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Dia da Imprensa

06 de Junho de 2019 às 07:03
Crédito: Carlos Costa
Dia da Imprensa
Entrevista com jornalista Valterli Guedes
Terceiro entrevistado da série especial sobre Dia da Imprensa, o jornalista e advogado Valterli Guedes diz que Brasil está livre de censura política e a responsabilidade dos veículos de comunicação é maior devido ao avanço das redes sociais.

Para o advogado e jornalista Valterli Guedes, 73 anos, a imprensa no Brasil atualmente é livre de censura política, mas não dos interesses das empresas de comunicação e das variadas tendências ideológicas dos profissionais que nelas atuam. “Tem jornalistas comprometidos com a missão de informar, mas tem outros que escrevem para levar vantagem em alguma coisa. Tem de tudo. Mas vivemos no sistema capitalista e é natural que as empresas tenham seus interesses”, assinala.

Guedes é mais um dos entrevistados da série especial com profissionais da imprensa que atuam ou atuaram junto ao Parlamento goiano. Atual presidente da Associação Goiana de Imprensa (AGI), Valterli tem boa parte da sua história de vida atrelada aos últimos 50 anos da imprensa em Goiás. Ele começou no jornalismo aos 17 anos, como revisor. Estreou como repórter em 1964 aos 18.

Depois disso passou pelos principais veículos do Estado. Uma atuação que se manteve firme em favor da liberdade de expressão mesmo em momentos críticos, como na época do governo militar instalado em 1964, onde veículos e jornalistas pagavam um alto preço se divulgassem notícias que contrariassem os interesses de quem estava no poder.

Valterli nasceu em Tauá, Ceará. Se mudou para Goiás, em 1952, quando tinha 6 anos. É filho de Francisco Chagas Guedes, pequeno proprietário rural, e de Iracema Leite Guedes. Chegou em Goiânia ao completar 15 anos. Fez o curso de Direito na UFG de 1970 a 1974. O advogado-jornalista também participou do Poder Legislativo. De 1986 a 1998 foi procurador da Casa. Hoje, se mantém nas duas frentes, a advocacia e a imprensa. Além da AGI, atua num escritório de advocacia juntamente com César Vilar Correia e o ex-ministro do STJ Castro Filho.

Sobre o desempenho da imprensa na atualidade, Valterli tem a opinião que falhas não são privilégio da imprensa, e sim de quase todas as instituições brasileiras, como é o caso do Ministério Público. Para Guedes, quando os dois atuam juntos, o resultado pode ser perigoso, acabando com reputações da noite para o dia. Uma parte faz a denúncia e a outra publica, sem a devida apuração dos fatos. Pessoas são condenadas sem um inquérito com a respectiva sentença.

“É um erro grave publicar denúncia sem investigar o fato. Quando um crime é divulgado na mídia o denunciado já está punido perante a opinião pública, que é a punição mais severa. Depois, se ele for absolvido, boa parte dessa opinião pública pode não tomar conhecimento e ficar o resto da vida achando que ele era culpado mesmo. Eu defendo a tese que se deve buscar a notícia do crime depois do inquérito montado. De preferência mais ainda na sentença condenatória”, afirma.

Valterli defende que, em época de fake news, divulgadas principalmente pelas redes sociais, a responsabilidade dos veículos de comunicação tradicionais é ainda maior.  “As pessoas que atuam nas instituições são seres humanos. Seja jornalista, seja policial, seja Ministério Público, todos vêm da mesma composição social que é a sociedade brasileira. Tem gente mais honesta e menos honesta. Então é preciso que todos estejam sujeitos a punições”, salienta.

Transparência

Para o presidente da AGI, é preciso avançar, é preciso que seja tudo discutido para se chegar a um consenso sobre o que é ideal para garantir o livre acesso à informação. A Lei da Transaparência é, em sua opinião, um desses avanços. Sancionada em 2009 pelo ex-presidente Lula, a norma obriga a União, os Estados e os municípios a divulgar seus gastos na internet em tempo real.

“Eu defendo a tese de que nada melhor do que a clareza. Assim como o sol do meio-dia clareia o pântano e incomoda os vermes que estão naquele pântano, então a democracia, a liberdade e a transparência incomodam aqueles que praticam irregularidades e levam vantagens em cima do poder público”, compara.

O jornalista ressalta que não pode existir sigilo nos poderes, a não ser que seja de interesse por exemplo da segurança, caso o país esteja em guerra. “Mas com relação ao dinheiro, tem que haver total transparência. Tem que discutir se ele está sendo bem aplicado.”

Valterli afirma que a liberdade, em suas variadas vertentes, não é uma tradição brasileira, pois a história do País sempre foi marcada por regimes autoritários. “Durante praticamente 380 anos houve a escravidão no Brasil. E até 1808 era proibido por lei o ingresso de livros no Brasil. Quando as coisas ficam mais apertadas, tipo uma ditadura, o povo passa a ansiar por mais liberdade. Então graças a isso, após 21 anos de ditadura, o Brasil acordou para escrever uma Constituição. E de todas, desde a de 1824, que foi promulgada por Dom Pedro I, a atual é a mais democrática de todas. É a única em que os direitos sociais, a cidadania, são tratados nos primeiros artigos”, compara. 

Mas mesmo assim, o jornalista considera que o Brasil ainda está se adaptando a estes avanços, que representariam uma novidade na história do País. “E tem um outro aspecto. A liberdade existe apenas no pensamento político. O criminoso comum continua sendo vítima da tortura. Então não adianta dizer para ele que na democracia não existe tortura”, salienta.

Mas mesmo diante deste quadro, ele se mantém otimista. “A liberdade vai avançando. O País vai evoluindo. Eu participo da idéia de que os tempos vão ser cada vez melhores. Embora é preciso que as pessoas compreendam que, para o País avançar mais, é preciso investimento em educação. Não tem outra maneira”, afirma.

Legislativo

Valterli Guedes defende que o Legislativo goiano sempre participou da luta pelas liberdades, como na época da ditadura militar, quando chegou a entrar em recesso compulsório determinado pelo Governo Federal. Segundo ele, quando ocorreu o golpe, a Assembleia, que era presidida pelo então deputado Iris Rezende Machado, assim como as outras Casas Legislativas do País, não pôde reagir, mas mesmo assim sofreu retaliações do novo regime que se instalava no País.

“Tinham deputados a favor e outros contra. Mas uma das primeiras vítimas da perseguição dos militares no País foi o deputado José Porfírio. Eu lembro dele na Tribuna da Assembleia fazendo discurso. Era um homem muito humilde, vindo realmente da zona rural. Os discursos dele eram muito simples, mas de muita autenticidade”, relembra.

O jornalista conta que, depois do golpe militar, a Assembleia foi colocada em recesso, foi praticamente fechada. Ficou funcionando apenas a parte administrativa. “Durante alguns meses ela ficou nesse recesso até reabrir. Não tinha como explicar o porque deste fechamento. E quando reabriu, apenas um deputado teve seus direitos políticos cassados, o Nelito Brandão, de Inhumas."

Segundo Valterli, Goiás foi o Estado mas sofrido, o mais castigado de todos, pois foi o único onde houve intervenção federal. Essa intervenção aconteceu no dia 26 novembro de 1964. “A Assembleia foi obrigada a homologar o nome de um novo governador, o marechal Ribas Júnior. Mesmo tendo ocorrido um acordo, onde o deputado Almir Turisco de Araújo, do PSD, foi indicado a vice”, lembra.

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