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No final de março de 1979, logo após Ary Valadão ser empossado governador de Goiás por indicação do regime militar, os jornais O Popular e Opção divulgaram manchetes parecidas sobre a surpreendente escolha, de forma indireta, do mineiro Rogério Gouthier Fiúza para ocupar a prefeitura de Goiânia, em substituição ao prefeito afastado Hélio Mauro, ligado ao ex-governador Irapuan Costa Júnior.
A notícia caiu como uma bomba no plenário da Assembleia Legislativa, uma vez que a informação era desconhecida até mesmo por deputados aliados do Palácio das Esmeraldas e acabou gerando uma reação em cadeia da dissidência arenista, à época comandada por Adjair Lima, Wander Arantes, Wolney Siqueira, Paulo Resek e Habib Issa. Duas semanas depois, exatamente no dia 9 de abril, por uma diferença de apenas um voto, o nome de Rogério Gouthier foi rejeitado em Plenário com a ajuda de parlamentares da oposição, liderados por Derval de Paiva, João Divino Dornelles, Costa Lima e Waterloo Araújo, todos do MDB.
Esse episódio, que arrefeceu ainda mais a briga política entre os grupos liderados por Valadão e Irapuan, é lembrado pelo jornalista Ivan Mendonça como exemplo concreto da força da imprensa como instrumento capaz de mudar os rumos da história.
Repórter do Jornal Opção naquela época, com circulação diária, Ivan lembra até hoje da radicalização e da tensão que predominaram na sessão noturna daquele dia, após a confirmação da notícia. Posteriormente, vale lembrar, Ary Valadão patrocinou a posse no cargo do presidente da Câmara de Goiânia, Daniel Antônio (MDB), mas foi obrigado a capitular diante do poder político de Irapuan em 30 de junho daquele ano, indicando à aprovação da Assembleia o nome do ex-presidente do Banco do Estado de Goiás (BEG), Índio Artiaga. Desnecessário dizer que ele foi aprovado por ampla maioria em Plenário.
Momentos históricos
Servidor da Assembleia Legislativa de Goiás há 35 anos — ele foi nomeado em 1984 —, Ivan Mendonça vivenciou outros momentos históricos em Plenário, como a eleição de sete deputadas na 16ª Legislatura e a briga (briga mesmo, contenda física) dos deputados Heli Dourado (PDS) e Mauro Borges Júnior (MDB), em 1980, tendo como pano de fundo a implantação do Projeto Rio Formoso.
Ivan também fez a cobertura da morte dos deputados Costa Lima e Solon Amaral, além do velório de Pedro Ludovico Teixeira, realizado no saguão do Palácio Alfredo Nasser. Todos esses fatos, aliás, fazem parte de um livro de memórias que Ivan Mendonça pretende lançar no próximo dia 1º de julho, no salão nobre da Assembleia Legislativa.
Para o jornalista, que trabalhou ainda no Cinco de Março, Folha de S. Paulo, O Popular, Jornal da Segunda, Tribuna do Planalto, O Hoje e Diário da Manhã, o Poder Legislativo não tem mais o protagonismo das décadas de 60 a 90, marcadas por belos discursos e pela defesa de causas ideológicas. Ele acredita, no entanto, que o Parlamento é o maior fiador da democracia. “Se os governantes já gostam de mandar por leis delegadas, imagine se eles não precisassem pedir o aval para seus projetos”, brinca ele, indicando o repasse do duodécimo, algo em torno de 3% da arrecadação do Estado, como fator essencial para se garantir a independência do Parlamento.
Questionado sobre as frequentes críticas recebidas pelo Legislativo, muitas vezes em maior intensidade se comparadas aos demais poderes, Ivan Mendonça defende a liberdade da imprensa, mas esclarece que o Parlamento é o único Poder de portas abertas, escancaradas à população. “Qualquer pessoa pode ter acesso à Assembleia e aos gabinetes dos deputados, além de lhe ser franqueada as sessões realizadas em plenário ou nas comissões técnicas. Tudo é aberto, nada é proibido”, diz ele, indagando: “O cidadão comum pode chegar e ir entrando no Palácio das Esmeraldas ou no Tribunal de Justiça? Ele tem fácil acesso ao governador, aos desembargadores, conselheiros e ministros? Claro que não. Na melhor das hipóteses, ele pode até ser recebido, mas terá de apresentar um motivo, uma agenda. Além do mais, apesar de ter direito constitucional ao duodécimo, o repasse é tratado como dádiva do Poder Executivo, que é o dono do cofre”.
Transparência
Sobre o Dia da Imprensa, comemorado em 1º de junho, Ivan Mendonça considera que a imprensa é fundamental para a garantia e consolidação da democracia. Ele aplaude a criação de Portais de Transparência em todos os órgãos da administração pública até como forma de inibir eventuais deslizes de seus gestores. “A sensação de impunidade é que incentiva a corrupção”, enfatiza ele, citando o processo que culminou com o impeachment do presidente Fernando Collor, em 1989. “O ex-presidente Lula não estaria hoje na cadeia se a Operação Lava Jato não tivesse acreditado, lá em 2009, nas denúncias de lavagem de dinheiro envolvendo o doleiro Alberto Youssef e o ex-deputado José Janene, no Paraná."
Ao concluir, Ivan Mendonça fala a contragosto dos ousados limites da liberdade de expressão nas redes sociais. Assumidamente pouco afeito à tecnologia digital, ele admite que indiretamente acabou cometendo grave erro, por comodismo, em não ter aderido às novas tecnologias da comunicação, mas se vangloria, de certa forma, de ter sido preservado pelo que chama de exageros da manifestação de opinião no twitter e seus derivados.
Na sua concepção, o direito de expressão às vezes atropela o respeito que deveria prevalecer na relação de jornalistas e seus personagens, podendo induzir ilações não verdadeiras. E a resposta nunca está à altura do estrago causado. “O livre exercício do direito de opinar, criticar, comentar e denunciar algum fato ou pessoa exige reflexão, responsabilidade e ética”, destaca Ivan Mendonça.
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