pela região Sudeste, que foi onde o Virmondes nasceu. 

Nós dividimos os bairros. Por exemplo: se hojeficou combinado de ser no Parque Atheneu e no Mariliza, então a gente comunica para o máximo de pessoas [de lá] para que possam participar das discussões. Está sendo uma experiência incrível, de tão boa. As pessoas acessam [as lives] e contam o que acontece no bairro. É muito interessante. 

Fora isso, ainda tem as reuniões dos pré-candidatos a vereadores nos bairros deles, que a gente assiste para poder orientar a equipe deles a como trabalhar na campanha digital. Dessa vez mudou, vai tudo ser digital. Quem não domina o digital, vai ter dificuldade. Ontem eu estava assistindo uma live do professor Marcelo Vitorino*, que é um marqueteiro digital muito famoso. Na hora que ele viu meu nome lá, ele disse: “Rose Cruvinel de Goiás, uma mulher que estuda todo dia de manhã”. E contou minha história resumidamente na live dele (risos). Ele foi meu professor na escola de Marketing lá em São Paulo.  Estou muito ligada a esses estudos.

 

Professor e consultor de Marketing digital e gestão. 

 

Na seara atual do Marketing Político, impacta muito o uso das Fake News nas eleições. Qual a sua percepção desse cenário?

A legislação está tentando avançar. Isso é importante, mas os candidatos não podem esperar as mudanças, porque o impacto é imediato. Nós temos um grupo preparado para enfrentar essas guerrilhas, para monitorar as redes, acompanhar o que sai, fazer a primeira defesa e acionar a equipe que auxilia nisso. Campanha majoritária, você tem que estar preparado para esses enfrentamentos. Com conhecimento das ferramentas digitais, a gente tem se preparado para detectar e contrapor essas investidas. Quem não souber se projetar e se defender no digital, já não sabe fazer campanha política. 

 

Como a senhora analisa a evolução da legislação eleitoral no sentido de tentar equilibrar a quantidade de mulheres na Política?

Existe essa exigência dos 30% para se candidatar, mas eu acho que o caminho não é esse. O próprio TRE* deveria dar cursos para incentivar a vinda das mulheres para a Política, abrir matrículas para as universitárias, para as líderes comunitárias, para que elas pudessem participar de uma formação política só para mulheres. Além disso, ainda há a questão dos recursos! As mulheres têm muito medo de entrar na campanha porque não têm recursos. Elas não entendem que, às vezes, não é só isso. Mas, como os homens já botaram na cabeça delas que quem não tem recursos não pode entrar, elas ficam com esse receio de se complicar financeiramente por causa das campanhas. 

Essa questão de cotas acaba muitas vezes inviabilizando os partidos. Porque o partido que não consegue a quantidade de mulheres, também não pode lançar homens e, muitas vezes, não consegue eleger um representante. Esse negócio de obrigar os 30% não é o caminho, pois termina ocasionando as candidaturas laranja para possibilitar uma chapa completa. Então, eu acho que ainda não é por aí.  Tinha era que motivar as mulheres. 

 

*  Tribunal Regional Eleitoral.

 

O que mais afasta as mulheres das candidaturas?

Há uns 20 anos atrás, eu fui a um congresso de juízes eleitorais lá em Curitiba. Os juízes apresentaram uma pesquisa que dizia que as mulheres não participavam da Política porque achavam que não era uma atividade lícita. Isso foi há 20 anos, mas até hoje as mulheres participam pouco. Cada vez que as mulheres ouvem falar em Mensalão*, em Lava Jato**, e acabam ficando com muito medo. Isso tem afastado muito as mulheres da Política. Além disso, há a barreira econômica, a barreira cultural e depois, principalmente, o pensamento das mulheres que é: “eu vou largar minhas coisas, minha família, para entrar em uma coisa que não é lícita, em que as pessoas não agem corretamente?”.

Se você observar a história da Assembleia Legislativa de Goiás, você vai ver que as mulheres que foram deputadas, ou elas vinham de partidos políticos fortes, tanto de direita quanto de esquerda, ou elas tinham familiares muito próximos envolvidos na Política. Dificilmente chegou aqui uma que não tivesse essas características. Por quê? Porque elas temem a Política, embora já estejam sendo muito bem sucedidas nos concursos públicos, nas profissões. A mulher sabe que se ela estudar, ela passa para juíza, promotora, procuradora, delegada, o que ela quiser, mas para ser política, depende do voto popular, de uma opinião. Eu sinto que as mulheres ainda se sentem diminuídas, e pensam: “ah, não vou participar da Política,  pois é algo que não vai me levar a lugar algum”. 

O homem é mais aventureiro e tende a pensar: “eu entro, se não der certo eu saio”. As mulheres parecem ter a necessidade de tomar decisões mais seguras, porque, em geral, encaram com mais seriedade aquilo que fazem. Não estou, com isso, querendo falar mal dos homens, mas só dizendo que é assim que entendo essa questão toda hoje." 

 

* Escândalo de compra de votos do Congresso Nacional pelo Poder Executivo, deflagrado em 2005, durante o primeiro mandato do então presidente Lula. O então deputado federal Roberto Jefferson denunciou o esquema no qual os parlamentares recebiam uma quantia mensal para votarem favoravelmente às propostas do governo. 

** Operação de combate à corrupção iniciada pela Justiça Federal em 2014. Com desdobramentos, compreende diversas frentes de atuação, como, por exemplo, desvios em contratos com a Petrobrás, contratos irregulares com governos dos estados e desvios de recursos públicos na ordem de bilhões de reais. A Lava-Jato divide opiniões no Direito em função de sua possível parcialidade e influência nos processos eleitorais de 2014 a 2020. 

