Politizar conclui treinamento
O terceiro e último dia de treinamento do Projeto Politizar, realizado no sábado, 4, envolveu uma programação extensa e diversificada, que se estendeu das 8 às 19 horas e ocupou diversos espaços da Assembleia Legislativa (Alego). Os 92 jovens participantes da quarta edição da simulação assistiram a seis palestras sobre temas diversos, sendo três delas, pela manhã, e, outras três, à tarde. Mais ao final, participaram de reuniões partidárias, durante as quais foram escolhidas as lideranças de cada legenda que integrará a simulação. As atividades terminaram com coletiva de imprensa.
A etapa de treinamento do projeto foi aberta na quinta-feira, 2, no Auditório Costa Lima, pelo presidente da Casa, deputado Lissauer Vieira (PSB). O projeto de extensão da Universidade Federal de Goiás (UFG), apadrinhado pela Alego, permite que estudantes atuem como deputados estaduais, de maneira simulada, durante uma semana. Com o exercício, estes cidadãos aprofundam os conhecimentos sobre o Parlamento e estabelecem uma maior aproximação com a política.
Para a abertura dos trabalhos estiveram na mesa diretiva o presidente Lissauer; o vice-governador, Lincoln Tejota (Pros); o reitor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Edward Madureira; o diretor da Escola do Legislativo, Teófilo Luiz dos Santos; a coordenadora-geral do Politizar, Mariza Barbosa; a vice-diretora da Faculdade de Ciências Sociais da UFG, Michele Cunha Franco e a coordenadora do Politizar pela UFG, Laís Thomaz.
Também marcaram presença os deputados estaduais Alysson Lima (PRB), Antônio Gomide (PT), Delegado Eduardo Prado (PV) e Rubens Marques (Pros). Ainda os vereadores por Goiânia Emilson Pereira (Podemos), Doutora Cristina (PSDB) e Lucas Kitão (PSL).
O presidente Lissauer Vieira destacou o orgulho que a Casa sente pelo Politizar e reafirmou sua importância afirmando que pretende, para o próximo ano, aumentar o número de edições do evento. “Vamos trabalhar junto com a Escola do Legislativo para no ano que vem programarmos duas edições. Faremos isso se tivermos condições estruturais.”
Ele explicou que o interesse pelo Politizar cresce a cada ano e é gratificante ver a juventude participar e conhecer a Assembleia Legislativa. “O maior ganho é despertar o interesse na política, temos, inclusive, vereador eleito que participou do Politizar (Lucas Kitão), desses jovens que vêm conhecer o Parlamento”, disse.
Durante a programação extensa do sábado, último dia do treinamento, a primeira palestra do dia foi ministrada pelo engenheiro André Rocha, presidente do Fórum Nacional Sucroenergético. Ele discorreu sobre o tema Energia e Associações comerciais. Rocha falou sobre a importância do assunto abordado no âmbito do Politizar, defendendo, sobretudo, as relações entre o Poder Legislativo e os setores de produção energética e de combustíveis, os quais representa.
"A sociedade, cada vez mais, tem que participar do dia a dia das instituições e dos Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário). O Politizar veio para isso, para despertar essa aproximação. Eu vou abordar um pouco do que são essas relações governamentais e institucionais. E mostrar como se dão essas políticas, que, no Brasil, ainda engatinham de forma um tanto quanto amadora. Enquanto no mundo já são bem institucionalizadas, aqui ela ainda é, preconceituosamente, chamada de lobby. Mas hoje existem, inclusive, projetos para regulamentar esse tipo de relacionamento, para que eles possam ser feitos de maneira ética, transparente e republicana", pontuou.
Na sequência, foi a vez do professor William Laureano (Unesp, Unicamp e PUC/SP) falar sobre o tema direitos humanos e sociedade civil. "A sociedade civil tem uma interface que dialoga com o poder público e com a produção de políticas públicas. A gente vai, de alguma forma, explicar como funciona a sociedade civil, qual o seu papel, quais a principais teorias que a fundamentam. E, depois, apresentar exemplos de como a contribuição dela é importante para a produção de políticas públicas."
