Segurança nas escolas
A segurança nas escolas goianas, uma preocupação amplificada depois das tragédias na Escola Goyases e em Suzano, foi tema de audiência pública realizada pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte. O encontro foi realizado, no Auditório Solon Amaral, da Assembleia Legislativa, na tarde desta segunda-feira, 18.
Além do presidente da Comissão, deputado Talles Barreto (PSDB), dos deputados tucanos Helio de Sousa, Lêda Borges, e do deputado Bruno Peixoto(MDB), líder do Governo, participaram do debate, entre outros, o corregedor da Polícia Militar de Goiás (PM), tenente-coronel Júverson Augusto de Oliveira; a diretora do Colégio Goyases, Roseli Maria Longa Rizzo; e o ex-deputado Marcos Martins, especialista em Segurança Pública.
Segundo Talles Barreto, a audiência pública sobre segurança nas escolas do Estado de Goiás terá dois resultados: um é a formulação de uma carta a ser entregue ao Governador do Estado e à Secretária Estadual de Educação, e o outro é a elaboração de projetos de lei a serem apresentados em Plenário, na Assembleia Legislativa, por ele, Talles, e pela deputada Lêda Borges.
A opinião de especialistas
O ex-deputado Marcos Martins disse que só a união entre educadores e as forças de segurança pode diminuir o problema da violência nas escolas. "Hoje houve um furto com depredação numa escola municipal. Acho que até casos menores como este precisam do envolvimento de todas as forças democráticas do Estado, incluindo educadores e policiais", pontuou.
Segundo ele, depressão, suicídio, bullying, machismo, pais protetores e mídias sociais são alguns dos motivos que os estudiosos americanos estão destacando para explicar o aumento da violência nas escolas.
A diretora da Escola Goyases, Roseli Maria Rizzo, contou que ainda está abalada com a tragédia ocorrida em sua instituição, em outubro de 2017, que resultou em duas mortes e quatro feridos. Um adolescente de 14 anos, que estudava no colégio, foi o autor dos tiros. "Estou abalada e emocionada até hoje", afirmou.
De acordo com a educadora, o espaço da escola deveria ser de inclusão, socialização, integração e partilha do conhecimento. "Que espaço é este?", indagou. "Tento entender as coisas que estão ocorrendo, sei que precisamos de políticas públicas que amenizem os grandes problemas da atualidade. A aproximação da família com a escola é importante, não se pode terceirizar isso", pontuou.
O coronel Avelar Lopes de Viveiros, policial militar que é coordenador estadual da Educação de Goiânia, declarou que sem a família não se resolve a situação da violência dentro e fora das escolas. "Não adianta mais policiamento ou detector de metais se não houver envolvimento das famílias nos problemas. Não existe inclusive uma solução padrão para as mais de mil escolas estaduais, fora as municipais", destacou.
Segundo Avelar, um guarda ou um policial militar na porta de uma escola, seja no Colégio Goyases ou na escola de Suzano, não evitaria nenhuma das duas tragédias. "Muito provavelmente esse guarda seria uma vítima a mais, da mesma forma não adianta armar o professor em sala de aula", apontou.
Já o coronel Juverson Augusto de Oliveira informou que o Governo estadual está criando um protocolo de segurança escolar para nortear as ações policiais em todo o Estado de Goiás. "Dos 120 colégios militares do Brasil, 60 estão em Goiás e mais 31 devem ser criados apenas neste ano porque já foram aprovados em Lei. E esse é um modelo de gestão a ser copiado", afirmou.
Para Juverson, detector de metais ou mais policiais nas escolas não resolvem o problema da violência. "Aquilo que aconteceu em Goiânia, em Suzano ou em cidades norte-americanas deve voltar a acontecer porque o bullying é só o estopim para esses massacres, muito provavelmente são psicopatas ou pessoas com surtos esquizofrênicos", opinou.
Presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino em Goiás (Sinepe-GO), Flávio Castro, que é proprietário do Colégio Prevest, disse na audiência pública que não existe solução simples ou mágica para a questão. "A escola é um reflexo do que ocorre na sociedade. Tem muitos pais que ficam mais de um ano sem sequer ir à escola, muitas vezes o filho que ele tem em casa não é o filho que ele tem na escola", analisou.