 

A senhora teve muito êxito eleitoral, com quatro vitórias seguidas nas eleições. Quais foram suas principais bandeiras e os projetos legislativos dos quais a senhora se orgulha nessa trajetória?

 Do que eu mais me orgulho mesmo é de saber que eu pude mudar a vida de muitas comunidades. Não é nem projeto. Porque o projeto de lei que gera despesa não é de iniciativa de deputado nem de vereador*. Então, termina que a gente acaba não fazendo, por essa via, tanta diferença. Aqui [em Goiânia], por exemplo, no terreno onde hoje tem o Parque Areião, havia antes uma invasão, que foi feita primeiramente por chacareiros e depois pela Polícia Militar. Eu tomei essa causa a ferro e fogo, lutando para não permitir as invasões e para que lá fosse transformado em um parque para a sociedade. Outro exemplo foi o estacionamento reservado para idosos nos supermercados, no comércio [em geral]**. Essa foi uma luta minha na época em que eu estava na atividade legislativa, mas assim... meu forte não foram os projetos de lei, mas a realização de representar as pessoas e conseguir levar os benefícios para os bairros. 

Olha o exemplo daquele Jardim Curitiba***. O governo fez um assentamento lá de milhares de pessoas. Só que não tinha rede de energia, não tinha água, não tinha esgoto. Então, as pessoas ficaram jogadas lá debaixo daquelas lonas. O governo deu os tijolos, mas as pessoas, muitas vezes, até vendiam para comprar comida. Foi um sofrimento. Eu vivi muito aquilo ali, porque foi bem na época em que entrei para a Política. E eu me colocava como uma representante mesmo, uma pessoa que está ali por eles, uma voz que fala por eles. Eu fiquei uma semana acampada na porta do Palácio [das Esmeraldas] e meu marido era, na ocasião, secretário de governo, no governo Santillo****. Eu acampava com as pessoas para que elas fossem recebidas com dignidade. E o Santillo recebia essas camadas populares. 

 

O professor Nion***** gostava de falar assim para a gente: “quando você vai fazer uma praça, você observe os trieiros onde as pessoas andam, para construir as passarelas, porque se você construir observando só a forma bonita como o arquiteto faz, as pessoas vão andar na grama”. Eu sempre construí a minha política tendo como base aquilo que o povo queria. Eu sempre carrego comigo essa imagem do trieiro, para nunca me esquecer de focar no que as realmente pessoas querem. 

Quem vem das camadas mais intelectualizadas e os que não tiveram uma convivência com o povo lá na base, essas pessoas que moraram sempre nos bairros nobres, estudaram sempre nos melhores colégios, frequentaram os clubes, tiveram uma vida elitizada, quando elas chegam na Política, não conhecem as necessidades do povo. Então, muitas vezes elas pensam: “vou fazer isso e vai ser muito bom”. Só que geralmente não é, justamente porque, muitas vezes, as pessoas querem coisas muito mais simples. Hoje, eu acho que o maior anseio da nossa juventude e até das nossas crianças, por exemplo, é ter uma internet grátis. Todas as esferas de governo, federal, estadual e municipal, estão omissas nesta área. Por que nós estamos tendo todo esse acesso à internet, enquanto muitas pessoas não têm? O povo quer comida também, mas não só de pão vive o homem. 

 

*  Projetos do Poder Legislativo que imponham despesas ao Poder Executivo são considerados inconstitucionais por conterem vício de iniciativa. Tais matérias geralmente são reprovadas nas Comissões de Constituição e Justiça das Casas Legislativas ou, na falta disso, vetadas pelo Poder Executivo, quer municipal, estadual ou federal. 

** Em seu mandato como deputada estadual, Rose Cruvinel apresentou 20 proposituras. Uma delas foi o projeto 1459/01 que garantiu aos idosos a reserva de vagas em estacionamentos comerciais. 

*** Bairro da Região Noroeste de Goiânia.

**** O paulista Henrique Antônio Santillo (1937 – 2002) foi governador de Goiás de 1987 a 1991 e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE – GO) entre 1999 e 2002.  Em Anápolis havia sido vereador (1965 – 1969) e prefeito (1969 – 1972). Também foi deputado estadual (1975 – 1979), senador por Goiás (1979 – 1987), ministro da Saúde ( 1993 – 1995) e secretário estadual de Saúde (1999). 

***** Nion Albernaz (1930 – 2017) foi um professor e político goiano, formado em Economia e em Engenharia Civil. Exerceu diversos cargos administrativos e eletivos. Foi eleito vereador por Goiânia em 1956, nomeado prefeito de Goiânia em 1983, eleito deputado federal em 1986, prefeito em 1988 e em 1996. 

 

O que mais falta ao povo, em sua opinião?

Hoje as pessoas têm que entender que a cidade está na palma da mão e que praticamente tudo tende a ser resolvido pelo celular, pelo computador e pela internet. A pandemia acelerou essa tendência. Antes, sempre que eu visitava outras capitais do Brasil, percebia o quanto Goiânia ainda era uma cidade tímida, interiorana. Não tinha um viaduto, não tinha acesso. Então, hoje, o prefeito está aí, construindo esses acessos* e eu acho isso uma coisa boa, só que não é só isso que nós queremos. Até porque essas coisinhas que estão sendo construídas aqui já foram construídas há muito tempo nas outras capitais. 