No final da manhã, os participantes assistiram a palestra Adaptação do Processo Legislativo para o Politizar, ministrada pelo professor Miguel Gusmão, analista e pesquisador legislativo da Alego.
Já o período da tarde começou com a apresentação de Neolete Freitas, assessora parlamentar da Presidência da Alego, que conduziu palestra sobre o tema que envolve a área em que atua nesta Casa de Leis. O que é ser um assessor parlamentar e quais os ritos que envolvem os processos legislativos foram questões que estiveram, portanto, no centro da discussão por ela encabeçada.
"Como se inicia e se encerra a tramitação de uma norma, esse passo a passo do processo Legislativo é algo que vamos explorar bastante. Falamos um pouco também sobre o perfil do assessor parlamentar. Não basta querer, o profissional que se dispõe a fazer assessoria de algum parlamentar tem que cumprir uma série de requisitos, dos quais precisa ter conhecimento. Comprometimento, responsabilidade ediscrição são alguns desses requisitos. Além do conhecimento técnico, tanto do Regimento da Casa, quanto do Processo Legislativo", ponderou.
Após ela, à semelhança do ano passado, teve início uma roda de conversa sobre o tema "Jornalismo Político: Investigação e Transparência". A discussão foi conduzida pelas jornalistas Amanda Audi, do The Intercept Brasil; Cileide Alves, da Rádio Sagres 730; e Fabiana Pulcineli, que atua no jornal O Popular e na Rádio CBN Goiânia, veículos do Grupo Jaime Câmara.
Pulcineli, que já participa pela segunda vez do Politizar, começou falando sobre a sua experiência na cobertura política em Goiás e ressaltou sobretudo questões que envolvem as cobranças por mais transparência nas ações e investimentos do Parlamento. Ela também explorou assuntos como análise de dados e a cobertura das atividades dos parlamentares.
"Eu gosto muito do projeto Politizar. É uma iniciativa muito interessante, porque acredito que avanços só são possíveis quando há controle social, quando as pessoas entendem como funciona a política, como funciona o Legislativo e sua relação com o Executivo. Exploramos um pouco de tudo isso, no intuito de ajudá-los no sentido de entender bem esse funcionamento, como no de monitorar tudo isso, o que é um papel não apenas do jornalista, mas de todo cidadão", avaliou a jornalista.
Cileide Alves trouxe exemplos práticos de como a política é algo indissociável da vida em sociedade. "Tudo na vida da gente é definido pela política. É um equívoco as pessoas acharem que podemos nos livrar da política. E a melhor forma de lidar com isso é entendendo a política e, com isso, descobrir que há formas e formas de atuar nela. Existe a boa e a má política. E o nosso papel aqui e trazer essas informações para esses jovens que se interessam por esses temas, para que eles possam ser multiplicadores lá fora", defendeu.
Amanda Audi elogiou a iniciativa, sobretudo por sua capacidade de promover uma aproximação dos jovens com o Parlamento. "O que acontece aqui, muitas vezes, fica bastante distante da população como um todo. Por isso é importante valorizar projetos como este. A comunhão entre o jornalismo e o Legislativo é sempre muito importante. Podemos caminhar juntos, sem, necessariamente, ter que ter sempre esse embate que muitas vezes existe. Havendo transparência e ética nós conseguiremos fazer um bom trabalho no sentido de melhorar a democracia", sublinhou.
Por fim, o professor Marivaldo Pereira encerrou as discussões do treinamento com a palestra Educação: caminho mais rápido para a emancipação. Sua explanação esteve especialmente focada em questões educacionais que visam orientar populações, notadamente as de baixa renda, a ocupar espaços de decisão. Frisou que o mais importante é sempre lembrar às pessoas que lograram alcançar essas posições para que nunca se esqueçam de quem ficou para trás e o quanto de diferença elas podem, portanto, fazer para reduzir a exclusão social, que não é um dado da natureza, mas resultado de um conjunto de decisões.
