Metrópole com grandes desafios
Símbolo de modernização, cidade tornou-se um centro urbano de grande porte, mas enfrenta problemas de mobilidade, preservação ambiental e patrimônio histórico. Na Alego, vários projetos contemplam a capital.
Ao completar 93 anos, neste sábado, 24, Goiânia mostra diferentes momentos de sua trajetória: o projeto de uma nova capital, o crescimento populacional, a consolidação como centro urbano e os desafios associados à expansão metropolitana. Sua história revela uma cidade que se modifica continuamente, sem deixar de carregar marcas de sua origem.
Em 24 de outubro de 1933, o lançamento da pedra fundamental de Goiânia marca o início de um projeto que mudaria a história de Goiás. Concebida para ser a nova capital do estado, a cidade nasceu sob a perspectiva de modernização e desenvolvimento e, ao longo de nove décadas, transformou-se em um dos principais centros urbanos do centro-oeste. Aos 93 anos, a cidade reúne marcas de sua origem planejada e os desafios de uma metrópole em constante transformação.
A escolha da região para a construção da nova capital ocorreu durante o governo de Pedro Ludovico Teixeira, que defendia a transferência da sede administrativa estadual. O projeto urbanístico inicial foi elaborado pelo arquiteto e urbanista Attilio Corrêa Lima. Em 1935, o nome Goiânia foi oficializado. A construção da capital integrou um processo de reorganização territorial e política que buscava impulsionar o desenvolvimento goiano.
Planejada inicialmente para abrigar cerca de 50 mil habitantes, Goiânia cresceu ao longo das décadas. A chegada de novos moradores, a expansão dos bairros e a ampliação das atividades econômicas modificaram a paisagem urbana e aumentaram a demanda por infraestrutura, transporte, serviços públicos e moradia.
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) dimensionam essa transformação. No Censo Demográfico de 2022, Goiânia registrou 1.437.366 habitantes, número muito superior à população inicialmente prevista para a capital. O crescimento populacional e a expansão urbana colocam em evidência questões que acompanham o desenvolvimento das grandes cidades brasileiras, como mobilidade, planejamento do uso do solo, preservação dos espaços públicos e oferta de infraestrutura.
Cidade em expansão
A circulação de pessoas é um dos aspectos centrais da vida em uma metrópole. O deslocamento diário entre moradia, trabalho, estudo e serviços exige planejamento integrado do transporte coletivo, das vias, das calçadas e das estruturas destinadas a pedestres e ciclistas.
Em Goiânia, as avenidas e os espaços públicos previstos no projeto original convivem com as demandas de uma cidade que ultrapassou amplamente a população inicialmente projetada. O desafio do planejamento urbano é conciliar as diferentes formas de deslocamento, considerando a acessibilidade, a segurança e a conexão entre bairros.
A mobilidade também está presente na agenda da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego). O projeto de lei nº 19530/25, de autoria do deputado Mauro Rubem (PT), propõe instituir uma Política Estadual de Mobilidade Inclusiva na Região Metropolitana de Goiânia e em regiões integradas de desenvolvimento. A iniciativa busca orientar o transporte coletivo com foco na inclusão social e na redução das desigualdades territoriais. Em agosto de 2026, a Comissão de Serviços e Obras Públicas aprovou parecer favorável à proposta, que ainda depende das etapas seguintes de tramitação.
Outra iniciativa relacionada ao tema é o projeto nº 16998/25, apresentado pelo deputado Virmondes Cruvinel (UB), que propõe criar o Estatuto do Pedestre em Goiás. A matéria prevê diretrizes para melhorar a segurança, a acessibilidade e as condições de circulação a pé, incluindo medidas voltadas às calçadas e à infraestrutura urbana. A proposta encontra-se em análise na Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ) para análise.
O incentivo a alternativas de deslocamento também aparece o projeto de lei nº 16.161/26, apresentado pelo deputado Coronel Adailton (Solidariedade), propondo reconhecer a bicicleta como instrumento de mobilidade, saúde, lazer e turismo. O projeto, que está em análise na CCJ, altera a lei nº 16.369, de 9 de outubro de 2008, que institui a Política de Incentivo ao Uso da Bicicleta em Goiás.
.A matéria busca atualizar os objetivos específicos da política estadual, incluindo o planejamento espacial dos deslocamentos cicloviários com atenção à acessibilidade e à equidade territorial, a implementação de infraestrutura cicloviária segura e conectada e a redução de sinistros de trânsito envolvendo ciclistas e motociclistas.
