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Transtorno do jogo

04 de Setembro de 2026 às 16:00
Transtorno do jogo

Estudos revelam que busca por renda extra e promessa de dinheiro rápido ajudam a explicar a expansão das apostas online. Endividamento, vício e conflitos familiares colocam o tema no campo da saúde pública e mobilizam a Alego. 

Uma aposta no celular pode começar como diversão, curiosidade ou tentativa de conseguir algum dinheiro extra. Para parte dos brasileiros, porém, o hábito assume outro significado e vira esperança de pagar uma conta, completar a renda ou até mudar de vida. E é justamente nesse ponto, quando a aposta passa a ocupar espaço no planejamento financeiro e no orçamento doméstico, que cresce o risco de uma relação problemática com o jogo.

Um estudo inédito divulgado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), neste mês de setembro, ajuda a compreender o que existe por trás desse comportamento. A pesquisa “Aposta Online no Brasil: perfis de uso, jornadas e padrões de comportamento” investigou não apenas quanto ou com que frequência as pessoas apostam, mas por que fazem isso e qual papel as bets passaram a ocupar em suas vidas.

Realizado em parceria com a consultoria Kyvo, o levantamento qualitativo ouviu, em 2025, 60 apostadores e ex-apostadores de todas as regiões do país. O trabalho reuniu entrevistas em profundidade, grupos focais, análise do ambiente digital, monitoramento de redes sociais, entrevistas com profissionais do mercado financeiro e workshops de cocriação. Mais de 720 páginas de transcrições foram analisadas.

O resultado revela um universo mais complexo do que a simples busca por entretenimento. Para algumas pessoas, apostar significa tentar colocar comida na mesa. Para outras, representa a expectativa de complementar a renda. Há, ainda, quem veja no jogo a possibilidade de enriquecimento ou simplesmente uma fonte de emoção e diversão.

Quatro maneiras de enxergar a aposta

A Anbima identificou quatro perfis principais. Os chamados “matadores de leões” recorrem às apostas principalmente em períodos de dificuldade financeira. Os “adeptos da fortuna” enxergam na sorte uma possibilidade de transformação da própria vida. Já os “experts da realidade” acreditam que conhecimento, método e estratégia podem ser utilizados para obter renda complementar. Por fim, os “caçadores de emoções” são movidos principalmente pelo entretenimento.

As categorias não funcionam como rótulos permanentes. Uma mesma pessoa pode mudar sua relação com as apostas ao longo do tempo e atravessar períodos de maior envolvimento, tentativas de controle, interrupções e retornos.

Um comportamento que merece atenção especial é o início de tentativas de recuperar perdas por meio de novas apostas. Entre os depoimentos reunidos pela pesquisa, aparece justamente essa lógica: depois de perder, o apostador pode continuar jogando na expectativa de recuperar o dinheiro. Esse mecanismo pode transformar uma perda inicialmente limitada em comprometimento crescente do orçamento.

Aposta não é investimento

Outro achado chama atenção pela relação direta com a educação financeira. A linguagem utilizada por parte dos apostadores se aproxima daquela encontrada no mercado financeiro. Termos como “estratégia”, “retorno”, “método” e “rendimento” aparecem nas conversas sobre apostas.

A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa também realizada pela Anbima em parceria com o Datafolha, mostra que 20% dos apostadores consideram as apostas uma forma de investimento. A própria associação, entretanto, ressalta uma diferença fundamental entre as duas práticas.

Na comparação apresentada pela Anbima, o investimento envolve planejamento, avaliação de risco, horizonte de tempo e possibilidade de formação de patrimônio. Na aposta, o dinheiro é colocado em um resultado incerto, sujeito ao acaso, sem a finalidade de construção patrimonial de longo prazo.

O mesmo Raio X mostra o avanço das bets. Em 2025, 17% da população pesquisada declarou ter realizado apostas on-line, ante 15% no ano anterior e 14% em 2023. Entre os apostadores, 37% disseram gastar R$ 100 ou mais por mês. O perfil encontrado pelo levantamento é predominantemente masculino e mais jovem: 66% são homens, e a idade média é de 35 anos.

A confusão entre aposta e investimento torna-se ainda mais relevante quando o jogo surge como resposta a dificuldades financeiras. Em vez de constituir uma estratégia para reorganizar o orçamento, a tentativa de obter dinheiro rapidamente pode ampliar justamente o problema que levou a pessoa a apostar.

“As apostas passaram a ocupar um espaço relevante na vida financeira de parte da população. Quanto mais entendermos as motivações e os contextos por trás desse comportamento, maior será a capacidade de desenvolver ações educativas que dialoguem com a realidade das pessoas”, afirma Marcelo Billi, superintendente de Sustentabilidade, Inovação e Educação da Anbima.

