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19 de Abril, Dia do Índio

19 de Abril de 2021 às 10:30
Crédito: Seção de Publicidade
19 de Abril, Dia do Índio
Dia do Índio
A data é importante para lembrar os primeiros habitantes do Brasil, mas não há muito a comemorar diante da realidade de perda de direitos e o risco à saúde, agravado pela pandemia do novo coronavírus.

Neste 19 de abril é comemorado o Dia do Índio no Brasil. Se a data é representativa do reconhecimento aos primeiros habitantes do País não há, de fato, muitos motivos para comemoração.

A deputada Delegada Adriana Accorsi (PT) é incisiva nessa consideração. Ela lembra que os indígenas fazem parte de um dos segmentos da sociedade mais discriminados, privados dos seus direitos, situação agravada no momento em que o governo federal tem pouco apreço pelo meio ambiente, o que implica em retirada de direitos dos indígenas. "Não é um momento feliz para comemorar o Dia do Índio", lamenta.

A professora da Universidade Estadual de Goiás, Lorranne Gomes da Silva, que é pós-doutora em Geografia, estudiosa da cultura, território e vida dos povos indígenas, sobretudo, de Goiás, se manifesta no mesmo sentido. “Não há o que se comemorar, porque eles continuam a lutar pelas mesmas coisas do século XVI, como: direito à terra, de viver como seus antepassados, direito à vida, à proteção de seus territórios, à saúde e à educação”, pontua.

Mesmo diante de todas as adversidades, a conselheira distrital e municipal de Saúde Indígena, residente na cidade de Aragarças, Eliana Karajá ressalta a gratidão por todo auxílio recebido para seu povo neste momento de pandemia. “Neste 19 de abril, temos muita gratidão pelo que fizeram por nós”, diz a conselheira, que vive no cotidiano as dificuldades de sua gente.

A professora Lorranne, acentua, ainda, que “poucos foram os avanços e, ainda assim, as conquistas alcançadas em séculos foram e estão sendo violadas, sobretudo na forma de gestão do governo atual. É isso o que presenciamos diariamente”, lamenta.

Na opinião da estudiosa, é atrasada e inadequada à realidade indígena a forma de comemorar a vida desses povos. "No Brasil, é preciso comemorar a diversidade cultural, e não como os indígenas eram vistos no século XVI.”

Pressões nos territórios

Lorranne informa que os três povos indígenas que vivem em Goiás são: os Tapuia, na região Noroeste do estado, entre os municípios de Rubiataba e Nova América; os Karajá em Aruanã, também na mesma região goiana, e os Avá-Canoeiro, localizados no Norte goiano, em Minaçu e Colinas do Sul.

Conforme os apontamentos de Lorranne, os remanescentes dos povos Tapuia somam mais de 200 pessoas em território indígena, e aproximadamente 50 em cidades próximas. Já dos Karajá são contabilizadas 300 pessoas, ao passo que do grupo Avá-Canoeiro restam somente oito pessoas em Goiás e aproximadamente 22 no estado de Tocantins.

Ela observa que todos esses povos têm seus territórios muito pressionados por atividades econômicas. Os Tapuia sofrem pressão principalmente por parte da pecuária, com o território cercado pelos grandes latifundiários; os Karajá, além da pressão por parte da pecuária, também sofrem com o turismo. Os Avá-Canoeiro, por sua vez, tiveram seu território ocupado pela usina Hidrelétrica de Serra da Mesa.

Conforme a professora, essas pressões, além de promoverem historicamente a diminuição dos territórios indígenas, ameaçam a vida desses povos que ficam vulneráveis. “Sem território não há vida indígena nem reprodução da cultura desses povos”, observa.

 

A luta continua

Eliana Karajá diz que a luta continua crescendo. "A gente vê que não tem interesse dos governantes em relação à demarcação dos territórios para os indígenas que já estão lá”, afirma. Eliana fala do tamanho da dificuldade que tem sido enfrentada pelo seu povo, que também atinge os outros povos indígenas no Brasil, acerca da luta por territórios.

"É muito complicado. Quando a gente fala sobre briga, não é uma briga física, é uma questão jurídica, pela terra à qual por direito a gente tem. O nosso povo já vive nos territórios há muito tempo. Tem como comprovar, mas o agronegócio cresce cada vez mais”, lamenta Eliana.

Eliana Karajá ressalta também que o Governo acha que índio não faz nada na terra, mas é o contrário. "A gente cuida do meio ambiente, preserva. Lutamos sim pelos nossos direitos, porque o território é nosso direito. A gente morava aqui antes, e agora a gente tem que lutar para garantir nosso próprio território. É complicado, mas é isso que a gente está fazendo”, assinala.

A professora Lorranne pontua que o estado que defende os direitos indígenas, adquiridos na Constituição de 1988, é o mesmo que assina os mega projetos em territórios indígenas, como construção de estradas e rodovias, de usinas hidrelétricas, de mineração, turismo, pecuária, agronegócio, além de outros. Ela contabiliza que dos 732 territórios indígenas no Brasil, apenas nove são homologados, isso mostra a estratégia do estado para não garantir as terras aos indígenas

Eliana Karajá confirma as informações da professora e ressalta serem vários os territórios sem regularização. “O presidente Jair Bolsonaro afirmou que não haveria homologação de terra”, pontua.