Goiânia agora que vai ter o primeiro BRT**. A cidade está nesse transtorno todo para ter um BRT. Se você observar a história do transporte coletivo em Goiânia, você vai ver que, em 1960, ia ser construído o primeiro metrô em Goiânia. Eu vi até os desenhos dos modelos das locomotivas lá na prefeitura. Eu fiz uma monografia sobre esse assunto. Passaram-se 40 anos e o transporte coletivo de Goiânia está do mesmo jeito de quando eu fui vereadora pela primeira vez. Não mudou nada. Tem coisas que a população quer e que o Poder Público não entendeu ainda. 

 

* Em 2020, o prefeito de Goiânia é Íris Rezende (MDB)

** BRT é uma sigla em inglês que significa Bus Rapid Transit. É um sistema de transporte coletivo sobre pneus que opera em corredores exclusivos, atinge altas velocidades e reduz significativamente a emissão de gás carbônico. 

 

Da sua trajetória no Legislativo, restou algum remorso de coisas pelas quais a senhora sente que deveria ter lutado mais e não o fez, quer por alguma fragilidade própria, quer por questão política ou partidária?

Eu fui uma vereadora realizadíssima. As minhas batalhas foram quase todas vitoriosas. Eu cheguei a ir falar com o presidente Collor, certa vez*, quando ele começou a construir as escolas de tempo integral, que, na época, foram chamados de os Caics**. Quando saiu a lista e eu vi que não tinha nenhum programado para Goiânia, marquei uma audiência e fui bater lá na presidência da república (risos). Ao me encontrar como  presidente, ele me falou: “arrume os locais, que nós vamos construir duas unidades em Goiânia”. Nós conseguimos um terreno no Jardim Curitiba e outro no Parque das Laranjeiras. Eram terrenos grandes, e as obras foram feitas. Eu não tinha barreiras.

Uma das coisas pelas quais eu trabalhei muito foi pela legalização fundiária. Porque Goiânia cresceu assim: fazia-se um bairro nobre e a população mais pobre invadia alguma área próxima, que era uma maneira de ficar perto do trabalho, uma vez que servia como mão de obra para esses bairros, atuando como empregadas domésticas, pedreiros, carpinteiros etc. Além disso, essas pessoas sabiam que nesses bairros haveria mais serviços públicos, como escola e posto de saúde. Como exemplo, podemos citar as invasões do Setor Sul, do Parque das Laranjeiras e de todos os bairros nobres. 

Eu sempre trabalhei para que essas pessoas não fossem retiradas daqueles locais. Até porque, normalmente, quando isso acontecia, elas já estavam vivendoali, muitas das vezes, há 20 anos, já com seus filhos e com a vida toda estruturada na região. Aí, de repente, o Poder Público vinha e jogava essas pessoas para outros locais, distantes mais de 30 quilômetros, nas periferias, e as obrigava a viver com todo tipo de deficiências [falta de infraestruturas básicas]. Então, por meio de minha luta, eu acabei conseguindo garantir a legalização fundiária de pequenas comunidades no Setor Pedro Ludovico, por exemplo. Nós fizemos uma espécie de reforma urbana e assentamos as pessoas que ali moravam, entregando-lhes as escrituras das propriedades. Houve muita coisa interessante, nessa época. Ali no setor Pedro Ludovico tinha um campo de futebol em que, ao redor, havia uma invasão. Depois de muita luta***, eu consegui fazer com que o campo fosse desmanchado e reconstruído num lugar mais distante e assentei o povo. Aí eu fiz outro campo, mais distante, e lembro de ter dito, na época: “jogador pode andar, mas o povo vai ficar aqui.”

Eu trabalhei muito em prol dessa causa da legalização fundiária. Era um trabalho com várias etapas, que iam desde a escritura que a pessoa recebia até a chegada da infraestrutura na região. Creche, escola, asfalto... A minha defesa sempre foi a de que aquela comunidade tinha que receber a presença do Estado e gozar de uma vida digna. Eu trabalhava para isso, o que me dava muita satisfação. A Política não me traz nenhum arrependimento. Trouxe agruras, falta de dinheiro, mas não me arrependo nem um minuto, porque eu ajudei a mudar a vida de muita gente. Lógico que não fui só eu. Eu fui apenas um instrumento do povo. E hoje, eu sinto justamente essa falta: de políticos que sejam instrumentos capazes de resolver os problemas do povo; e de dar aquilo que a população realmente está querendo, não daquilo que a gente pensa [que ela deve querer]. 

 

*  Fernando Collor de Mello foi eleito presidente em 1989 e sofreu impeachment em 1992. Antes havia sido governador de Alagoas (1987 – 1989) e prefeito de Maceió (1979 – 1983). Em 2007, após recuperar seus direitos políticos, foi eleito senador por Alagoas, cargo que exerce até os dias atuais. 

**  Os Centros de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente (Caics). Um programa educacional do governo federal, voltado a oferecer, aos estudantes de escolas públicas, uma educação complementar com arte, cultura e esporte. 

*** Nessa ocasião, Rose Cruvinel rivalizou com o então deputado Manoel de Oliveira (PSDB), que se manifestou contra a mudança do campo. 

 

Falando mais especificamente sobre sua trajetória, o que motivou a sua saída do PMDB para o PSDB? 