"Quem se incomoda e quer mudar isso, a primeira coisa é, então, brigar para ocupar os espaços e começar a mudar essas decisões para que cada vez mais pessoas sejam incluídas na sociedade e para que a gente possa, assim, democratizar as oportunidades para todos", disse Marivaldo. Ele criticou os cortes de verbas recentemente anunciados pelo Ministério da Educação às universidades em todo o país. As reduções do orçamento às instituições federais de ensino superior serão de 30%.
"Esses cortes significam a volta da ampliação das barreiras, já existentes, para a população de baixa renda acessar o ensino superior. Veja que nós assistimos, nos últimos anos, uma série de políticas que democratizaram o acesso de estudantes de escolas públicas, negros, indígenas e quilombolas às universidades. Foi um passo importante, embora ainda haja muito a ser feito. E esse anúncio de cortes é uma retomada dessas barreiras. Ou seja, um retrocesso muito grande, algo muito grave que não podemos admitir", protestou Marivaldo. Ele é advogado, mestre em Direito, Auditor Federal de Finanças e Controle da Secretaria do Tesouro Nacional, ex-secretário Executivo, de Assuntos Legislativos e de Reforma do Judiciário, e primeiro negro a ocupar interinamente o cargo de Ministro da Justiça, durante o governo de Dilma Rousseff.
Lideranças partidárias
Ao final do evento, cada partido participante da simulação se reuniu separadamente para definir os respectivos nomes de seus líderes e vice-líderes. No PRB, Adriano Ferreto e Geovana Lara. No DEM, Eliseu Silveira e Eduardo Rezende. No PT, Rogério dos Prazeres e Ana Carolina Vasconcelos. No MDB, Guilherme Araújo e Kayro Cesar. No PSDB, Rafael Branco e Edio Pereira. E, no PSB, Ana Carolina Bueno e Hellen Oliveira.
2º dia de Treinamento
Durante o segundo dia de treinamento do Projeto Politizar, os 92 jovens participantes da quarta edição da simulação assistiram a duas palestras, ambas ministradas por procuradores da Assembleia Legislativa (Alego). O evento teve lugar, na noite de sexta-feira, 3, no Auditório Costa Lima.
A primeira palestra da noite foi ‘Noções sobre competência técnica e Legislativa’, ministrada pelo procurador Murilo Teixeira. O enfoque foi a qualidade na produção de projetos de lei. Segundo Teixeira, isso envolve o domínio dos atributos de “eficácia, eficiência e efetividade”.
“Os projetos precisam atingir os objetivos para os quais foram feitos, sem submeter os destinatários a encargos inúteis. Os fins devem justificar os ônus do projeto. Além disso, a norma precisa ser bem aceita pela sociedade, porque há uma ligação direta entre a qualidade da legislação e uma boa governança”, afirmou.
Já a segunda palestra esteve voltada para a apresentação do Regimento Interno da Casa, aprofundando esclarecimentos acerca dos processos legislativos. Ela foi ministrada pelo procurador Edmarkson Ferreira de Araújo, que trouxe, inclusive, orientações sobre maneiras mais adequadas de os parlamentares defenderem suas argumentações orais e de apresentar emendas a projetos de lei, tanto em Plenário, quanto nas comissões.
Edmarkson falou sobre a importância social do Politizar. “Neste projeto o cidadão pode conhecer, de verdade, todos os trâmites da Casa, vivenciando o processo de formação das leis. Uma democracia forte é aquela em que o cidadão dela participa ativamente, entendendo as suas dinâmicas e conhecendo os seus representantes”, disse.