Diante do tratamento diferenciado entre os povos indígenas e os não indígenas, Eliana Karajá ressalta que os fazendeiros têm imensidão de terras, enquanto os indígenas  ficam "mendigando terra”. Ela exemplifica com a situação que seu povo vive em Aragarças, onde muitas famílias indígenas moram há muitos anos.

Eliana Karajá assinala outro problema. Quando chegou o momento de muitas famílias indígenas ocuparem as terras que haviam sido prometidas e designadas a elas por direito, passaram por outro revés. "Alguém avisou o pessoal do Movimento Sem Terra e eles foram na frente e pegaram. A gente já tinha recebido um documento, e ficamos esperando.”

Ela diz que os indígenas ficam esperando a homologação da terra e nunca conseguem. "A gente depende das pessoas para fazer tudo organizado, em cima da lei, mas as pessoas não estão respeitando nossos direitos”, lamenta.

Enfrentamento à pandemia

A deputada Adriana Accorsi ressalta sua completa insatisfação com as condições impostas aos povos indígenas, e com esse período, ainda mais grave, em decorrência da pandemia provocada pela covid-19. “Acredito que é um dos piores da sua história. Essa é uma luta nossa, uma luta do Partido dos Trabalhadores pelos direitos humanos dos indígenas. Aqui em Goiás, estamos lutando para que eles tenham direito prioritário à vacinação”, assinala.

No enfrentamento à covid-19, os povos indígenas atuaram em duas frentes. Eliana Karajá explica que várias mulheres na aldeia foram buscar raízes e plantas medicinais, para fazer garrafadas para dar para o pessoal tomar no enfrentamento da covid. “Muitas pessoas tiveram os sintomas diminuídos e acredito que foi graças à medicação”, defende.

Eliana exemplifica a situação do próprio marido, que sofreu covid-19 e recebeu tratamento com a medicação feita com base nos conhecimentos dos povos indígenas, com o preparo de garrafadas. “Falo pelo meu próprio marido, que tem diabetes, é hipertenso, é obeso. Isso poderia contribuir para piorar o quadro dele. Ele tomou duas garrafadas, e não ficou grave. Foi mais leve nele que em mim, que precisei ficar internada em Goiânia”, conta.

A segunda frente de atuação foi consolidada pela formação de Coletivo de Mulheres Iny, que começou com 17 mulheres e hoje já somam 28, dentre elas profissionais de saúde (médicas, enfermeiras e técnicas em enfermagem), de educação, conselheiras distritais de Saúde Indígena, e indígenas em situação de aldeamento, além das que moram na cidade. “Quando a gente viu que os casos estavam começando nas aldeias, fizemos uma campanha, formamos o coletivo e fomos buscar apoio”, explica.

A ajuda foi necessária para que houvesse equipamentos de proteção individual (EPIs) para a proteção dos profissionais de saúde. “O distrito não tinha para todos”, conta Eliana. Além disso, na época, os equipamentos enviados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) eram insuficientes. “Para atender os vários profissionais, receber duas a três caixas de máscaras e de luvas, era uma brincadeira. Era brincar com a saúde daquele povo.”

Eliana Karajá lamenta que, diante da situação de risco, muitos profissionais como  médicos, enfermeiras, técnicos de enfermagem, agentes indígenas de Saúde (AIS), agentes indígenas de Saneamento (Aisan) foram contaminados. Além disso, muitos indígenas precisaram receber tratamento hospitalar com a medicação convencional. “Sofremos mortes de muitos familiares, tios, tias, primos. Foi muito complicado. Foi difícil demais enfrentar tudo isso”, diz.

Dentre as Iny, uma técnica de enfermagem da equipe veio a óbito em decorrência do coronavírus. Conscientes dos riscos oferecidos pela covid-19, a opção era agir e buscar auxílio. “A gente viu que podia ser um desastre para o nosso povo”, conta Eliana.

Outra preocupação foi levar orientação à população para que soubesse o tamanho do risco e se protegesse, além dos cuidados com o uso de máscara e álcool em gel, álcool 70%. “Em um primeiro momento foram feitos vídeos por mulheres profissionais de saúde, explicando na língua do nosso povo o que era a covid e o quão grave era, e que ela poderia levar a óbito”, continua. “Os homens também receberam muita orientação.”

Mas apesar de todos os cuidados, muitos familiares dos povos morreram em decorrência da doença. “Foi um momento de muita dor, onde a gente tinha nosso povo, nossa família, precisando de nós”, lamenta. Entretanto, incansáveis, as mulheres do grupo buscaram ajuda por todos os meios possíveis.

