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Alerta para doenças do fígado

23 de Julho de 2026 às 09:45
Alerta para doenças do fígado

Campanha nacional neste mês chama a atenção para conscientização, prevenção e controle das hepatites virais, muitas vezes sem sintomas, e destaca a importância da vacinação, dos testes e do tratamento precoce.

O mês de julho é marcado pela campanha nacional Julho Amarelo, uma iniciativa crucial dedicada à conscientização, prevenção e controle das hepatites virais. Criada pela Lei nº 13.802/2019 para alertar a população sobre a gravidade dessas infecções que afetam o fígado, a campanha ressalta a importância do diagnóstico precoce e da vacinação como ferramentas essenciais na luta contra essas doenças silenciosas. A relevância do Julho Amarelo para a saúde pública é inegável, especialmente ao considerar que milhões de pessoas em todo o mundo convivem com hepatites virais sem sequer saber, devido à natureza assintomática da doença em suas fases iniciais.

As hepatites são inflamações do fígado, um órgão vital responsável por funções essenciais como a desintoxicação do organismo, a produção de proteínas e o armazenamento de vitaminas. Embora possam ser causadas por diversos fatores, como o consumo excessivo de álcool, o uso de certos medicamentos, doenças autoimunes ou o acúmulo de gordura no fígado, a campanha foca especificamente nas hepatites virais, que são infecções causadas por vírus específicos.

Tipos

Existem cinco tipos principais de hepatites virais, classificadas pelas letras A, B, C, D e E, cada uma com características distintas de transmissão e evolução. A hepatite A é transmitida pela via fecal-oral, geralmente por meio de água e alimentos contaminados. A infecção costuma ser aguda e autolimitada, com recuperação completa na maioria dos casos.

A hepatite B tem sua transmissão por sangue contaminado, relações sexuais desprotegidas e de mãe para filho durante o parto. Pode evoluir para a forma crônica e é uma das principais causas de cirrose e câncer de fígado. É importante destacar que existe vacina eficaz contra a hepatite B.

Já a hepatite C é transmitida principalmente pelo contato com sangue contaminado, como em procedimentos médicos ou odontológicos realizados sem a devida esterilização, compartilhamento de agulhas e seringas e tatuagens feitas em locais sem higiene. Não possui vacina, mas há possibilidade de cura em mais de 95% dos casos com os tratamentos atuais.

No caso da hepatite D, conhecida como hepatite delta, sua ocorrência depende da presença do vírus da hepatite B. É considerada mais rara e também pode evoluir para formas graves da doença.

Por fim, a hepatite E é semelhante à hepatite A em sua forma de transmissão (fecal-oral), é mais frequente em regiões com saneamento básico precário. Geralmente é aguda e autolimitada.

A natureza silenciosa é um dos aspectos mais críticos das hepatites virais. Muitos pacientes passam 10, 20 ou até 30 anos sem apresentar sintomas evidentes. O fígado, um órgão com poucas terminações nervosas, pode sofrer inflamação e perda progressiva de função durante anos sem provocar dor ou sinais claros. Quando os sintomas finalmente aparecem, a doença já pode estar em um estágio avançado, com complicações graves como cirrose, insuficiência hepática ou câncer de fígado. Essa característica reforça a urgência do diagnóstico precoce, pois não se deve esperar pelos sintomas para procurar ajuda.

Diagnóstico precoce

A precocidade na detecção da doença é, talvez, o ponto mais importante na luta contra as hepatites virais. O diagnóstico em fases iniciais permite o tratamento adequado e evita a progressão para quadros mais graves. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece testes rápidos e exames laboratoriais para identificar a presença dos vírus. A testagem é recomendada para gestantes, profissionais da saúde, pessoas que receberam transfusão de sangue antes de 1993, usuários de drogas injetáveis, pessoas com múltiplos parceiros sexuais (vírgula retirada) e a população em geral, especialmente entre aqueles com histórico familiar ou exposição a fatores de risco.

A vacinação é uma das formas mais eficazes de prevenção contra as hepatites virais. Atualmente, as vacinas disponíveis no SUS protegem contra a hepatite A e a hepatite B. A vacina contra a hepatite B, por exemplo, é recomendada para todos os recém-nascidos, crianças, adolescentes e adultos não vacinados, além de grupos de maior risco.

A vacina contra a hepatite A é indicada para crianças e pessoas em situações de risco específico. A cobertura vacinal é fundamental para reduzir a incidência dessas doenças na população.

