Contra o crack
A Assembleia por iniciativa do deputado estadual Marlúcio Pereira (PTB) promoveu, na manhã desta quinta-feira, 11, audiência pública para discutir o aumento do número de usuários de crack na Região Metropolitana de Goiânia. O evento foi realizado no Auditório Solon Amaral.
Além de Marlúcio Pereira, compuseram a mesa a titular da Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos (Denarc), delegada Renata Chein, representando o secretário de Segurança Pública, Ernesto Roller; o juiz da 1ª Vara Criminal da Comarca de Goiânia, Jesseir Coelho; e o titular da 2ª Delegacia Regional da Polícia Civil, Álvaro Cássio dos Santos.
Durante o encontro, os participantes puderam ressaltar sua experiência na lida com o entorpecente e ilustrar dados e opiniões sobre a atual situação além de possíveis saídas para o combate ao crack, que têm sido responsável pela maioria dos crimes, e está cada vez mais presente na sociedade.
A delegada do Denarc, Renata Chein, informou que a instituição está com diversos projetos para o combate ao consumo e venda do crack. “Nós vamos para as ruas para marcar presença nessas áreas de risco e para os traficantes verem que nós estamos lá. Com isso, as denúncias vão aumentar”, ressaltou.
Para a delegada, o que dificulta o combate à droga é a facilidade com que ela é produzida. “Qualquer cozinha hoje pode ser usada para fabricar o crack”, lamentou. A delegada enfatizou ainda o trabalho que tem sido feito pela Polícia Civil no que se refere ao combate do consumo de crack. "Não perdemos o controle, portanto, estamos combatendo com seriedade e as operações serão intensificadas", afirmou.
A falta de programas educativos e centros de tratamento para os viciados em crack é o que dificulta o combate à droga no Estado. A opinião é do juiz da 1ª Vara Criminal da Comarca de Goiânia, Jesseir Coelho. “A lei é muito bonita no papel, mas não existem programas educativos (de combate à droga) no Estado. Como consequência do aumento do consumo do crack, hoje, a cada dez homicídios cometidos na Região Metropolitana, seis são em virtude da droga. Em 2000, de cada dez homicídios, um estava relacionado à droga.”
Com base nestas informações, o deputado Marlúcio Pereira afirmou que o quadro precisa ser discutido com urgência, antes que fuja de controle, como no Rio de Janeiro e em São Paulo. “Precisamos de uma ação imediata, sobretudo porque nossos jovens estão morrendo com o uso dessa droga poderosa.”
Adriano Lagoa, pai de um jovem assassinado vítima do crack que também acompanhou a audiência, destacou que é preciso adoção de políticas públicas para amparar esses jovens e os pais. Adriano alertou os outros pais para que nunca percam a esperança, pois esse é um caminho difícil a ser percorrido. "Meu filho era um bom rapaz. Tentei de tudo para tirá-lo das drogas, mas não consegui.”
“É uma dor que não desejo nem para o meu maior inimigo. Só Deus que sabe o que estou passando.” Assim desabafou Wiviane Chagas de Almeida, mãe de um dos quatro adolescentes mortos pela ligação com o uso de crack, em chacina na cidade de Aparecida de Goiânia, no dia 31 de janeiro passado.
Cada vez mais jovens
O Juiz da 1ª Vara Criminal, Jesseir Coelho, afirmou que grande parte dos homicídios provocados em virtude do tráfico de drogas é de pessoas entre 16 a 23 anos de idade. “Além da droga matar em virtude do vício, ela gera vítimas também por causa do seu comércio. O tráfico tem envolvido jovens e crianças cada vez mais novos”, declarou.
O juiz afirmou que é necessário um somatório de forças na luta contra as drogas. Segundo Jessier, o Estado não pode ser omisso, dando condições para o combate e a recuperação de viciados e criminosos. Já o Poder Judiciário, na opinião do juiz, precisa dar maior rapidez à tramitação de processos.
“As polícias devem ser mais efetivas, enquanto o Legislativo deve elaborar normas mais rígidas. Só com a tomada de todas essas medidas podemos mudar esta situação. Nós precisamos de prática e não de teoria.”
Titular da 2ª Delegacia Regional da Polícia Civil, Álvaro Cássio dos Santos afirmou que, atualmente, está havendo uma interiorização do tráfico de entorpecentes. “A inteligência do tráfico descobriu um grande potencial de mercado no interior dos Estados”, contou. Para o delegado, é necessário um trabalho de conscientização da sociedade, para que esta participe ativamente da luta contra as drogas. “Questão das drogas envolve as famílias, as instituições e Poder Público.”
Comissão
Como resultado do encontro, Marlúcio Pereira informou que será criada na tarde desta quinta-feira, 11, uma comissão supraparditária para desenvolver um trabalho efetivo de apoio no combate ao crack. O parlamentar destacou ainda que dentre estas atitudes, algumas já estão em desenvolvimento.
Foi lançada, imediatamente, após o encerramento da audiência, a campanha “Crack Nem Pensar”, e a partir do mês de abril será aberta uma casa para assistência feminina à usuárias de crack.
Marlúcio informou também que várias outras medidas serão tomadas com respaldo nas informações colhidas durante a audiência. “Com base em tudo o que foi dito e proposto aqui, iremos nortear os trabalhos da comissão”, finalizou o parlamentar ao encerrar a audiência agradecendo o empenho e colaboração dos presentes.
O crack na sociedade
Nos últimos dois anos, o crack passou a ser a droga da moda entre os adolescentes. O consumo de entorpecentes é o pano de fundo para praticamente todos os atos infracionais cometidos por essa faixa etária. As estatísticas do Juizado da Infância e Juventude de Goiânia comprovam o avanço acelerado do consumo abusivo desse tipo de entorpecente entre os adolescentes encaminhados pela Polícia para o cumprimento de medidas socioeducativas.
O uso do crack também é crescente entre os garotos e garotas que passam pelo Juizado. Os dados mostram que, no primeiro semestre do ano passado, 3,28% dos adolescentes infratores relataram consumir a droga. No mesmo período deste ano, esse porcentual subiu para 4,99%.