Imprensa e a Assembleia Legislativa
Plenário da Assembleia Legislativa de Goiás, 22 de junho de 1980, Governo de Ary Valadão (PDS), récem-nomeado pelo então presidente da República, Ernesto Geisel. O deputado Mauro Borges Júnior (PMDB), agrônomo formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG), usa o horário destinado às breves comunicações, o chamado “pinga-fogo”, para tecer comentários sobre o Projeto de Irrigação Rio Formoso, que estava sendo implantado no Médio Norte Goiano.
O discurso de Mauro foi mais técnico do que político, mas contou com um ingrediente explosivo, que extrapolou a cobertura rotineira das atividades do Parlamento: tudo foi documentado ao vivo pela repórter Francesca de Oliveira, da TV Anhanguera, que tinha sido pautada para ouvir as versões dos representantes da oposição e do Governo sobre o polêmico projeto.
Concluído o pronunciamento, o filho do ex-governador Mauro Borges dirige-se à sala do cafezinho, que ficava atrás da Mesa Diretora. De lá, através do serviço de som, ele escuta o deputado Heli Dourado (PDS) reivindicar o direito de resposta e retorna imediatamente ao plenário. Ao passar pela tribuna de oposição, Maurinho, como era chamado, deu uma paradinha para ouvir os argumentos do parlamentar governista. Não foi exatamente o que queria ouvir. Microfone em punho, Dourado deixou de lado os considerandos e partiu para os principalmentes, como diria o folclórico Odorico Paraguassu, personagem de Paulo Gracindo na novela "O Bem Amado", de saudosa memória.
Sem meias palavras e exercitando toda a sua experiência como advogado diplomado pela Faculdade de Direito do Distrito Federal, Heli Dourado foi curto e grosso: “Senhor presidente, as afirmações dessa gorda oriunda da dinastia dos Ludovico não correspondem à realidade. Se existe algum problema...”
Neste instante, já com a câmera da TV Anhanguera ligada à sua frente, Dourado recebeu socos e mais socos, além de alguns pescoções. É verdade que ele conseguiu revidar alguns golpes, aplicando sopapos e torniquetes, mas não fosse a providencial interferência da turma do "deixa-disso", composta pelos deputados Clarismar Fernandes, Derval de Paiva, Turmim Azevedo, Waterloo Araújo, Wolney Siqueira, Línio de Paiva, Genésio de Barros, Costa Lima e Jamil Miguel, a coisa poderia ter um desfecho imprevisível.
Cinzeiro voador
Enfim, o estrago estava feito. Um cinzeiro de vidro voou pelos ares e alguns estilhaços atingiram o jornalista Helvécio Cardoso, provocando um pequeno sangramento no nariz. A confusão foi generalizada e tudo registrado ao vivo e a cores. Meia hora depois, serenados os ânimos, o plenário virou palco de rodinhas formadas por deputados e jornalistas. Resumo deste faroeste tupiniquim: a briga chegou ao Programa "Fantástico", da Rede Globo, com a seguinte manchete: “Deputados brigam na Assembleia de Goiás.”
Esse quiproquó, vale repetir, foi registrado em 1980. Só está sendo recontado agora, 38 anos depois, com toda essa riqueza de detalhes, graças à boa memória do jornalista Ivan Mendonça, que à época fazia a cobertura da Assembleia Legislativa para o jornal "Diário da Manhã". Naquele dia, segundo ele, a sessão estava sendo acompanhada também, além de Francesca de Oliveira, pelos jornalistas Armando Accioli, de "O Popular"; Odair José, o “Passarinho”, da "Folha de Goiaz", além de Valterli Guedes, Francisco Carbureto, Luiz Pires, Pitta Júnior e o próprio Helvécio Cardoso, que precisou de um atendimento no ambulatório que funcionava do lado de fora do Palácio Alfredo Nasser.
Naquela época, lembra Ivan Mendonça, a bancada de imprensa ficava dentro do plenário, o que facilitava o contato do jornalista com os deputados, além do livre acesso às mensagens do Governo, projetos de lei de origem parlamentar e requerimentos administrativos. Qualquer dúvida, bastava um aceno e tudo estava esclarecido.
Essa comodidade na relação imprensa/parlamento foi usufruída também por diversos outros jornalistas e radialistas goianos, ao longo dos tempos, tais como Haroldo de Brito, Domiciano de Faria, Eliezer Penna, José Asmar, Reynaldo Rocha, Divina Marques, Luiz Carlos Bordoni, Fleurymar de Souza, Helton Lenine, Lucy Jane, Divino Olávio, Sirley Camilo, Antônio Ribeiro dos Santos, Lorimá “Mazinho” Dionísio, Libório Santos, Mara Moreira, Luiz Augusto da Paz, Altair Tavares, Luiz Spada, Nélia Del Bianco, Afonso Lopes, Vassil Oliveira, João Carvalho, Cileide Alves, Marcos Cipriano, João Nascimento, Maria José Braga e, mais recentemente, Heloísa Lima, Rubens Salomão, Fabiana Pulcineli, Marcos Nunes Carreiro e tantos outros.
Denuncismo
É claro que, com o passar dos tempos, surgiu o denuncismo e a generalização dos erros políticos, sem contar o questionamento em relação à conduta da própria imprensa em sua função de fiscalizar e exigir comportamento ético de quem assume cargo público ou se utiliza de verbas carimbadas. Há parlamentares que acham que os jornalistas dão mais destaques aos problemas e desvios dos políticos, enquanto os aspectos positivos são jogados para escanteio. Essa é outra história, mas é preciso destacar que a bancada de imprensa, preservada até hoje no plenário da Assembleia Legislativa de Goiás, foi muito importante para garantir uma boa relação entre jornalistas e deputados, além de preservar a liberdade de expressão sem deixar de lado a defesa das prerrogativas parlamentares.
Hoje, independentemente da explosão das redes sociais, dá para perceber claramente que as funções da imprensa e do Parlamento em uma sociedade democrática são completamente diferentes, porém são complementares. Sem imprensa livre, protegida constitucionalmente inclusive quando erra, não há sociedade democrática.
Sem um Parlamento que seja capaz de traduzir honestamente a opinião pública em lei que vincula a todos, não haverá Estado que possa funcionar. Os jornalistas goianos têm sido parceiros da sociedade ao cobrir os fatos do Parlamento, sejam estes positivos ou negativos.
Está em exibição no canal 8, na NET, e, no aberto, na frequência 61.2, além do canal no YouTube programa especial sobre a atuação na imprensa, produzido pela TV Assembleia.