Escolha pela vida
Quase 50 mil pessoas aguardam na fila de transplantes no Brasil. Anualmente, a campanha Setembro Verde destaca a importância da doação de órgãos. Iniciativas do Parlamento goiano incentivam esse ato solidário.
Uma fila de esperança, muitas vezes, a última. Esperança essa que, por vezes, torna-se desespero. Segundo o Sistema Nacional de Transplantes (SNT), no Brasil, cerca de 49 mil e 500 pessoas estão aguardando essa nova chance de vida. E a possibilidade depende, unicamente, de uma decisão que não pertence a quem espera, mas a terceiros.
Para tentar esclarecer e sensibilizar sobre a importância da doação de órgãos, desde 2014, a campanha nacional Setembro Verde traz o assunto à tona. O mês foi escolhido em referência ao Dia Nacional de Doação de Órgãos, instituído legalmente como 27 de setembro.
A maioria dos pacientes na fila de transplantes aguarda por um rim, conforme dados do SNT. A lista segue com fígado, coração, pâncreas e rim, pulmão, pâncreas e multivisceral.
De acordo com o Relatório Brasileiro de Transplantes, no ano passado, o Brasil bateu o seu recorde histórico de transplantes de órgãos e tecidos, foram mais de 31 mil procedimentos. Ainda assim, o resultado é insuficiente para atender a todos que esperam, às vezes, por anos, por uma doação que pode significar a diferença entre a vida e a morte.
Nos casos de constatação de morte encefálica, tanto o SNT quanto a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) apontam a recusa das famílias em autorizar a doação como o principal entrave para que a quantidade de transplantes aumente no país. Segundo os dados das entidades, cerca de 45% das famílias decidem de forma negativa. Uma taxa bem acima da média mundial, 25%.
Panorama goiano
Segundo a gerente da Central Estadual de Transplantes da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO), Katiúscia Christiane Freitas, no final do mês de agosto deste ano, Goiás tinha 2.537 pacientes ativos na lista de espera para transplante. A maior demanda é por córneas, com 1.808 pessoas aguardando, seguida pelo rim, com 719 casos. Além disso, sete pessoas esperam por um fígado e três por um transplante simultâneo de pâncreas-rim.
Freitas afirma que é importante fazer a diferenciação entre órgãos e tecidos para que não haja confusão nas estatísticas. “A córnea é um tecido, enquanto rim, fígado e pâncreas são órgãos. Portanto, quando falamos especificamente em transplante de órgãos, o rim é o mais demandado em Goiás. Considerando órgãos e tecidos, a maior lista de espera é a de córnea”.
Quanto ao número de transplantes realizados, felizmente, Goiás segue a tendência nacional e vem avançando ao longo dos anos. A representante da SES-GO explica que a comparação entre períodos equivalentes mostra uma importante evolução. “De janeiro a agosto de 2025, Goiás realizou 563 procedimentos. No mesmo período de 2026, foram 699, um crescimento de aproximadamente 24%”.
Segundo ela, esse aumento foi puxado principalmente pelos transplantes de córnea, que passaram de 371 para 509 de um ano para o outro, e pelos transplantes de medula óssea, que saltaram de 58 em 2025 para 74 em 2026.
Negativa das famílias também é o maior entrave em Goiás
De acordo com a gerente da Central Estadual de Transplantes, a recusa familiar é um dos principais desafios para o aumento das doações. Vários motivos levam os parentes dos pacientes à decisão negativa, detalha Freitas. Entre eles, ela cita o desconhecimento da vontade do potencial doador, questões religiosas, desejo de manter o corpo íntegro e a demora no processo.
A dificuldade de compreensão sobre a morte encefálica por grande parte da sociedade é apontada como outro ponto-chave. Para contornar essa barreira, a Secretaria vem investindo em treinamentos com as equipes hospitalares, no sentido de melhorar o acolhimento e a comunicação efetiva com as famílias. “Para uma família que está vivendo um momento de choque e luto, pode ser difícil compreender que aquela pessoa morreu. Mas a morte encefálica é a perda completa e irreversível das funções encefálicas e significa, legal e clinicamente, a morte da pessoa”, conta.
Segundo Katiúscia Freitas, após a constatação desse tipo de morte, a comunicação à família é conduzida por equipes especificamente treinadas. São feitos esclarecimentos sobre o diagnóstico de morte encefálica e a família tem toda abertura para tirar dúvidas. “Depois, no momento adequado, profissionais capacitados apresentam a possibilidade da doação, explicam quais órgãos e tecidos podem ser doados, como será realizado o procedimento e esclarecem todas as dúvidas para que a família possa tomar uma decisão de forma livre e esclarecida”.
