De olhos bem abertos
* Wagner Guimarães é deputado estadual pelo PMDB
Não à toa o período de campanha eleitoral é aguardado com as piores expectativas. A chatice dos programas eleitorais é, dos males, o menor: a baixa qualidade do debate público (na maioria das vezes focado em desconstruir adversários), a mesmice dos candidatos, a velharia, o populismo exagerado e a falta de originalidade das propostas, que muitas vezes se concentram apenas naquilo que o povo quer ouvir, são estratégias imediatistas de atração do voto, que tornam os programas de governo quase sempre muito diferentes do prometido durante a propaganda eleitoral. Isso sem contar as estratégias sujas de agressão e os crimes eleitorais que muitas vezes dominam a campanha e igualmente passam impunes. Em alguns municípios goianos, a pré-campanha toma forma como um céu que se fecha e escurece, anunciando uma chuva de pedras, que certamente fará vítimas. Só espero que sejam mais lado de quem arremessa do que de quem serve de alvo. É lamentável ter que gastar tempo e energia para se blindar contra estas frentes, mas ao mesmo tempo inevitável, dada a tradição política de alguns grupos que caducam e se esgotam na indignidade de seus métodos.
Não só os eleitores perdem com a baixaria. Também os candidatos e suas famílias, que são cidadãos e, às vezes, os mais feridos no jogo sujo. Mais vantagem tem aquele que sofre os ataques e consegue converter as marcas das agressões em sulcos de experiência, modelar-se e tornar-se refratário à sujeira. Nestas horas, a unidade da família é fundamental, porque, independente de resultado em urnas, serve sempre, no abrigo do carinho, como estofo de vitória. O dia em que largar a política e resolver escrever algo sobre ela, começarei por uma espécie de cartilha em que a primeira sugestão será: Anos antes de disputar, é bom ao postulante que forme uma família, mas uma família verdadeira, que a imunidade à baixeza vem como conseqüência. Quem tem experiência em campanha, principalmente majoritária, certamente concorda com isso.
O papel da Justiça é fundamental como moderador da qualidade dos debates durante a campanha. A cogitada intenção do TSE de divulgar a vida pregressa dos candidatos com ficha suja parece ter caído por terra. Mesmo com todas as falhas, principalmente no que se referia à dependência da mídia, a proposta era excelente e acho que deveria ter sido melhor debatida, ter se tornado lei e ter sido colocada em prática, pelo menos como piloto nestas eleições. Infelizmente, não será dessa vez que poderíamos contar com uma fonte idônea de informações sobre candidatos, mas isso nada impede que o eleitor busque por conta própria tais informações nas instâncias judiciais. Os sites e os balcões de atendimento dos órgãos das justiças civil e eleitoral disponibilizam estas informações, basta buscá-las. Vale a pena porque apenas a propaganda eleitoral gratuita não esclarece quem são estes candidatos.
A Justiça também é os olhos da população no controle dos gastos públicos nas campanhas. Já falamos aqui do trabalho do Ministério Público de Goiás, que destacou um núcleo para controlar as depesas das prefeituras, com base em gastos efetivados em períodos não eleitorais, na tentativa de evitar superfaturamentos nestes quatro meses de propaganda eleitoral. A idéia é formidável, mas acho que só terá resultados satisfatórios se for tomada com todo rigor. São notórios os casos de prefeituras que entram no vermelho para custear despesas com combustíveis, materiais publicitários ou desviando funções dos quadros administrativos: do pessoal da faxina aos gerentes, todos vão para as ruas balançar bandeiras. Prefeituras e governos ficam paralisados durante as campanhas, por falta de dinheiro e pessoal, e só a Justiça e o MP podem evitar estes abusos.
Por uma campanha respeitosa, responsável, inteligente e propositiva. A Justiça deve atuar com mão de ferro para amenizar o peso da mão política que se coloca sobre ela. Terá o aval da sociedade se assim o fizer. De resto, cabe a nós, políticos, nos lavarmos das vaidades e termos a consciência de que todas as nossas ações serão assistidas e cobradas. É esse o maior sentido da disputa: saber ler a realidade além das aparências e oferecer além daquilo que é imediato, surpreender. Mas também saber vencer ou perder, dentro de regras iguais para todos os adversários. Por uma campanha consciente, madura e construtiva.