Ícone alego digital Ícone alego digital

O poder da amizade

17 de Julho de 2026 às 09:00
O poder da amizade

A ciência comprovou o que a sabedoria popular já sabia: amizade é remédio para a saúde mental. As relações protegem contra a ansiedade, depressão e solidão, e podem ser tão importantes para a longevidade quanto não fumar.

Neste mês em que se celebra o Dia do Amigo, em 20 de julho, e o Dia Internacional da Amizade, no dia 30, especialistas são categóricos em afirmar que cultivar amizades não é luxo emocional, é necessidade de saúde pública que deve ser colocada na vida como prioridade, pois a construção do sujeito humano está condicionada ao nosso desejo mais profundo e inato de estabelecer conexões. 

Segundo o ditado popular, "quem tem um amigo, tem tudo". A ciência, cada vez mais, dá razão ao dito observando estudos conduzidos nas últimas duas décadas em universidades americanas. Os dados levantados apontam que relações de amizade sólidas funcionam como um verdadeiro escudo protetor da saúde mental, reduzindo o risco de depressão, ansiedade e demência, além de impactar diretamente a expectativa de vida. 

Desde 1938, o maior estudo sobre a vida humana, denominado Harvard Study of Adult Development (Estudo sobre o Desenvolvimento Adulto de Harvard), acompanhou gerações de participantes ao longo da vida. Sob a coordenação dos psiquiatras Robert Waldinger e Marc Schulz, os resultados, reunidos no livro "The Good Life" (Uma Vida Boa), publicado no Brasil em 2023, apontam repetidamente para a mesma direção: a qualidade dos relacionamentos, mais do que dinheiro, fama ou sucesso profissional, é o principal preditor de felicidade e saúde na vida adulta.

A conclusão foi contundente ao mostrar que indivíduos com laços sociais mais fortes têm cerca de 50% mais chances de sobreviver, ao longo do tempo, em comparação com quem tem vínculos frágeis — um impacto na mortalidade comparável ao de parar de fumar, e superior ao de fatores de risco bem estabelecidos, como obesidade e sedentarismo.

Entretanto, a modernidade trouxe muitos desafios na construção dos vínculos duradouros, reconhecendo que dentre seus pilares está a convivência mais estreita que requer tempo e uma certa constância para que a amizade, ancorada num vínculo profundo, enfim floresça. Mas quem, atualmente, está disposto a empregar seu tempo em algo que oferece um retorno duvidoso e que não pode ser medido por nenhuma régua? 

Psicanalista

Para tratar deste assunto, a equipe de reportagem da Agência de Notícias da Assembleia Legislativa de Goiás entrevistou a psicóloga e psicanalista Úrsula Meireles Nasser. Ela avaliou que, ao longo do tempo, o ser humano evolui fazendo parte de uma comunidade, forjando laços e compartilhando experiências de vida. Entretanto, nos dias atuais, alguns hábitos tornam mais difícil o cultivo de relações duradouras.

A psicanalista pontuou que “perdemos muitos dos espaços onde as amizades nasciam naturalmente. As pessoas já não varrem as calçadas no fim da tarde enquanto conversam com os vizinhos, as crianças brincam menos nas ruas, as visitas inesperadas se tornaram raras e até o tempo para uma conversa sem pressa parece cada vez mais escasso. A vida passou a ser vivida em ritmo acelerado, entre compromissos, telas e notificações”, observou Nasser.

Úrsula Nasser também destacou que muitas vezes confundimos conexão com vínculo, pois ter centenas de seguidores, contatos e curtidas não significa ter pessoas com quem possamos compartilhar nossas dores, nossos medos e nossas alegrias mais profundas. “A tecnologia aproxima quem está longe, mas, às vezes, afasta quem está perto”.

Conforme ponderou a profissional, uma amizade demanda presença de ambas as partes, ela se constrói na convivência exercida ao longo do tempo, de encontros repetidos, da possibilidade de suportar diferenças, frustrações e conflitos. É justamente essa continuidade que permite que um vínculo se torne profundo.

“Talvez o maior desafio da atualidade não seja encontrar pessoas, mas criar tempo e espaço para permanecer com elas. Em uma cultura marcada pela velocidade e pelo descarte, cultivar uma amizade verdadeira tornou-se um gesto de resistência e um investimento precioso na nossa saúde”, completou Úrsula Nasser.

