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Violência, jogo sujo e os ingredientes da armação

09 de Fevereiro de 2010 às 12:25
Artigo do deputado Wagner Guimarães (PMDB) publicado no jornal Diário da Manhã, edição de 09.02.2010.

* Wagner Guimarães é deputado estadual (PMDB)

Uma ação semelhante a do descarne, da sangria com o golpe abrupto, é a da investida que destrói honras, principalmente quando o agressor é um grupo – conluio de interesses políticos e empresariais não revelados – e o alvo um só homem. “Nunca subestime o líder político irresponsável. Com o poder nas mãos, se torna uma máquina de destroçar pessoas, famílias”, disse algo parecido, durante uma visita, um amigo que frequenta meu gabinete. Lembrei da frase pra definir a sensação no espírito quando das imagens do Jornal Anhanguera, que “revelaram” o esquema de propina supostamente cometido pela filha do secretário Jorcelino Braga. Uma “revelação” muito mais para denúncia que para reportagem, um tanto obscura, repentina, sem muita explicação, muito mais direcionada a escandalizar que informar, mas que se encaixa numa ordem bastante lógica de outros fatos.

O esquema de propina “revelado” no vídeo é realmente grave, fere o Estado e a sociedade, e deve ser apurado com rigor técnico, sem contaminação política. Mas a origem da denúncia, como foi apresentada, é intrigante e sugere interesses muito além da preocupação com um esquema de desvio de dinheiro público. Os vídeos não fazem menção direta a Jorcelino. A filha dele dizer “aí é com o dono dos porcos” pode soar como “estou cumprindo ordens, a partir daqui é só com o chefe”, um cacoete popular muito utilizado para revestir o subalterno do poder do superior, ou a filha do poder do pai, a maioria das vezes sem o consentimento do último. Não há na fala de Anniela Braga uma referência a Jorcelino como mandante ou condutor de qualquer procedimento que fazia sair dinheiro do Estado para a conta da Renafé, de Ivone dos Santos ou ao bolso da própria Anniela. Mas Braga, que foi ao Ministério Público uma semana antes da denúncia, prestou depoimento sobre o que estaria supostamente ocorrendo, é o principal atingido.

A denúncia da TV Anhanguera ignorou o fato de o secretário ter se antecipado e prestado depoimento. Repito: não houve ali intenção de informar ou esclarecer a população, mas escandalizá-la. Objetivo tipicamente político. O secretário era o foco: foi ele quem mais deu declarações e explicações sobre o fato após a denúncia, muito mais que Ivone e Anniela, as reais acusadas e diretamente envolvidas no suposto desvio. O que realmente teria motivado essa denúncia, se temos casos muito mais sérios, com evidências mais cabais de suspeita de corrupção cometida por líderes goianos? Por que a mídia local não costuma publicar as denúncias e processos que correm na Justiça contra o senador Marconi Perillo, por exemplo? E por que quando o faz, não escandaliza? Pelo contrário: a imprensa local prefere a confortável posição de apenas repercutir brevemente o que sai antes na imprensa nacional.

Enquanto Jorcelino se pronuncia quanto às acusações, o PSDB, o maior beneficiado politicamente com a denúncia, quem mais teria motivos para comemorar, não se manifestou como esperado. Pelo menos publicamente, não. Tucanos preferiram não tomar proveito político do caso, com um discurso pela ética, por exemplo. Mas eles deveriam sim ter realizado a tal reunião para avaliar a “gravidade” dos fatos (desmarcada sem explicação decente); deveriam ter destacado seus líderes e convocado a imprensa para se posicionar politicamente. Inclusive como participante do governo, o PSDB, que ainda detém fatia bastante gordurosa de cargos e controle de instituições, tem obrigação moral de oferecer um ponto de vista, uma saída. Não o fez.

Ao invés disso, seus líderes preferem avalizar cegamente uma denúncia mal-feita, com todos os ingredientes de armação, e se esconder atrás de um discurso oficialesco para exigir lisura na apuração do MP. De tudo que envolve esse caso, o posicionamento do PSDB é o que há de mais grave: o partido toma como verdade a série de acusações precoces e exageradas, que fragilizam a verdade da denúncia, e a partir daí exige justiça. Não questiona a principal personagem do caso, Ivone dos Santos. Quem é ela, afinal? Por que tantos convênios e com recursos tão generosos? Para onde foram os recursos? Por que ela, como representante de uma entidade de utilidade pública, que poderia gozar de meios legais para conseguir recursos públicos, preferiu utilizar um caminho criminoso para obtê-los? Por que filmar? Por que silenciar o seu crime? Por que a imprensa não investigou Ivone? Os tucanos propagam a Justiça como meio – para objetivos políticos não revelados – e não como seu fim legítimo: o esclarecimento e a justiça social. Uma distorção extremamente danosa para a formação da opinião pública.

Enquanto isso, Braga dá exemplo de conduta e respeito: explicou a relação de distância entre ele e a filha (mas nunca deixou de assumi-la, pagou pensão, diferente de outros políticos como FHC ou Lula, que só reconheceram filhos depois de escândalos); imediatamente colocou o cargo à disposição do governador; foi o primeiro a dizer que era preciso apurar; convocou a imprensa, não fugiu. A única “suspeita” que tentam imputar a ele é baseada na relação de sangue com Aniela. Acusá-lo de qualquer coisa, ou focá-lo como responsável a partir do argumento biológico é uma medida tipicamente preconceituosa, violenta, que destrói honras e muito utilizada por políticos rasteiros.

Nomes de líderes goianos estiveram recentemente associados a esquemas de corrupção, tráfico de influência e esquemas ilícitos durante campanha eleitoral, mas Goiás depende da imprensa nacional para tomar conhecimento desses fatos. Isso, a televisão não costuma dar importância por aqui. Braga chamou o senador Marconi Perillo de “mentiroso de mão cheia”, há duas semanas, ao divulgar números da Secretaria da Fazenda. Em seguida, recebeu o golpe. Se considerarmos realmente que “campanha é guerra” (a campanha em Goiás já foi deflagrada há cinco ou seis meses, desde que o PSDB apresentou candidato), podemos entender que o secretário “bateu com força”, acusando Marconi de mentiroso, e acabou hostilizado em seguida, atingido no escuro, por um inimigo que não se revelou, mas que teria os motivos do senador para contra-atacar.

É importante ficarmos atentos para quem promove esse tipo de política, para o tipo de personalidade capaz de empreender tanta violência. Os políticos são à sua medida bens públicos. Quando uma acusação surge contra um deles, não está sendo prejudicado somente um homem, mas a parcela da sociedade a quem ele serve. Uma acusação como essa, recebida com essa parcialidade e com tantos excessos, não traz prejuízos apenas à família de Braga, mas ao Estado e à Justiça de Goiás.



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