Participantes
Alguns estudantes que participarão das simulações a serem realizadas na Alego, a partir do dia 13 de junho, registraram as suas primeiras impressões sobre o Politizar, durante essa etapa de treinamento do projeto. Pastora Aninha é uma delas. Ela, que é farmacêutica atuante, com especialização na área, destacou o caráter inovador da iniciativa, sobretudo pelo nível de aprofundamento prático.
Vinda do movimento estudantil e representando uma parlamentar do PSDB, Pastora Aninha afirma que a experiência do Politizar é fundamental para aqueles que almejam seguir carreira pública e defende que o projeto deveria ter força institucional de lei. "Pretendo exercitar minha capacidade, sobretudo de articular e de ser flexível, porque aqui existem pessoas com filosofias de vida e pensamentos diferentes e nós temos que entrar em consenso para o alcance de um bem comum a toda a sociedade", salientou.
Já Adriano Ferreto, estudante de publicidade e propaganda da Faculdade Araguaia, vai representar um deputado estadual pelo PRB. Ele ressaltou que o projeto tem sido “enriquecedor”, sobretudo pelos debates, que o têm retirado de sua “zona de conforto”. “Espero que os próximos dias sejam de muita aprendizagem. Com toda certeza, muitos outros aspectos da minha vida vão mudar depois dessa experiência”, completou.
Politizar
O Politizar é um projeto de extensão da Universidade Federal de Goiás (UFG) desenvolvido em parceria com a Alego. Nele, estudantes de diferentes áreas são selecionados para participarem de uma simulação referente às atividades do Parlamento Goiano, podendo, ao longo de uma semana, atuarem como deputados estaduais, assessores parlamentares e também jornalistas políticos. O objetivo do exercício, é fazer com que estes jovens cidadãos aprofundem os seus conhecimentos sobre o Poder Legislativo e estabeleçam uma maior aproximação com a carreira política.
Ao todo, a edição do Politizar de 2019 contou com mais de 500 inscritos em todo o Estado de Goiás. Entre coordenadores e participantes selecionados o projeto conta com 120 pessoas.
A coordenação do Politizar informa que os simulandos terão até o dia 31 de maio para entregar a versão final dos projetos de lei, que serão analisados pela Procuradoria da Casa, antes do início da simulação. O objetivo do treinamento é capacitar os jovens participantes de modo que estes consigam executar as tarefas do cargo o qual foram selecionados com qualidade.
Avaliação
Ao final do evento, um breve balanço dos três dias de treinamento do projeto foi feito pelas coordenadoras do Politizar. A professora Laís Thomaz, da Faculdade de Ciências Sociais da UFG, diz aguardar um bom desempenho dos jovens durante a simulação de junho, sobretudo pela diversidade de representatividade ali reunida.
"Pela primeira vez, temos uma representatividade alta de mulheres e de afrodescendentes. E, com isso, a gente espera que eles consigam realmente se articular e ocupar os seus lugares de fala. Comparativamente ao ano passado, tivemos um período a mais (quinta-feira, à noite) e contamos com a presença de muitas autoridades, o que mostra a alta visibilidade e o impacto da iniciativa na sociedade. As palestras temáticas foram todas muito boas. Fiquei admirada de ver o nível de participação e engajamento dos jovens em cada uma delas. Cada vez mais, a gente tem conseguido abordar temas quentes e que despertam bastante atenção por parte dos simulandos", analisou.
Fazendo coro à colega, Mariza Barbosa, coordenadora geral do projeto na Alego, também manifestou seu contentamento com os resultados alcançados durante toda essa etapa de treinamento.
"Os simulandos corresponderam a todas as expectativas por nós sob eles projetadas. Agora, espero que, no dia 12, todos estejam presentes para assinarem seus termos de posse, na UFG, e que, depois, estejam presentes na simulação para que possamos ver, a contento, a efetividade prática dos nossos esforços de trabalho dispensados ao longo de toda a organização desse projeto", salientou.