Criaram perfis nas redes sociais e pediram ajuda. “Foi um trabalho árduo do Coletivo de Mulheres Iny. Tenho muita gratidão pela participação de todas. Cada uma que deu o seu rosto para salvar a vida do seu próprio povo. Falar o que precisavam como: oxímetro e termômetro pistola”, ressalta Eliana Karajá.

Por sua vez, os homens foram orientados e fizeram barreiras sanitárias. “Muitas pessoas doaram os materiais para construir as barreiras, para não entrarem pacientes com covid. A pistola foi usada para aferir se estava com febre ou não”, relata a indígena.

O trabalho das Iny contou com o reforço do Movimento Indígena Nacional, que apoiou as associações de base, assim como a Associação Indigena do Vale do Araguaia (Asiva). “Os documentos eram enviados pela associação para conseguirmos mais doações”, explica Karajá.

A professora  Lorranne Gomes avalia as dificuldades, em decorrência da pandemia, que precisaram ser enfrentadas pelos povos indígenas e narra quanto os indígenas ficaram  assustados, pela forma rápida de transmissão da doença e da letalidade. “Infelizmente, mais de 160 povos foram atingidos, com mortes de muitos anciões e anciãs, que  como eles dizem, são as bibliotecas do povo. Essas mortes interferem na cultura de forma direta, seja pelos rituais funerários, seja pela importância que essas pessoas têm para o povo”, analisa.

Violência e preconceito

Eliana Karajá chama a atenção para a questão da violência. “A gente não sofre só violência física. Os casos já eram grandes na questão da violência contra as mulheres dentro das aldeias e até mesmo fora aumentaram nessa pandemia”, diz.

Ela conta o caso de um homem não indígena, que é casado com uma indígena, e que espancou muito a mulher. “A polícia não prendeu ele, mas entregou a mulher para ser levada para a aldeia. A gente não tem os mesmos direitos, porque se fossem iguais, o homem teria sido preso. Não mandariam a mulher embora e ele não ficaria solto. O que já é uma violação”, reclama.

Já em outro caso, conta Eliana, o homem batia e espancava a mulher, chegou a bater tanto, que ela perdeu o bebê. “Ele foi pego em flagrante e depois de três ou quatro horas foi solto. E quando foi a julgamento, o promotor, que deveria defender a vítima, virou-se contra ela”, lamenta. “Porquê é uma indígena? Ou qual o por quê? A gente leva em conta que é por ser indígena. Ainda acusa que foi ela quem bateu no homem. Esse não é o papel dele, e sim de defender a pessoa que está ali, como vítima”, reclama.

Outro tipo de violência é o preconceito. “Na pandemia a gente também teve isso, de não poder vir à cidade para comprar o alimento, ou para fazer outras coisas. Diziam que os indígenas iriam passar covid para os não indígenas, sendo que a covid não saiu da aldeia”, ressalta.

“Nós tínhamos que ficar no isolamento, mas como ficar isolados se tínhamos que comprar mantimentos para levar para a aldeia. Não tinha condição nenhuma de você ficar isolado. Isso também é um ato de violação dos nossos direitos de ir e vir”, reclama. 

Realidade

Eliana lamenta a falta de políticas voltadas ao atendimento às famílias tanto por parte do município, quanto da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) ou Funai para atendimento ao seu povo. “É muito triste ver crianças, como aqui em Aragarças, catando comida no lixo”, frisa ao assinalar o fato de que muitos são moradores da cidade. “Nós somos eleitores”, lembra.

O desrespeito aos direitos dos indígenas chegou ao ponto de moradores de contexto urbano não terem direito à vacina. “Quando mortas, pessoas do meu povo não são reconhecidas como indígena no atestado”, lamenta.

"Não interessa onde estamos, o porquê de sairmos de nossas aldeias. Se saímos, é porque precisamos, para estudar, para poder trabalhar a fim de dar algo melhor para nosso povo, para nossa família. É um preconceito que grita e dói, dói muito”, desabafa.

Da mesma forma que o trabalho do coletivo de mulheres foi essencial no enfrentamento à covid-19, os povos Karajá puderam contar com o auxílio da Prelazia de São Félix do Araguaia. “Não posso me esquecer da Olímpia, do padre Alex e sua equipe, que foram anjos em nossas vidas, com ajuda imensa de todos os gêneros necessários, desde medicação a cestas básicas”, agradece Eliana.

Que também cita o apoio incondicional a partir de iniciativas individuais que vieram até de outros países. "Eles foram fundamentais na nossa vida e na nossa campanha”, assinala. Além de mencionar a contribuição institucional da Universidade Federal de Goiás (UFG) por meio de professores e alunos, que abraçaram os povos indígenas, mandaram doações para Mulheres Iny distribuírem.

E ainda, a Casa do Índio de Goiânia e a OVG com a doação de álcool em gel, cestas básicas e máscaras. E também a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (Umiab), (Chirapaq),  Coordenação Indígena da América Latina (Coica), Associação dos Povos Indígenas do Tocantins (Arpit). Segundo ela, a contribuição da Funai foi no auxílio com a distribuição das cestas básicas.

 

 

Agência Assembleia de Notícias
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