Na eleição de 1998, eu trabalhei com afinco no PMDB junto ao meu marido. Ele, até ali, fazia parte do governo, como secretário. Mas eu, que havia sido, eleita deputada na oposição, sentia que o partido não estava me valorizando. Eu, que tinha feito até então, parte de uma estrutura muito grande de governo, mas que fiquei sozinha. Eu cheguei na Assembleia achando que eu poderia participar da Mesa Diretora, por exemplo, mas eles me podaram. 

Já tinham feito uma chapa, que ia eleger o presidente, inclusive, e eu não fazia parte desse escalão. Eu percebi que havia ganhado a eleição para a Alego pelo meu trabalho e acho que até eles mesmos acabaram levando um susto quando isso aconteceu. Em razão disso foi que eu tive coragem de romper com o governo para me tornar uma deputada. Porque, senão, eu ia ser só um jogo do PMDB. Então, eu resolvi cortar as amarras. Cortei as amarras, apoiei um novo candidato a presidente da Assembleia, que foi o Sebastião Tejota*, e mudei a história da minha trajetória ali**. 

 

Sebastião Joaquim Pereira Neto Tejota foi deputado estadual por quatro mandatos e desde 2003 é conselheiro do TCE- GO. 

** Com essa estratégia, Rose conseguiu integrar a Mesa Diretora da Casa, tendo ocupado a 3ª Secretaria na gestão do então presidente da Alego, Sebastião Tejota (1999 – 2001). 

 

E deu certo para a senhora a estratégia?

Olha, eu nunca mais ganhei eleição depois que eu mudei de partido. O PMDB era um partido muito querido. Eu era uma mulher de luta do PMDB, representava a história do partido. As pessoas sentiram muito, fiquei marcada por causa dessa mudança. Hoje, a mudança partidária já não tem essa influência, mas, no meu tempo, isso me atrapalhou demais porque eu fui para um partido que não era minha praia. Eu sentia que era o mesmo tratamento. No fim das contas, era a mesma coisa. E eu não podia sair feito doida, mudando, mudando, mudando*. Mas eu digo, assim, que eleitoralmente eu perdi e não consegui voltar. Um dos motivos foi a mudança partidária, pois, nesse tempo, a discriminação era muito pesada. Não a discriminação feminina, a discriminação da mudança mesmo. 

 

* Depois de trocar o PMDB pelo PSDB em 1998, ela concorreu a deputada estadual em 2002 novamente pela mesma legenda. Já no pleito de 2010, ela concorre a deputada estadual pelo PRTB e, em 2016, a vice-prefeita pelo PMN. 

 

Para a senhora não há a possibilidade desse preterimento que a senhora sentiu nos grupos políticos, tanto no PMDB quanto no PSDB, tenha sido por ser mulher?

Não é por ser mulher não, é por ser brava. 

 

A senhora tinha essa fama?

Eu era muito irreverente, porque estava ali representando o povo, tinha poderes populares. Então, eu fazia valer quando eu queria alguma coisa. Se eu quisesse uma audiência com o prefeito ou com o governador, eu acampava lá na porta [do gabinete deles]. Eu achava que o povo tinha que ter acesso e eu me colocava como um instrumento para isso. Eu não era essa vovozinha que eu sou hoje. Eu era meio custosa e muito brava. Para defender alguém, eu jogava todas as cartas. Eu não tinha jogo de cintura. Eu pensava e falava. Falava o que eu quisesse para quem tivesse que falar. Eu já mudei muito em relação a isso. Amadureci. 

 

Como foi sua trajetória partidária depois do PSDB e qual é, na sua opinião, o sentido remanescente dessa identidade partidária no país?

Depois do PSDB, eu ainda me filiei ao PRTB para me candidatar a vereadora porque, desde então, os partidos já passaram a ser siglas de aluguel. Então, eu aderi a isso. Eu já tinha perdido aquela identificação partidária que tinha no princípio da carreira política. O meu partido realmente foi o PMDB. Quando do PMDB, eu era militante, sentia o partido na alma. Depois isso acabou. Eu acho que partido hoje quase não tem influência nenhuma, porque as legendas até aceitam pessoas muito divergentes. Virou essa coisa que não é mais relevante. Eu não sei, talvez tenha sido eu que não consegui acompanhar. Os partidos não são mais definidos por seus aspectos ideológicos, não são construtivos e existe o oportunismo partidário. Não provocam mais aquela paixão [do pertencimento filial]. Os filiados muitas vezes não conhecem nem o estatuto do partido. 

 

A senhora demonstra alguns ressentimentos referente às mudanças na Política atual em relação à Política de quando a senhora ingressou na vida pública. O que pesou na sua decisão de não se candidatar novamente ao parlamento estadual?

A minha mágoa é porque sinto que a Política acabou virando uma banca de negócios. Ao perceber que as campanhas estavam ficando muito comercializadas, resolvi dar uma pausa. Até porque ainda não existia uma legislação que nos protegesse disso. Hoje eu já me sinto, no entanto, muito mais à vontade, porque a legislação avançou bastante e já traz certas garantias. Com isso, eu noto que as pessoas passaram, em geral, a ter mais chances de se eleger como prefeito ou governador, por exemplo, ainda que, a princípio, tenham aparentemente menos condições. Basta que saibam trabalhar bem, na campanha. Mas teve um período, principalmente nessa época que eu me afastei, que a Política tinha se monetarizado muito, se tornando algo acessível só para os ricos, só para pessoas que tinham alto poder aquisitivo e condições de manter cabos eleitorais ou de financiar a compra descarada de votos, por exemplo. Eu perdi as eleições justamente por conta dessa barreira econômica, porque apareceram os endinheirados, que tinham mais alcance, e eu fiquei para trás. 

