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Uma reunião para reconfigurar os vetores do poder em Goiás

27 de Março de 2008 às 10:13
Questionamento sobre o anúncio, pelo governador Alcides Rodrigues, da retomada dos programas sociais, as dificuldades para aprovação da reforma administrativas, as divergências com os números da administração. É este o teor de artigo do deputado Wagner Guimarães, PMDB, publicado no jornal "Diário da Manhã", edição de 27 de março de 2008.

* Wagner Guimarães é deputado estadual pelo PMDB

O anúncio do governador aos deputados da base sobre retomada do Cheque Moradia, do Renda Cidadã e do programa de asfaltamento das rodovias estaduais esconde no discurso dos benefícios uma jogada decisiva em Goiás. Se são programas sociais e de interesse geral, por que a sociedade, os sindicatos, associações e conselhos institucionais não foram convidados para receber a notícia no Palácio? Sequer uma coletiva de imprensa. Este aspecto questionável do anúncio, além de dizer que a Assembléia não é “caixa de ressonância” – porque a base por si só não representa a sociedade –, encerra, a meu ver, a reconfiguração dos vetores do poder no Estado.

O momento da reunião – entre o levante de Daniel Goulart contra os números da administração estadual e a aproximação das eleições e do fim do prazo para a Assembléia aprovar a reforma administrativa – não é mero acaso. O governador viu na manifestação de Goulart uma possível dificuldade para aprovar a reforma, caso outros deputados aliados, descontentes com a falta de repasses aos municípios, resolvessem fazer coro. Mas antes, Alcides percebeu no isolamento do tucano a brecha para aplicar um plano que pode ser considerado a virada do tabuleiro: oferecer aos deputados aliados a oportunidade de gerir os tão sonhados benefícios em seus municípios, na chegada da campanha, é o mesmo que abafar as desavenças das contas públicas.

Não só isso. Abafar desavenças e promover esta suposta reconciliação na base, principalmente com os deputados tucanos, mostra quem está ditando as regras agora. Sobre a ausência de Daniel Goulart à reunião, um correligionário tucano disse que a falta não fazia diferença (apesar do governador a ter notado), porque o PSDB é maior que Goulart. Quis dizer este correligionário que o partido é maior também que Marconi e que, por isso, se afasta de sua liderança na Assembléia? Talvez não. Talvez, por um acidente de percurso, o governo não consiga cumprir a promessa de espalhar os benefícios na data marcada com os deputados. Aí, outra reviravolta.

O líder do PSDB na Assembléia disse que a reunião não era para tratar de assuntos administrativos. Mas como se a pauta do dia é o déficit estadual, o mesmo déficit que, segundo apontam, é o responsável pelo atraso dos benefícios aos municípios, o mesmo atraso que desespera deputados e os leva ao encontro do governador? O assunto não é outro a não ser as contas públicas e as repercussões destes atrasos em todo Estado. Daí a precisão da ação de Alcides, a de impedir que os deputados tucanos continuem agindo por interesse partidário (mantendo a lenga-lenga da culpa da dívida) e fazer com que ajam em prol do governo, movidos exclusivamente pela preocupação individual com suas próprias bases eleitorais.

Espera-se pelo menos que os benefícios anunciados sejam realmente executados, não pelas repercussões partidárias, mas porque isso é básico à sociedade. Mas não deixamos de lamentar, mais uma vez, que a trindade partido-campanha-poder se sobreponha à oportunidade de melhorar as condições de vida da população. A CPI do Endividamento parece ter virado cinza de palha. A Assembléia, que começou o ano morta, deve ser agora enterrada. De tanto falarem de 2010, parece estarmos vivendo no passado. Enquanto isso, vamos assistindo a essa novela em que tudo pode, menos o espectador participar.

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