Segundo o presidente do Sinepe-GO, a escola deveria ser um ambiente sagrado. “Já fui contra detector de metais e hoje estou em dúvida se pode ser o melhor ou não. Está na hora de algum Poder ser protagonista na solução deste problema, precisamos de uma ação e de um projeto claros", opinou.
O coronel Ricardo Rocha, que ocupa o Gabinete de Assistência Militar da Assembleia Legislativa, disse que é preciso recriar as "patrulhas escolares" nos diversos municípios do Estado. "As patrulhas escolares são importantes, elas ajudam na prevenção de forma ostensiva", afirmou.
"Pela vivência que tenho, sugiro medidas para melhorar o básico. Várias escolas não têm sequer muro e a maioria nem tem porteiro algum, a iluminação das escolas noturnas é péssima e às vezes nem existe direito, precisamos melhorar esse básico, seria importante também a vigilância eletrônica nas escolas com uma central de monitoramento, precisamos criar um programa para atrair as famílias de volta para as escolas", concluiu.
A presidente do Conselho Regional de Serviço Social (Cress) de Goiás, Ana Ângela Brasil, defendeu que a presença de assistentes sociais e psicólogos é essencial nas escolas. "É preciso uma escuta qualificada, seria uma equipe para orientar educadores, familiares e alunos em busca de uma maior integração", destacou.
Por último, o conselheiro-tesoureiro do Conselho Regional de Psicologia (CRP-GO), Mayk da Glória, que também preside a Comissão de Direitos Humanos do órgão, observou que só uma equipe técnica mais qualificada pode melhorar o ambiente escolar. "Existem profissionais estudiosos dessas áreas, inclusive vários com experiências exitosas. Precisamos sim de psicólogos, assistentes sociais e pedagogos qualificados dentro das unidades escolares", defendeu.
Ele discorda de restringir a propensão para este tipo de crime a pessoas com problemas mentais. "Mesmo a pessoa sem nenhuma psicopatologia pode se tornar violenta, não é correto falar que só psicopatas ou esquizofrênicos são protagonistas dessas tragédias nas escolas. Precisamos estudar e melhorar os contextos em que alunos e educadores convivem no cotidiano", finalizou.
Parlamentares opinam
Os deputados participantes do da audiência pública também apresentaram seu entendimento do problema e propostas que podem contribuir para evitar tragédias como a de Goiânia e Suzano.
A deputada Lêda Borges informou que é professora há 20 anos e, por isso, pode dizer que há hoje crises de valores e familiar, que acabam se refletindo dentro das escolas. "As famílias, realmente, terceirizam para escola a educação de seus filhos, mas a escola não pode e não deve ser o único ente da educação de uma criança ou adolescente", afirmou.
Lêda também criticou o senador Major Olímpio (PSL-SP), que defendeu que professores portem armas nas escolas. "A única arma de um professor deve ser o livro", apontou. A deputada também disse que é preciso atentar para o estresse que acomete os professores nas unidades de ensino. "Não à toa, temos esse recorde de licenças médicas de professores", pontuou. Ela criticou também o descontrole do uso da Internet em Goiás e no Brasil. "As famílias terceirizam para a internet a educação, não controlam nem supervisionam nada. Isso é ruim, porque acaba desaguando na escola", concluiu.
O deputado Helio de Sousa avaliou que os métodos usados nas escolas têm que se adaptar à modernidade. "Primeiro, temos que lembrar que a violência está na sociedade e não só nas escolas. A violência é uma questão social, sobretudo. Nossos lares estão vulneráveis, não dá para ignorar isso. É preciso repensar toda a sociedade", defendeu.
Ele lembrou que, em 2017, formou uma equipe que estudou o suicídio em Goiás. “Os mais desamparados eram os que mais se matavam, entre adolescentes e idosos", finalizou.
Líder do Governo Caiado, deputado Bruno Peixoto declarou que só a união de forças pode reduzir a violência nas escolas. "Apenas a soma de esforços entre família, professores e policiais pode melhorar esse quadro", afirmou o emedebista. "Temos que sair dessa reunião com sugestões e direções a serem tomadas", concluiu.