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Quirinópolis é palco para a IV Bienal Regional do Livro e das Artes; leitura é elevada a instrumento de transformações

28 de Agosto de 2026 às 15:00
Crédito: Sérgio Rocha
Quirinópolis é palco para a IV Bienal Regional do Livro e das Artes; leitura é elevada a instrumento de transformações
IV Bienal Regional do Livro e das Artes de Quirinópolis - dias 27 e 28 de agosto

A leitura e a escrita como ferramentas de transformação, formação cidadã e preservação da memória cultural foram alguns dos principais temas da IV Bienal Regional do Livro e das Artes. O evento foi realizado em Quirinópolis na quinta e sexta-feira, 27 e 28. Com o tema “Gotas de Literatura Quirinopolina: o poder da leitura como instrumento de transformação de crianças e jovens”, reuniu escritores, artistas, estudantes e representantes da cultura de diferentes municípios, fortalecendo o intercâmbio literário e artístico na região.

A bienal é promovida pela Associação Cultural, Literária e Educacional Mãos e Olhares Diferentes (Aclemod) e tem como objetivo ampliar o acesso ao conhecimento e contribuir para a valorização da produção literária e artística goiana e quirinopolina.

Durante os dois dias de programação, escritores e artistas de Quirinópolis e de municípios como Rio Verde, Caçu e Acreúna participaram das atividades, assim como representantes de Uberlândia (MG). A presença de autores de diferentes localidades ampliou o diálogo entre produções e experiências e reforçou a mostra como ponto de convergência entre literatura, artes visuais e comunidade.

A abertura oficial foi marcada pela apresentação da Orquestra da Igreja Assembleia de Deus de Quirinópolis, sob a regência do maestro Luciano Ferreira da Costa. O grupo executou os hinos Nacional Brasileiro, do Estado de Goiás e de Quirinópolis.

Além da programação artística, a bienal também homenageou romancistas, poetas, pesquisadores e escritores quirinopolinos que, por meio de suas obras, ajudam a registrar e preservar a memória do município. Histórias, personagens, costumes e aspectos da identidade cultural de Quirinópolis encontram na literatura uma forma de permanecer acessíveis às novas gerações, ao mesmo tempo em que contribuem para ampliar o acervo de bibliotecas locais.

Poesia, literatura e artes visuais

A programação valorizou diferentes formas de expressão artística. Um dos momentos de relevo foi a entrega da premiação do Concurso de Poesias Elzi M. La Guardia, que reconheceu novos talentos da produção poética.

Também foram homenageadas as mulheres que inspiraram o terceiro volume do livro “Mulheres Incríveis de Quirinópolis, Goiás”, publicação que registra histórias e trajetórias femininas e contribui para preservar a memória de personagens que fazem parte da comunidade quirinopolina.

A literatura encontrou, ainda, nas artes visuais uma forma de expressão pelas mãos de crianças e jovens participantes do projeto “A Arte nas Escolas – Professora Tianinha”. Os estudantes foram premiados pelas telas produzidas a partir da inspiração nos livros lançados no evento.

O trabalho ganhou um significado ainda maior porque as produções dos alunos passaram a ilustrar as capas das próprias obras. A iniciativa aproximou livro e pintura, além de permitir que os estudantes não apenas conhecessem as histórias, mas também as reinterpretassem por meio da linguagem visual.

Assim, o evento abriu espaço para que crianças e jovens deixassem de ser apenas espectadores e assumissem o papel de produtores de arte, levando seu próprio olhar para as obras literárias e para a cultura local.

A arte como experiência de vida

Entre os trabalhos expostos estava uma obra da artista plástica e professora de arte Eliânia Silva, que ilustra a capa do livro “Ateliê Amor e Sabedoria”. A publicação reúne aspectos de sua trajetória pessoal, profissional e apresenta uma artista cuja relação com a arte também está ligada à superação.

Com bom humor, ela costuma se definir como uma “jovem de 16 anos”. A brincadeira, porém, carrega uma história de vida atingida por um momento delicado. Em 2010, a artista foi diagnosticada com uma grave alteração neurológica e precisou se submeter a uma cirurgia de alta complexidade.

“Eu precisei ir a Goiânia e os médicos disseram que eu tinha algo em torno de 10% de chance de sobrevivência. Contudo, 16 anos depois, estou aqui e, por isso, digo que sou uma adolescente de 16 anos”, contou, entre risos e lágrimas.