Quando a conta chega dentro de casa

O impacto das apostas não se limita ao apostador. A pesquisa “Mulheres & Bets: o Custo das Apostas Online para as Brasileiras e suas Famílias”, desenvolvida pelo estúdio Clarice em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa Ideia, oferece outra perspectiva sobre o fenômeno.

O levantamento aponta que 42% das mulheres brasileiras já apostaram ou apostam atualmente, enquanto outros 12% nunca apostaram, mas são diretamente impactadas por alguém próximo que joga. Assim, mais da metade das mulheres pesquisadas, 54%, convive direta ou indiretamente com as bets.

Entre elas, a motivação financeira aparece com força. Busca por renda extra, dinheiro rápido, pagamento de despesas básicas e quitação de dívidas estão entre as razões apresentadas para apostar.

Contudo, a perda financeira pode ser apenas a face mais visível do problema. O levantamento também identificou desgaste emocional, quebra de confiança e conflitos familiares. Para 67% das mulheres entrevistadas, as apostas on-line estão prejudicando as famílias brasileiras, percepção semelhante à manifestada por 59% dos homens. Além disso, 23% dos brasileiros ouvidos disseram conhecer ou ter presenciado alguma situação em que as apostas contribuíram para episódios de violência dentro da família.

Os números ajudam a mostrar por que a discussão deixou de ser exclusivamente financeira ou regulatória. Quando o dinheiro destinado às despesas da casa migra para plataformas de apostas, as consequências podem alcançar alimentação, contas, relacionamentos e saúde mental.

Quando jogar se transforma em transtorno

Nem toda pessoa que aposta desenvolve dependência. O sinal de alerta está sobretudo na perda de controle e nos prejuízos provocados pelo comportamento.

O transtorno do jogo, também conhecido como jogo patológico ou ludopatia, é reconhecido como transtorno de comportamento aditivo. Entre os sinais que podem aparecer estão dificuldade persistente para reduzir ou abandonar as apostas, preocupação constante com o jogo, tentativas de recuperar perdas por meio de novas apostas, irritabilidade ao tentar parar, mentiras para esconder o comportamento e comprometimento das relações familiares, profissionais e financeiras.

Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas – Lenad III, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), estimam que cerca de 10,9 milhões de pessoas, ou 7,3% da população brasileira com 14 anos ou mais, apresentem padrão classificado como jogo de risco ou transtorno do jogo. Dentro desse contingente, aproximadamente 1,4 milhão preencheria critérios clínicos para transtorno do jogo.

O levantamento também acende um alerta para o ambiente digital. Entre as pessoas que utilizam plataformas on-line para apostar, 66,8% apresentam indicação de jogo de risco ou problemático, ante 26,8% entre apostadores de outras modalidades.

O ambiente digital amplia a disponibilidade das apostas. Diferentemente de modalidades tradicionais, as plataformas podem ser acessadas pelo celular 24 horas por dia e utilizam recursos como notificações, bônus, recompensas e apostas em tempo real, características que o Ministério da Saúde associa à possibilidade de permanência e repetição da prática.

Há tratamento pelo SUS

Quando a aposta foge do controle, procurar ajuda é uma medida de saúde.

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento às pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e também a seus familiares. A porta de entrada pode ser uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Quando necessário, a pessoa pode ser encaminhada à Rede de Atenção Psicossocial, inclusive aos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), onde pode receber acompanhamento multiprofissional.

Desde 4 de agosto, o SUS ampliou para até 100 mil teleatendimentos mensais a capacidade do serviço destinado a pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas. O atendimento é remoto e sigiloso e inclui suporte aos familiares. As consultas psicológicas são realizadas por videochamada e podem integrar ciclos de acompanhamento antes de nova avaliação profissional.

O acesso pode ser iniciado pelo Meu SUS Digital. Na área destinada a problemas com jogos e apostas, o usuário encontra um autoteste e, conforme o resultado, pode ser direcionado ao teleatendimento ou receber orientação para procurar serviços da rede pública. O próprio Ministério da Saúde ressalta que o teste não substitui avaliação profissional.

Outra possibilidade é a autoexclusão, ferramenta do Governo Federal que permite ao próprio apostador solicitar o bloqueio de seu acesso às plataformas autorizadas, impedir o recebimento de publicidade relacionada às apostas e restringir a utilização de contas vinculadas ao CPF durante o período escolhido.

Tema é objeto de iniciativas na Alego

A expansão das apostas também vem provocando respostas no Poder Legislativo goiano. Nos últimos anos, deputados estaduais apresentaram iniciativas que tratam desde publicidade e educação financeira até prevenção da dependência e atendimento às pessoas com problemas relacionados ao jogo.