Hoje, isso tudo tem mudado e eu sinto que a Política está mais inclusiva, dando oportunidades a mais pessoas e com certos regramentos importantes. Eu sou uma estudiosa da legislação eleitoral. Gosto muito do assunto e, por isso, leio as resoluções, acompanho as atualizações, e sinto que melhorou. Se continuar no caminho que está, eu acho que vai haver uma renovação, uma mudança na Política e no modo como as pessoas a encaram. 

Quando as pessoas descobrem a corrupção que acontece por aí e ficam escandalizadas diante tantos roubos sendo investigados, eu acho ótimo. Porque, se está sendo descoberto, é porque está sendo apurado. Funciona mais ou menos como na medicina, a meu ver. Se você tem uma doença e descobre qual é, você tem como fazer o tratamento e se curar. Nossa sociedade estava doente. Hoje, estamos no caminho para a cura. Hoje, qualquer indivíduo que tenha uma reputação e saiba conquistar uma rede de pessoas, pode se tornar um candidato ou uma candidata. Antes isso não adiantava, porque representava só 20%.  

 

Na sua opinião, a compra de votos é uma realidade superada?

Eu não digo que não exista, mas hoje eu acredito que já esteja bem mais controlada, porque a legislação está garantindo um cerco maior a esse processo. Logicamente, a mudança do presencial para o digital ainda traz riscos, porque hoje, infelizmente, a internet que a gente usa de forma orgânica*, tem alcance mínimo. Vai chegar o momento em que os endinheirados, novamente, vão sair na frente, por terem mais condições de impulsionar seus anúncios nas redes** e, assim, conseguirem chegar a todas as casas, onde quem não tem o poder aquisitivo não vai conseguir chegar. Até no momento da pré-campanha, as forças estão muito igualitárias. Depois, pode haver uma mudança de eixo exatamente porque o poder de impulsionar é de quem tem dinheiro. A internet hoje, que é o principal meio de campanha, continua sendo de quem tem dinheiro, mas claro que também dá oportunidade para as pessoas que sabem trabalhar e têm um bom trânsito com ela e que, assim, conseguem superar essas barreiras [econômicas]. 

 

*  Internet orgânica refere-se ao alcance natural das postagens nas redes sociais, sem o impulsionamento por meio de anúncios pagos. 

** Impulsionar é promover postagens patrocinadas, anúncios remunerados que podem ser disparados durante as campanhas eleitorais. 

 

Como foi para a senhora voltar a enfrentar uma campanha eleitoral ao integrar, como vice, a chapa do delegado Waldir à prefeitura de Goiânia?

Eu já estava há muito tempo sem me candidatar e estava me preparando psicologicamente para retornar à Câmara de Vereadores. Entendi que a Política era uma coisa que eu não só fazia muito bem, mas que também me fazia sentir bem. Nesse tempo, eu passei por vários locais como servidora pública e estava muito feliz, com uma experiência administrativa muito boa. Então, eu pensei assim: "já fui política, já sei administrar, agora eu vou voltar a ser política porque vai ser bom". Com esse objetivo de me candidatar a vereadora, me desincompatibilizei das funções públicas que estava exercendo até então. Aí o convite do Waldir me abriu um leque de oportunidades. E eu reconsiderei: "se for vice-prefeita, eu vou poder fazer muito mais". É a mesma coisa de você estar dirigindo numa estradinha e depois te aparecer uma rodovia. Então, eu queria estar naquele caminho maior (risos).

Só que forças políticas nos afastaram. Quando eu entrei na campanha, o Waldir estava muito bem, mas aí todo mundo debandou. Acho que a única pessoa que não abandonou ele fui eu. O restante, todos os companheiros do partido que estavam com ele se afastaram. Eu fiquei até o fim. Gostei muito da experiência de trabalhar com ele. Aquilo que ele mostra é um personagem político. Ele é uma pessoa diferente daquilo. Eu achei interessante aquela convivência, foi um aprendizado, eu gostei. Não me arrependo. Não fui vereadora, não tive a chance de voltar para a Política, mas não me arrependo nem um minuto. Aliás, eu nunca me arrependo das coisas que eu fiz. Eu só me arrependo das que eu não fiz (risos). 

 

Na época, seu filho deputado Virmondes estava no PPS e mesmo assim declarou apoio à sua candidatura. Como foi essa decisão na família e também para os partidos envolvidos?

A decisão não foi em família, foi unilateral. Eu recebi o convite, aceitei e avisei para eles: olha, eu estou indo ser vice do Waldir. No primeiro momento, foi muito difícil, mas depois ele disse: “a senhora faz o que a senhora achar que é melhor”. Cada um é um indivíduo, não é? De fato, ele não podia me segurar. E acabou sofrendo retaliações*, por ter vindo me apoiar. Ele achava que, no fundo, eu estava certa. Eu sempre apoiei ele nos momentos mais difíceis. Então, ele sabia que me apoiar seria o correto e também acreditava que eu, se tivesse chegado lá, faria muita coisa boa. 

 

* Em 2016, o delegado Waldir Soares foi candidato a prefeito de Goiânia pelo PR enquanto Virmondes Cruvinel, no PPS, formalmente apoiava o candidato Vanderlan Cardoso (PSB) na disputa pelo cargo. Por anunciar seu apoio à candidatura da chapa Waldir-Rose, Virmondes sofreu diversas críticas de seus correligionários e de toda a coligação. 

 

Como é ver seu filho seguindo na Política, esse caminho que a senhora também trilhou?