As propostas tratam de aspectos distintos da mobilidade e têm alcance estadual ou metropolitano. Em conjunto, ajudam a ilustrar como a circulação urbana, a inclusão e o acesso aos espaços públicos integram as discussões sobre o desenvolvimento das cidades.
Arborização
A presença de árvores, parques e bosques é outra característica marcante da identidade de Goiânia. As áreas verdes contribuem para a convivência, o lazer, a proteção da biodiversidade e o conforto térmico, além de desempenharem funções ambientais importantes no espaço urbano.
A preservação e a ampliação da arborização dependem, entretanto, de planejamento contínuo. A expansão das construções, a impermeabilização do solo e as intervenções nas vias públicas exigem medidas que conciliem infraestrutura, conservação da vegetação e manutenção das árvores existentes.
Em Goiás, a Alego também discute iniciativas relacionadas ao acesso à natureza. O projeto de lei nº 28271/25, de autoria do deputado Antônio Gomide (PT), propõe criar a Política Estadual para a Efetivação do Direito de Crianças e Adolescentes à Natureza e ao Meio Ambiente Saudável. A proposta prevê diretrizes para ampliar o acesso a áreas naturais, incluindo parques, áreas verdes urbanas e espaços próximos aos locais de convivência familiar, escolar e comunitária.
A matéria já recebeu parecer favorável na CCJ e foi encaminhada para as etapas seguintes de tramitação. A proposta também aborda a necessidade de acesso seguro e equitativo aos espaços naturais, com atenção especial a crianças na primeira infância, pessoas com deficiência e populações em situação de vulnerabilidade.
Outro projeto relacionado aos desafios da urbanização é o de nº 26787/25, de autoria do deputado Paulo Cezar Martins (MDB), que propõe instituir a Política Estadual de Drenagem Inteligente e Infraestruturas Verdes. A iniciativa prevê diretrizes para o manejo sustentável das águas pluviais e incentiva soluções baseadas na natureza. A proposta encontra-se em tramitação na CCJ.
História
Enquanto se transforma, Goiânia conserva elementos que ajudam a compreender sua origem. O conjunto arquitetônico e urbanístico em estilo art déco é um dos principais símbolos dessa memória. Edifícios públicos, monumentos, praças e avenidas preservam características do projeto que orientou a construção da nova capital.
Em 2003, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou um conjunto de bens arquitetônicos e urbanísticos de Goiânia, que reúne edifícios e monumentos ligados à formação da cidade. Entre os exemplares reconhecidos estão o Teatro Goiânia e a Torre do Relógio da Avenida Goiás. A proteção desses bens busca preservar referências importantes da história e da identidade urbana da capital.
A conservação do patrimônio representa um desafio permanente diante das mudanças no uso dos imóveis, das intervenções urbanas e das necessidades de manutenção. Mais do que preservar construções antigas, proteger esses espaços significa manter referências da formação histórica da cidade e de sua identidade cultural.
A memória de Goiânia também está presente em festas, feiras, manifestações culturais e espaços de convivência que integram o cotidiano dos moradores. Nesse campo, a Alego aprovou projeto de autoria do deputado Antônio Gomide, que reconhece a Exposição Agropecuária de Goiânia como patrimônio histórico e cultural goiano e incluiu o evento no Calendário Cívico, Cultural e Turístico do Estado. A proposta foi sancionada em abril de 2026, tornando-se a Lei estadual nº 24.253.
Realizada desde 1942 pela Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura, a exposição integra a trajetória cultural e econômica da capital. Embora o reconhecimento não se refira especificamente ao conjunto arquitetônico art déco, constitui um exemplo de iniciativa legislativa voltada à valorização de uma tradição histórica ligada a Goiânia.
Transformação
Conciliar desenvolvimento, mobilidade, preservação ambiental, patrimônio histórico e qualidade de vida é parte do planejamento de uma capital em transformação. As escolhas sobre a ocupação do território, a infraestrutura e a conservação dos espaços públicos ajudam a definir não apenas a paisagem urbana, mas também as condições de vida das próximas gerações.
O aniversário de Goiânia é uma oportunidade para revisitar o caminho percorrido e refletir sobre o futuro da cidade. Preservar sua memória e planejar seu crescimento são dimensões complementares do desafio de construir uma capital que mantenha sua identidade histórica e responda às necessidades de quem vive nela.