O tratamento das hepatites virais evoluiu significativamente. Para a hepatite A, o tratamento é de suporte, com repouso. Para a hepatite B, o tratamento visa controlar a replicação viral e a progressão da doença. Já a hepatite C, que antes era de difícil tratamento, hoje conta com medicamentos antivirais de ação direta que proporcionam taxas de cura superiores a 95%. A hepatite D é controlada com o tratamento da hepatite B. A hepatite E geralmente é autolimitada, não necessitando de tratamento específico na maioria dos casos. Essa evolução da medicina oferece esperança e qualidade de vida para milhões de pessoas.

Cenário em Goiás 

Em Goiás, o enfrentamento das hepatites virais é uma prioridade. Dados da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) indicam que, entre 2019 e 2023, foram confirmados 3.430 casos de hepatites B e C. Em 2026, o Estado registrou uma queda de aproximadamente 40% nos casos de hepatites virais nos cinco primeiros meses, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Além disso, Goiás reduziu em 60% os óbitos por hepatite C entre 2014 e 2024, um avanço significativo no enfrentamento da doença.

A SES-GO tem promovido campanhas de conscientização e ampliado o acesso a testes e vacinação em todo o Estado.

Papel do Legislativo

A Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (Alego) desempenha um papel fundamental no apoio às ações de combate às hepatites virais. Por meio de iniciativas como campanhas educativas, audiências públicas e a criação de leis que fortalecem a prevenção, o diagnóstico e o tratamento, o Legislativo goiano contribui para a saúde da população. A atuação da Alego visa garantir o fortalecimento do SUS, o acesso facilitado a exames e a ampliação da cobertura vacinal, sem transformar essas ações em mera propaganda, mas, sim, em um compromisso genuíno com o bem-estar social.

Para compreender a complexidade técnica por trás do caráter assintomático das hepatites, a Agência Assembleia de Notícias ouviu o médico patologista Rodrigo Aires de Morais, perito médico do Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor do Instituto Federal Fluminense (SIASS-IFF) e mestrando em Biociências e Biotecnologias pela Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Segundo o especialista, a descoberta tardia é uma consequência direta das características anatômicas e fisiológicas do fígado.

"Na hepatologia, existe um princípio fundamental: a ausência de sintomas não significa ausência de doença. As hepatites virais podem permanecer silenciosas por 20 a 30 anos, e justamente por isso o rastreamento é essencial", explica Morais. Ele esclarece que o tecido do fígado, tecnicamente chamado de parênquima hepático, possui uma baixa densidade de terminações nervosas. "Ou seja, o tecido do fígado praticamente não gera dor durante o processo inflamatório. A dor, quando ocorre, geralmente está relacionada ao estiramento da cápsula de Glisson, membrana que reveste o órgão e que é ricamente inervada", detalha.

O médico alerta para o perigo da evolução silenciosa, como ocorre nas hepatites B e C, onde a inflamação contínua leva à fibrogênese hepática. "Esse processo culmina na formação de fibrose avançada e, posteriormente, na cirrose hepática, quando a arquitetura normal do fígado é substituída por nódulos regenerativos e septos fibróticos, comprometendo a função do órgão", afirma.

Em casos mais graves, Morais ressalta que o primeiro sinal pode ser o desenvolvimento do carcinoma hepatocelular, o principal câncer primário do fígado.

Como estratégia de saúde pública, o médico defende a testagem ativa e periódica. "Quanto mais precoce o diagnóstico, maiores são as chances de interromper a progressão da fibrose, prevenir a cirrose e a insuficiência hepática. Atualmente, temos vacinas altamente eficazes contra a hepatite B e tratamentos antivirais capazes de curar mais de 95% dos casos de hepatite C. Não podemos esperar pela dor para agir", conclui Rodrigo Aires de Morais.

Sinais de alerta

Mesmo sendo silenciosas, em fases mais avançadas, as hepatites virais podem apresentar alguns sinais:

  • Pele e olhos amarelados (icterícia)
  • Urina escura
  • Fezes claras
  • Dor abdominal
  • Fadiga e cansaço excessivo

Quem deve fazer o teste?

  • Gestantes
  • Profissionais da saúde
  • Quem recebeu transfusão de sangue antes de 1993
  • Usuários de drogas injetáveis
  • Pessoas com múltiplos parceiros sexuais
  • Qualquer pessoa que tenha tido contato com sangue ou fluidos corporais de alguém infectado
  • População em geral, como parte de exames de rotina.

Como prevenir?

  • Vacinação contra hepatites A e B.
  • Uso de preservativos em todas as relações sexuais.
  • Não compartilhar agulhas, seringas, lâminas de barbear ou outros objetos perfurocortantes.
  • Exigir materiais esterilizados em estúdios de tatuagem e piercing.
  • Consumir água tratada e alimentos bem lavados e cozidos.
  • Realizar exames de rotina e testagem para hepatites virais.
Agência Assembleia de Notícias
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