Meus filhos têm as suas individualidades, cada um tem a sua personalidade forte. É interessante. Eles são bem diferentes entre si, mas todos têm um respeito muito grande pela minha história, minha luta. Eles conhecem minha trajetória e têm muita admiração. É uma posição de respeito, mas não é algo imposto, é aquele respeito que vem por meio do exemplo. Eles sabem que cheguei onde cheguei por causa de muito esforço e muito trabalho. Então, o que tenho, não apenas com o Virmondes, mas com todos os meus filhos, é uma parceria baseada no amor e no respeito. 

Hoje, para o Virmondes, eu sou mais uma espécie de conselheira. Ele nem sempre segue aquilo que eu gostaria, mas ele sempre me pede opinião (risos). Às vezes ele diz: “não, nisso eu não vou concordar com você, não é desse jeito que eu penso”, mas ele sempre me pergunta. 

 

A que a senhora se dedicou nos últimos anos?

Depois que eu terminei meu último mandato, eu voltei para a Universidade. Fiquei dois anos me especializando em Políticas Públicas na UFG e assumi a Superintendência de Saneamento, mais ou menos em 2004. Nesse período, eu comecei a implantar as primeiras reciclagens e coleta seletiva de lixo. Aqui, falar em lixo era algo que provocava estranhamento. As pessoas ficavam até com nojo da gente, só de ouvirem falar em lixo. Eu comecei a fazer o trabalho com coleta seletiva de lixo e entrei na luta para a construção dos aterros sanitários. Visitei o estado inteiro conhecendo os lixões, tentando alternativas junto ao governo federal para construção de aterros menores, e conseguimos algum apoio nisso. Outra coisa que conseguimos foi a implantação de muitos poços artesianos em comunidades isoladas, principalmente em assentamentos urbanos, onde as pessoas não tinham água. Foi um período muito interessante. 

Depois eu fui superintendente da região metropolitana de Goiânia. Para mim, que tinha sido vereadora, essa Superintendência me deu a oportunidade de estudar profundamente o transporte coletivo, de participar da Câmara Deliberativa do Transporte*, de influenciar e de brigar pela integração. Tentei muito fazer mais por essa integração da capital com os municípios da região metropolitana, mas a legislação não era muito camarada. Sempre tinha alguma coisa que barrava devido à independência dos municípios, mas eu fui a semente dessa luta metropolitana. Fui não, eu sou essa semente. Depois evoluiu bastante essa legislação e as coisas ficaram mais fáceis. 

Também estive na Superintendência de Licenciamento Ambiental**. Aí foi uma maravilha. Eu conheci o estado todo e vi as coisas que poderiam ser feitas aqui dentro. Mas vi também a morosidade, a burocracia. Sofri, lutei, gritei e fui tirada do cargo porque falava demais, reclamando. Eu era do governo, e lutava para manter [o Cerrado] sem desmatamento e sem queimadas. Só que a força econômica vinha contra a gente, uma força poderosa. Pressionaram tanto que me mudaram de lugar. De vez em quando acontece isso, é a força do poder econômico nas instituições de defesa ao meio ambiente. 

Eu botei minha cara a tapa nessa Superintendência. Eu chegava lá nos desmatadores e fabricantes de carvão e dizia: se você fizer isso de novo, eu vou te botar na cadeia. Eu falava isso com dedo em riste na cara deles. Fui uma xerife lá. Infelizmente, tive que sair para entrar um que afrouxasse mais. É Brasil. Mas foi uma experiência maravilhosa. Eu peguei o Meio Ambiente uma sucata, um lixão, com processos viciados, deteriorados, corruptos. Havia um paredão lá. Não adiantava dizer que foi a mando desse ou daquele, porque eu era mesmo um paredão. Eu não era radical. Eu sentava com o empresário e os técnicos do Meio Ambiente para discutir as questões. 

Cheguei ao Rio de Janeiro para fazer um curso de conciliação ambiental com juízes e promotores federais. Fui convidada para fazer esse curso com eles e achei a conciliação ambiental uma coisa muito interessante. Tinha hora que o debate era sobre um grande empreendimento e a gente tinha que ter uma solução técnica, correta, mas que não inviabilizasse o Estado. Eu gostei de fazer isso. Trabalhei muito. Embora eu tenha sido tirada de lá, eu não me arrependo de nada do que fiz e faria tudo de novo. 

De lá eu fui para o Gabinete de Gestão de Interlocução com os Movimentos Sociais, que era um espaço do governo para trabalhar com as Organizações não Governamentais, as ONGs. É uma área, inclusive, que está abandonada nesse Estado. A pessoa, naquele afã de ajudar outras pessoas, começa a trabalhar, recebe um apoiozinho e no final ela está endividada, com o CPF sujo e com tudo acabado e não tem quem ajude. Durante dois anos, eu cheguei até a escrever, eu e meus assessores, uma cartilha passo a passo sobre como criar uma Organização Social. Eu fiquei lá um tempo e lutei muito para que esse apoio melhorasse. Foi uma experiência boa, mas, com a reforma administrativa, esse Gabinete foi extinto. Aí eu fui transferida para ser chefe de Gabinete na Agrodefesa***. Lá, eu tive a oportunidade de conviver com os técnicos e ver que a defesa não pode ser só fiscalizatória, mas que o Estado tem que fornecer oportunidades para as pessoas se qualificarem para fazer a coisa certa. Então, fizemos muitas palestras no interior, sobretudo para as campanhas de vacinação dos rebanhos. Foi também uma oportunidade de ouvir as pessoas. Eu recebia gente de todas as cidades do estado. 