Quando a família autoriza, tem início uma grande operação coordenada pela Central Estadual de Transplantes. É necessário realizar desde a avaliação do doador, passando pela oferta aos receptores inscritos no SNT e pela mobilização das equipes cirúrgicas até o desenvolvimento da logística de transporte, captação e, por fim, o transplante em si.
Esse processo tem particularidades para cada órgão captado. Segundo a gerente da Central de Transplantes, um dos grandes desafios é o tempo. Depois da retirada, existe um período limitado para que o órgão seja implantado no receptor. “O coração, por exemplo, tem tempo de isquemia em torno de quatro horas; o pulmão, de quatro a seis horas; o fígado, cerca de 12 horas; e o rim pode chegar a 36 horas. Isso exige uma logística extremamente coordenada”.
Em Goiás, são realizados transplantes de rins, fígado, medula óssea, pâncreas e transplantes duplos de pâncreas-rim. O Hospital Estadual Dr. Alberto Rassi (HGG) é a principal unidade de saúde. O Estado ainda não realiza procedimentos de coração e pulmão, mas participa da captação desses órgãos, que são destinados, principalmente, para São Paulo e para o Distrito Federal.
Katiúscia Freitas acrescenta que, após os transplantes, a Central não participa mais do processo e cada paciente é acompanhado pelas equipes transplantadoras responsáveis pelo receptor. Por isso, a gerência não tem dados sobre os resultados pós-procedimento. Mas ela assegura que os avanços na medicina e no acompanhamento dos pacientes têm proporcionado resultados cada vez melhores. “E o transplante vai muito além da sobrevida: ele pode devolver autonomia, qualidade de vida e a possibilidade de retomar projetos, convívio familiar e atividades que muitas vezes foram interrompidas pela doença. São pessoas que têm suas vidas transformadas pela oportunidade de um transplante”, afirma a gerente.
Doadores vivos
Em alguns casos específicos e seguindo critérios bem rigorosos, a doação pode ser feita por uma pessoa viva. De acordo com a Katiúscia Freitas, a possibilidade abrange um dos rins, parte do fígado, parte do pulmão e A medula óssea.
Um doador vivo precisa ser uma pessoa juridicamente capaz, em boas condições de saúde, que concorde livremente com a doação e cuja retirada do órgão ou parte dele não represente prejuízo significativo à sua própria saúde. “Pela legislação, parentes até o quarto grau e cônjuges podem realizar a doação em vida, observados todos os critérios médicos e legais. Quando não há parentesco, a doação de órgãos depende de autorização judicial”.
Setembro Verde na Assembleia Legislativa
Neste ano, a Comissão de Direitos Humanos, Cidadania e Legislação Participativa da Assembleia Legislativa está desenvolvendo uma campanha de conscientização. O conteúdo foca, especialmente, na recusa das famílias em autorizar a doação, esclarecendo que no Brasil, a retirada de órgãos de pacientes com morte encefálica, depende, expressamente, da autorização dos familiares.
Orienta-se, conforme preconizado pelo Ministério da Saúde, que todas as pessoas precisam comunicar a família sobre o desejo de ser doador. O material destaca, ainda, que apesar da decisão final ser única e exclusivamente da família, quem deseja ser doador pode deixar a intenção registrada oficialmente por meio da Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (Aedo).
Criado há dois anos pelos Cartórios de Notas e regulamentado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o cadastro é gratuito e permite que a pessoa selecione quais órgãos deseja doar. O registro fica disponível no SNT, o que facilita o compartilhamento da informação com médicos e autoridades. Manifestado formalmente, o desejo da pessoa pode facilitar a decisão dos familiares.
De forma geral, a iniciativa da Comissão de Direitos Humanos informa sobre o processo de doação e retirada de órgãos, o encaminhamento para transplantes, o acolhimento às famílias dos pacientes aptos à doação e o funcionamento a fila de transplantes. O material será divulgado nos portais da Casa e na intranet. Além disso, haverá distribuição para o público que frequenta o Palácio Maguito Vilela.
Projetos de lei
Propostas em tramitação na Assembleia Legislativa de Goiás também reforçam o Setembro Verde. É o caso do projeto de lei nº 24752/25, do deputado Antônio Gomide (PT), que prevê a instituição do Dia Estadual do Doador de Órgãos e Tecidos para Transplantes, a ser comemorado, anualmente, em 23 de novembro. A data faz alusão ao marco histórico de 2023, quando Goiás registrou 91 doadores, o maior número de casos efetivados de sua história.