Uma das primeiras proposituras a se transformar em norma foi publicada como Lei Estadual nº 23.108, de 26 de novembro de 2024, originada do projeto que tramita no processo nº 6625/23, do deputado Wilde Cambão (UB). A legislação proíbe a publicidade, por influenciadores digitais, de jogos de azar ou apostas não regulamentadas em lei. A proposta havia sido apresentada em 2023, diante da preocupação com a influência da publicidade, sobretudo sobre o público mais jovem.

Outras iniciativas ampliaram o debate. O deputado Lineu Olimpio (MDB) apresentou a proposta nº 21586/24, que trata da proteção à saúde e ao bem-estar social diante do uso de sites e aplicativos de apostas, e está sob deliberação da Comissão de Saúde da Casa.

De autoria da deputada Bia de Lima (PT), o projeto de lei que tramita no processo nº 21753/24 também tramita na Comissão de Saúde e estabelece normas para uma política de prevenção aos jogos de azar e apostas.

Já o deputado Anderson Teodoro (PRD), por meio do processo nº 26877/24, propôs a implantação de uma campanha estadual de conscientização. O projeto de lei também aguarda deliberação do colegiado temático.

Dr. George Morais (MDB) apresentou matéria no processo nº 4025/25 para tornar obrigatória a divulgação dos riscos associados às apostas on-line. O texto aborda, entre outros pontos, prevenção ao endividamento, atendimento psicológico e psiquiátrico, campanhas educativas e alertas sobre dependência e transtornos relacionados ao jogo. A matéria aguarda deliberação da Comissão de Saúde.

Há também um indicativo de proposição legislativa ao Poder Executivo no processo nº 12226/25, do deputado Lucas do Vale (PSD). A iniciativa sugere a criação do Programa Educacional Fim de Jogo, no âmbito da Secretaria de Estado da Educação, com o objetivo de conscientizar crianças e adolescentes sobre os riscos dos jogos de azar e das apostas.

A Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ) aprovou parecer pelo apensamento de projetos de teor semelhante. Entre eles está o processo nº 4812/26, de Jamil Calife (PP), que institui a Política Estadual de Prevenção e Combate ao Vício em Apostas Online e deve tramitar em conjunto com o processo nº 21753/24, de Bia de Lima.

Em 2026, Lineu Olimpio apresentou o projeto de lei que tramita no processo nº 8749/26, que propõe a Política Estadual de Prevenção e Apoio ao Tratamento da Dependência em Jogos de Aposta. A iniciativa reconhece a ludopatia como problema que exige atenção das políticas públicas de saúde e prevê o fortalecimento da rede pública de atendimento psicossocial, além de ações educativas, inclusive no ambiente escolar. Em sua análise pela Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ), a matéria recebeu parecer pelo apensamento ao processo nº 21586/24, de mesma autoria e relacionado ao tema.

A educação financeira também entra nessa discussão. O projeto de lei que tramita no processo nº 6934/26, do deputado Virmondes Cruvinel (UB), institui o Programa Goiano de Educação Financeira para a Juventude “Donos do Futuro”, com conteúdos relacionados a planejamento financeiro, consumo consciente, investimentos e empreendedorismo. Entre seus objetivos está prevenir o endividamento precoce e o uso irresponsável do crédito, especialmente em plataformas digitais e apostas on-line.

Goiás passa a ter política estadual contra a ludopatia

A mais recente resposta legislativa ao problema já está em vigor. Sancionada em 27 de agosto, a Lei Estadual nº 24.501/26 institui a Política Estadual de Prevenção, Conscientização e Atenção Integral à Ludopatia. A norma teve origem no processo legislativo nº 8818/24, de autoria do deputado Delegado Eduardo Prado (PL), aprovado definitivamente pela Alego em 4 de agosto.

A legislação estabelece como diretrizes o estímulo a ações educativas e informativas sobre riscos e consequências da ludopatia; estratégias de prevenção especialmente direcionadas a jovens, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade social; capacitação de profissionais das áreas de saúde, educação e assistência social para identificar precocemente sinais do problema; incentivo à realização de pesquisas; e parcerias com a iniciativa privada e organizações da sociedade civil.

A nova política se soma às iniciativas estaduais voltadas ao tema em um momento no qual estudos recentes apontam que as apostas podem ultrapassar o campo do entretenimento e produzir consequências no orçamento doméstico, nas relações familiares e na saúde mental.

Nesse contexto, informação e educação financeira ganham importância no enfrentamento do problema, inclusive para desfazer uma percepção identificada pelas pesquisas: a de que apostar e investir seriam práticas equivalentes.

Apostar e investir não são a mesma coisa. Quando a expectativa de sorte passa a ocupar o lugar do planejamento financeiro ou quando recuperar o dinheiro perdido exige uma nova aposta, o que parecia uma oportunidade pode se transformar em um problema de saúde, financeiro e social.

Agência Assembleia de Notícias - Reportagem: Rafael Vilarinho
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