Eu gostei tanto que depois fui ser chefe de gabinete da Emater****, que é um órgão mais voltado para a agricultura familiar. Fui in loco nas comunidades, nos Kalunga***** em Cavalcante, naquela região toda. Passei dias e dias naquelas serras, vi de perto as dificuldades daquele povo. Fui aos assentamentos que o governo federal começou a fazer e abandonou, deixando as pessoas no meio da estrada por 10 anos, sendo que tinha um terreno disponível ao lado e eles nunca botaram as pessoas para dentro. Lá conheci gente que passou 15 anos esperando, instalada na beira da estrada. E elas me diziam: “agora já estou velha. Acabei meus sonhos, perdi minha vida”. Eu estava convivendo com os pequenos produtores rurais, com as pessoas que têm mais dificuldade e que ajudam muito esse estado. Esses grandes só fazem é mandar soja para fora. Quem põe comida na nossa mesa são os pequenos. Eu estava convivendo bem com eles, mas aí um contraponto político na Assembleia me tirou de novo (risos). Dessa vez eu não fui convidada a sair, eu vi no Diário Oficial que eu não participava mais do governo******. Mas não falo mal, eu acho que foi uma boa experiência. 

 

* A Câmara Deliberativa de Transporte Coletivo (CDTC) estabelece a política pública que rege a Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC). São funções da Câmara o planejamento, o gerenciamento, o controle e a fiscalização dos serviços de transportes coletivos no estado. 

** Rose foi superintendente de Licença e Monitoramento da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh). 

*** Em 2017 e 2018, Rose esteve neste cargo. 

**** Em 25 de março de 2019, Rose foi nomeada como chefe de gabinete da presidência da Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater). 

***** Comunidade quilombola situada no município de Cavalcante - GO e em outros do nordeste goiano. 

****** Em dezembro de 2019, quando o deputado Virmondes Cruvinel (Cidadania) se posicionou contrário a projetos do governo, como a PEC da Previdência e as mudanças no Estatuto dos Servidores Públicos, cerca de 21 servidores comissionados e por ele indicados foram exonerados do Poder Executivo. 

 

Como foi isso para a senhora?

Eu não votei no governo que está aí. Não sou do lado dele. Permaneci [neste último cargo] por quase dois anos e estava fazendo um trabalho excelente para mim e para o povo. Eu acho que quem perdeu foi o Estado, que tem mesmo essas coisas políticas. Cargo comissionado é isso mesmo: é temporário. O Estado não é obrigado a me manter lá. Não é porque não estava gostando do meu trabalho. Eu sei disso. É porque a Política é assim mesmo. Eu não concordo com isso, acho que não deveria ser assim, mas não sou de jogar pedra. Tá tudo ótimo, tudo beleza. 

Eu mudo de profissão, de uma coisa para outra com muita facilidade, porque eu já estou preparada para isso. Primeiro que eu sou especialista em Políticas Públicas. Se me colocarem para trabalhar no Sistema Penitenciário, tudo bem, eu sei trabalhar; com criança e adolescente eu sei trabalhar; com idoso também, eu estou preparada. 

 

O seu relato mostra que a senhora por muitas vezes assumiu cargos que poderiam ser muito burocráticos, mas a sua experiência transformou isso em atividades in loco. Isso me faz perguntar: a senhora sente falta de ter mandato em cargo eletivo?

O que é importante no mandato é que ninguém te derruba, ninguém te dá uma rasteira. Você tendo um mandato, é só o povo que te tira, ao passo que nesses outros lugares não importa se você é boa ou não. A minha luta era muito grande, dia e noite. Eu carregava sacolas de processos para analisar em casa, para trabalhar à noite e poder, assim, no outro dia já ter alguma coisa para apresentar. E de repente as pessoas te tiram. Então, o mandato te dá essa segurança. Mesmo se você for para um cargo administrativo, se te tirarem de lá, você volta para o seu cargo de deputado ou de vereador. 

Eu não faço concurso porque eu acho absurdo ocupar o lugar de um jovem que está precisando se desenvolver e ganhar a vida. Eu já estou com 72 anos, acho que já nem posso mais (risos). Nesses cargos comissionados que eu exerci, eu não senti que estava tomando o lugar de ninguém, porque eu estava levando as experiências que adquiri. Pessoas que passaram por minhas equipes, que foram meus assessores, já foram secretários de Estado. Tem muitas pessoas que foram meus gerentes, meus liderados, e que hoje estão ocupando grandes cargos. Eu trabalhava esse estilo de liderança. Eu sou aluna da Escola de Governo*, e faço tudo quanto é curso lá enquanto eu sou funcionária. Eu gosto de estudar. Essa minha força vem também do estudo. 

 

* A Escola de Governo Henrique Santillo é o órgão responsável por oferecer treinamento e capacitação continuada aos servidores dos quadros efetivo e temporário do Poder Executivo estadual. 

 

E o eleitor pode ou não esperar uma nova candidatura sua?

Aí só Deus sabe (risos). Eu não estou aposentada na Política. Estou temporariamente exercendo outros cargos políticos. Agora estou nesse cargo que meu filho me convidou para coordenar a pré-campanha dele. Eu já coordenei 13 campanhas vitoriosas. Nós já ganhamos, eu, ele* e meu marido, 13 vezes, fora as que a gente perdeu: essa com o Waldir, duas de deputada que eu perdi, o Virmondes perdeu também duas de vereador. Nós perdemos muito, mas já ganhamos 13. Então, eu não larguei a Política. Hoje, eu acho que poderia sair candidata a vereadora, mas assim eu prejudicaria o Virmondes. Eu acho que essa é uma oportunidade que ele está tendo de realmente chegar à Prefeitura de Goiânia. Talvez a minha vontade de voltar pudesse atrapalhar. 