A iniciativa tem como propósito reconhecer tanto o legado dos doadores e o impacto positivo em vidas salvas quanto a atitude de amor ao próximo das famílias que autorizam a doação de órgãos e tecidos. A realização de cerimônias públicas de homenagem com entrega de certificados é um dos exemplos de medidas propostas para destacar a relevância social e humanitária do gesto de solidariedade.
Segundo o parlamentar, estabelecer um dia específico para a homenagem doadores e familiares transcende o mero caráter de campanha educativa, pois busca instituir um momento oficial de reconhecimento, valorização e memória. A matéria está em análise na Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJR) e foi distribuído ao deputado Dr. George Morais (MDB) para relatoria.
Outro projeto de lei sobre o tema que tramita no Parlamento goiano sugere tornar obrigatória a divulgação de mensagens educativas sobre a doação de órgãos e tecidos nas embalagens de alimentos comercializados em Goiás.
Em sua justificativa, o deputado Talles Barreto (UB), autor do texto, explica que a ideia é conscientizar a população sobre a importância do ato, fortalecendo a cultura da solidariedade e da vida. O legislador argumenta que a insuficiência de informações claras e acessíveis está associada à demora da fila de transplantes.
Protocolada com o número 3486/26, a proposta aguarda relatório do deputado Cairo Salim (MDB) na Comissão de Defesa dos Direitos do Consumidor.
O sim que salva vidas
Se grande parte das famílias ainda reluta nessa escolha, outras têm compreendido que a autorização pode ser um recomeço para outras pessoas. Foi o que aconteceu com os familiares do casal Neifa Freitas de Farias Alves e Fábio Alves Barbosa, que permitiu a doação dos órgãos e tecidos de ambos.
Neifa era cuidadora de idosos e, na manhã do dia 16 de agosto deste ano, dirigia-se para mais um dia de trabalho. Era um domingo, e o marido, Fábio Alves, a levava, de moto. Eles seguiam pelas ruas de Goiânia quando, em um cruzamento, um adolescente de 17 anos furou o sinal vermelho e bateu no veículo do casal. O teste realizado no local da batida comprovou que o jovem, que dirigia sem o conhecimento dos pais, estava embriagado.
Flávio e Neifa foram levados em estado grave para o Hospital de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol). Ela faleceu quatro dias depois do acidente, e esse foi o momento do primeiro “sim” da família. Cuidadora por profissão, Neifa pôde ajudar outras pessoas mesmo depois de partir, com a doação de suas córneas e de seus rins.
No dia 25 de agosto, Fábio também não resistiu à gravidade dos ferimentos. Mais uma vez, os parentes autorizaram a doação. No caso dele, além dos rins e das córneas, do fígado.
A sobrinha do casal, Amanda Freitas Sotini, afirma que tomar essa decisão, em um momento de tanta dor, não foi fácil, mas que os familiares compreenderam que foi um gesto de amor e de solidariedade. “É muito difícil falar sobre isso sem falar da dor. Nós perdemos duas pessoas muito importantes, e nada é capaz de diminuir a saudade ou mudar o que aconteceu. Mas, ao mesmo tempo, existe um sentimento de conforto em saber que, em meio a uma tragédia tão grande, outras pessoas puderam receber esperança”, diz ela.
Os profissionais da unidade hospitalar informaram à família que as doações podem ter ajudado até oito pessoas.
A corretora de imóveis completa que foi uma forma de transformar um pouco da dor em vida. “Saber que partes deles puderam continuar ajudando outras pessoas faz com que a história deles não termine apenas na tragédia que tirou suas vidas”.
A jovem fez questão de deixar um recado para as famílias que estão passando pelo mesmo momento que eles viveram há tão pouco tempo: “Eles partiram, mas deixaram vida. E acho que essa é a mensagem que queremos deixar neste Dia Nacional de Doação de Órgãos: mesmo diante da maior dor, ainda é possível escolher a esperança e permitir que outras famílias tenham a chance de continuar suas histórias”.
Katiúscia Freitas, da Central de Transplantes, orienta: “Talvez a informação mais importante seja que a decisão de ser doador precisa ser compartilhada com a família. Essa conversa deve acontecer dentro de casa, de forma natural, enquanto estamos vivos e bem (...) após a morte, quem autoriza é a família. Por isso, dizer para quem amamos ‘eu quero ser doador’ é tão importante. Nossa principal orientação é que as pessoas conversem em casa e manifestem claramente esse desejo”.