Hoje, além de produzir suas próprias obras, Eliânia Silva ensina técnicas artísticas a crianças e jovens. Algumas dessas técnicas foram utilizadas pelos alunos do projeto “A Arte nas Escolas – Professora Tianinha”, para produzir as telas inspiradas nos livros da Bienal.

Para a artista, transmitir conhecimento por meio da arte também é uma forma de criar vínculos e transformar vidas.

“Eu adoro ver as pessoas sorrindo, alegres. Poder passar algo para as crianças, um ensinamento como este, e poder ouvir um ‘eu te amo’ é muito gratificante”, externou.

O trabalho voluntário desenvolvido ao longo dos anos, segundo ela, tornou-se uma via de mão dupla: enquanto ensina, recebe das crianças afeto e reconhecimento. Para Silva, as telas produzidas pelos estudantes representam justamente essa troca.

“Essas telas representam algo de bom que fizemos”, resumiu.

A experiência também alcançou crianças que tiveram na Bienal uma oportunidade de experimentar a arte de maneira prática. Entre elas está Theodora Lira, de nove anos, participante do projeto.

Tímida, a menina contou que considera divertido pintar e explicou que utilizou técnicas de reprodução para recriar uma das artes apresentadas na exposição. A experiência permitiu que ela tivesse contato não apenas com a pintura, mas também com os livros que serviram de inspiração para os trabalhos.

“A arte é, em uma palavra, vida”

A programação também atraiu visitantes que tiveram o primeiro contato com a bienal nesta edição. Foi o caso de Melissa Rossi, convidada por uma das escritoras participantes.

Leitora desde a infância, ela conta que não conhecia o evento, mas decidiu participar assim que recebeu o convite.

“Eu gosto de ler desde criança. Acho que deveríamos ter mais eventos como este e com mais divulgação. É o tipo de evento que só traz benefício à nossa sociedade”, disse.

Para Rossi, o potencial transformador da cultura ultrapassa os limites de uma única manifestação artística. Ela destaca a pintura, a poesia e a música como expressões capazes de provocar reflexão e modificar a maneira como as pessoas percebem o mundo.

“A arte é um instrumento de transformação social”, defendeu.

Na avaliação dela, quanto maior o incentivo da sociedade e do poder público às iniciativas culturais, maior também será a possibilidade de ampliar a consciência e produzir mudanças sociais. “Para mim, a arte é, em uma palavra, vida”, concluiu.

Leitura e construção da cidadania

A importância da Bienal para crianças, jovens e adultos também foi destacada pelo deputado Paulo Cezar Martins (PL). Para ele, o evento representa uma oportunidade de aproximar a comunidade da cultura e contribuir para a construção de uma sociedade mais participativa.

“A bienal tem um papel importante em desenvolver tanto com as crianças e jovens como com os adultos. É um momento de poder fazer a construção de uma sociedade melhor”, afirmou.

O parlamentar também ressaltou a leitura como elemento importante para o desenvolvimento do respeito e do senso crítico.

“A leitura faz parte do nosso relacionamento e é fundamental, pois traz benefícios no aspecto do respeito e do senso crítico para a sociedade”, destacou.

A palavra que permanece

A relação entre leitura, escrita e formação cidadã esteve no centro das reflexões da professora Zilda Mendonça. Para ela, escrever não significa apenas registrar acontecimentos, mas criar uma forma de fazer com que histórias, experiências e conhecimentos atravessem o tempo.

“A palavra escrita vem, de alguma maneira, para perenizar a humanidade”, afirmou.

Ela lembrou, ainda, que a escrita só alcança sua finalidade quando encontra leitores capazes de interpretar aquilo que foi registrado. Por isso, considera a leitura um instrumento essencial para compreender não apenas os livros, mas também a realidade.

A professora recorreu ao pensamento de Paulo Freire para lembrar que a leitura começa antes mesmo da escola. Desde cedo, crianças aprendem a interpretar pessoas, situações, objetos e acontecimentos ao seu redor. Essa capacidade de “ler o mundo”, segundo ela, também precisa ser reconhecida como parte do processo de formação.

A reflexão ganha novos contornos diante das transformações provocadas pelas tecnologias e pela inteligência artificial. Nesse cenário, Zilda Mendonça chama a atenção para a necessidade de preparar crianças e jovens para interpretar diferentes textos, compreender a realidade e refletir sobre a própria sociedade.