Questionada sobre como as conexões digitais e o excesso de telas podem afetar a  proximidade entre as pessoas, a psicanalista revelou que as tecnologias não são, em si, um problema. Elas aproximam pessoas que estão distantes, ajudam a manter vínculos e, em muitos casos, possibilitam encontros que talvez nunca acontecessem presencialmente. A questão é quando passamos a acreditar que conexão é a mesma coisa que intimidade.

“A amizade se ancora em algo que nenhuma tecnologia consegue substituir completamente: a presença. E presença não significa apenas estar fisicamente ao lado de alguém, mas oferecer atenção, escuta, tempo e disponibilidade afetiva. São as conversas longas, os silêncios compartilhados, os desencontros, as reconciliações e até os conflitos que aprofundam uma relação”, ensinou Úrsula Meireles Nasser.

Nasser alertou para um hábito que tem se tornando cada dia mais frequente na vida contemporânea. “Estamos permanentemente conectados, mas cada vez menos disponíveis na interação com o outro, pois as notificações fragmentam a atenção, interrompem conversas e, muitas vezes, mesmo diante de alguém estamos de olho na tela. Isso cria a impressão de que estamos em contato com muitas pessoas, quando, na verdade, estamos dedicando pouca presença a cada uma delas".

Entretanto, a psicanalista lembrou que nenhuma amizade se torna profunda apenas pela frequência das mensagens trocadas, mas pela qualidade da presença que conseguimos oferecer, pois somente o encontro genuíno é capaz de construir intimidade, confiança e pertencimento. Segundo ela, o desafio não é abandonar a tecnologia, mas fazer dela uma ponte, e não um substituto das relações humanas. 

Aposentadoria 

Durante a conversa, a psicanalista também abriu um parêntese para analisar a importância do contato humano na terceira idade, período em que permanece a necessidade de amar, de ser lembrado, de pertencer e de compartilhar a vida, pois envelhecer não é desaparecer, mas progredir escrevendo a própria história, ainda que seja em um outro ritmo. 

Conforme orientou Úrsula Nasser, o ideal é que haja uma preparação para a aposentadoria, não apenas na área das finanças, mas também da vida social e da vida afetiva, entendendo ser esta uma transição extremamente importante, pois muitas vezes, o maior desafio não é deixar de trabalhar, mas descobrir quem somos quando deixamos de ocupar aquele lugar profissional que nos acompanhou por tantos anos.

A psicanalista explicou que o trabalho organiza nossos dias, nossas relações e, em certa medida, nossa identidade. Por isso, antes que chegue a aposentadoria, o indivíduo deve começar a investir em outros espaços de pertencimento: cultivar amizades, fortalecer os vínculos familiares, participar de grupos, desenvolver interesses, aprender coisas novas e manter projetos que despertem desejo.

“A aposentadoria pode ser encarada de forma mais leve se o indivíduo estiver aberto a novas experiências, compreendendo ser este um momento de reorganizar a vida, descobrindo novas possibilidades para investir sua energia, seu afeto e seu desejo”, descreveu a profissional. 

Nasser descreveu que talvez a recomendação mais importante é não esperar a aposentadoria para construir vínculos já que começamos a envelhecer desde o dia em que nascemos. “Amigos não se improvisam quando a solidão chega. Eles são cultivados ao longo do tempo, nos pequenos encontros, nas conversas, nas lembranças compartilhadas e na presença constante”. 

Ao finalizar, ela assegurou que aqueles que chegam à aposentadoria cercado por relações significativas não levam apenas pessoas consigo, levam uma história que continua sendo contada por muitos olhares. Afinal, aposentar-se é deixar uma função, mas sem deixar de ter um lugar no mundo. Enquanto continuarmos encontrando pessoas, projetos e motivos para desejar o dia seguinte, a vida continuará oferecendo novas possibilidades de sentido.

Agência Assembleia de Notícias - Repórter - Ana Cristina Fagundes Krebs
Compartilhar

Nós usamos cookies para melhorar sua experiência de navegação no portal. Ao utilizar você concorda com a política de monitoramento de cookies. Para ter mais informações sobre como isso é feito, acesse nossa política de privacidade. Se você concorda, clique em ESTOU CIENTE.