Hoje, ele tem 40 candidatos à Câmara, que fazem reuniões diárias para ele nos bairros. Se eu fosse candidata, eles não iam fazer: “ah, ele vai apoiar só a mãe dele”, eles pensariam. Eu sei que pesaria na campanha dele. Eu falei para ele: "se você não for candidato, eu me candidato a vereadora". Desde que ele decidiu ser candidato a prefeito, eu deixei o projeto sem pesar. Então, eu sei muito bem separar as coisas. Estou feliz, aprendendo mais, ajudando as candidatas, tentando fazer com que as mulheres se elejam e, principalmente, ajudando ele. 

Eu fui uma vereadora realizada, fiz muito do que eu queria, mas eu fui uma deputada que deixei a desejar, porque eu fiquei apenas um mandato e quando eu estava aprendendo a ser deputada, tentei voltar e não consegui. Eu não fui realizada enquanto deputada porque, para mim, parece que foi uma carreira incompleta, interrompida. Na Medicina, por exemplo, eu me sinto aposentada e sou feliz por poder ter exercido a profissão dentro dos parâmetros mais corretos, com muito esforço, dando tudo de mim. Agora, a Política eu ainda não parei. Talvez eleger o Virmondes seja algo que me dê ainda uma satisfação muito grande. Eu não sei. O futuro a Deus pertence e, enquanto ele me der vida, eu estarei aí, sempre disponível. 

 

* Referindo-se ao filho Virmondes Cruvinel, atualmente candidato a prefeito de Goiânia pelo PSD. 

 

Qual a sua rotina hoje nessa pré-campanha que a senhora coordena?

Nós dividimos a cidade em nove regiões e estamos fazendo um planejamento, em contato com a população. Já tivemos reuniões virtuais com 200 pessoas aqui pelo Meeting. Vêm líderes comunitários, padres, pastores evangélicos, professores, diretores de colégios, de creches, comerciantes, empresários, pessoas com representatividades diversas. Elas pedem a palavra e falam. Temos também o planejamento temático, com os técnicos da área, gente especializada nos temas mais importantes que vamos focar na campanha. São cerca de 20 pessoas em cada reunião. 

Eu participo de todas. Estou acompanhando tudo. Estamos conseguindo trazer muita gente boa, preparada e com sede de mudança, algo que me dá muito gosto em poder participar. A gente também monta o ambiente digital e ensina os candidatos a vereadores a usar essas ferramentas com suas bases eleitorais. O Virmondes também participa disso. Temos todo um trabalho de Marketing Político no qual eu também estou muito inserida. 

 

Os projetos da senhora para os próximos anos não incluem aposentadoria e descanso?

Eu até estava com uma viagem toda planejada para maio. Ia passar um mês em Portugal, mas tive que cancelar. Joguei para frente, ainda sem saber quando, mas só quando sair uma vacina*. Até a eleição eu estou aqui 100%. Quando sair uma vacina, eu quero fazer uma viagem de carro de uns dois ou três meses pelo Nordeste. Eu já fiz isso por Minas Gerais, eu e meu marido, nós viajamos cidade por cidade, e já fizemos no Nordeste também. Eu tenho alguns parentes lá e quero refazer isso para ver os familiares e as praias. Quando for possível, eu vou passear sim, é um dos projetos. Eu queria estudar um pouco mais, mas eu sei que eu já estudo demais (risos). Tenho que dar um tempo. 

Meu projeto maior agora é eleger o Virmondes. Quando ele for eleito, eu vou poder dar uma passeada. A Política eu não sei. Não vou dizer que dessa água eu não bebo. Eu não sou vacinada contra a Política, acho que a Política é um dos ramos mais importantes da vida em sociedade. Se ainda houvesse tempo na legislação eleitoral, eu já ia te convidar para você se filiar e ser candidata a vereadora (risos). 

 

*  Refere-se à expectativa de vacina contra o corona vírus, transmissor da covid-19. 

 

É um tema que me interessa (risos). Para encerrarmos, que mensagem a senhora tem para meninas e mulheres que pensam sobre Política?

Primeiro eu quero parabenizar as mulheres, porque elas têm alcançado muito sucesso nos concursos, na formação. Vemos muitas mulheres em destaque em vários órgãos da Administração Pública. Na Política não pode ser diferente. Nós, mulheres, temos que participar dela, não por exigência da cota, mas porque a sociedade é feita de homens e mulheres. Eu acho que é de mãos dadas que vamos construir uma sociedade melhor. A mulher tem muito a contribuir na Política, para fazer uma Política diferente, com mais aconchego, mais humanizada. Vamos participar da Política, mulheres! Participe dessa experiência, não tenha medo de colocar seu nome, não tenha medo de perder. Ninguém nunca perde, porque participar é sempre ganhar. As pessoas que participam estão sempre ganhando. Eu amanheço todo dia me sentindo uma vencedora, porque eu estou participando da vida. Então, vamos em frente, mulheres. Só vamos ter uma Política boa quando houver equilíbrio entre homens e mulheres. 

 

Entrevista e texto de Fran Rodrigues, com edições de Luciana Lima e Amanda Ristov.
Agência Assembleia de Notícias
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