A preocupação também passa pela responsabilidade de quem escreve. Para a professora, produzir textos para diferentes públicos exige compromisso com o leitor e com aquilo que será transmitido às próximas gerações. “Leitura e escrita são instrumentos”, ressaltou.

A fala sintetiza parte da proposta que atravessou a programação da Bienal: utilizar a palavra, a arte e a educação não apenas como formas de expressão, mas como ferramentas capazes de preservar histórias, estimular o pensamento crítico e contribuir para a formação de cidadãos.

Segundo dia aproxima Bienal dos estudantes

Se o primeiro dia foi marcado por homenagens, lançamentos, exposições e encontros entre escritores e artistas, o segundo dia levou a discussão diretamente ao público que está no centro da proposta da mostra: os estudantes da rede municipal e estadual de ensino de Quirinópolis e região.

A programação começou às 8 horas, com a mesa-redonda “O poder da leitura, da escrita e do conhecimento: gerando transformações”, que reuniu a escritora Lionizia Goyá, o artista multidisciplinar Jimmy Rus, a psicanalista Fernanda Viana e as escritoras Sandra de Salles e Carol Santos.

Diante dos estudantes, Lionizia Goyá reforçou a importância das escolhas pessoais na construção do futuro. A escritora contou que passou a infância na zona rural e que, ao escolher o caminho dos estudos, teve a oportunidade de conhecer países e universidades centenárias da Europa.

A experiência serviu de exemplo para uma mensagem direcionada aos jovens: eles são protagonistas das próprias trajetórias.

“Vocês é que escolhem o que será da vida de vocês”, afirmou.

A psicanalista Fernanda Viana também provocou os estudantes ao perguntar quantos deles tinham o hábito de ler. A quantidade de alunos que se identificou como leitora surpreendeu a palestrante e serviu como ponto de partida para uma conversa sobre os benefícios da leitura.

Viana apontou, ainda, a força da produção literária regional e observou que o sudoeste goiano está entre as regiões de maior produção literária de Goiás.

Durante a conversa, a psicanalista apresentou estratégias para estimular e ampliar o hábito da leitura. Entre as sugestões, citou a participação em coletivos de leitura, a diversificação dos temas escolhidos e o acompanhamento da evolução do número de páginas lidas ao longo das semanas.

Para ela, o exercício frequente da leitura produz reflexos que ultrapassam o contato com os livros. A prática contribui para o desenvolvimento da escrita, da comunicação oral e do raciocínio crítico.

À tarde, a programação repetiu o ciclo de palestras do período matutino, debatendo a relevância da escrita e da leitura para estudantes de outras unidades educacionais.

À noite, o evento será direcionado à comunidade em geral, com uma última conferência. Mediado pelo professor Anderson Braga do Carmo, a debate gira em torno do tema “Linguagem, história e poder: compreensão sobre a escrita”. Vai abordar a escrita como um processo social e historicamente situado, interligado às estruturas de poder e à legitimação social. A exposição sublinhará a importância do letramento crítico para decifrar intenções ideológicas e apresentará a escrita como uma ferramenta essencial para a emancipação do sujeito

Literatura que atravessa gerações

Ao longo da programação, a nienal mostrou diferentes maneiras de aproximar a cultura da comunidade. A palavra escrita apareceu como registro da memória; a poesia, como forma de expressão; a pintura, como interpretação; e a leitura, como caminho para desenvolver conhecimento e senso crítico.

O encontro entre escritores, artistas, educadores e estudantes também reforçou a ideia de que preservar a cultura não significa apenas olhar para o passado. Significa oferecer às novas gerações ferramentas para compreender o presente e participar da construção do futuro.

Entre livros, poesias, pinturas e histórias de vida, a IV Bienal Regional do Livro e das Artes encontrou diferentes maneiras de reafirmar essa ideia. Se a escrita permite que uma história permaneça, a leitura possibilita que ela seja compreendida; e a arte, em suas diversas formas, cria novas maneiras de enxergar e interpretar o mundo.

Em Quirinópolis, essas três dimensões se encontraram durante o evento — nas páginas dos livros, nas telas produzidas pelos estudantes, nas poesias, nas histórias de mulheres e escritores da cidade e, sobretudo, no contato entre diferentes gerações.

 

Agência Assembleia de Notícias
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